Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Irritações

 Li uma vez " assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa: uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual." e pergunto-me se sou este que aqui estou. 

Há na memória a irritação que vem de um olhar triste, da memória que existe, o fumo que sobe pelo peito e se perde na ausência, tropeço e não me alegro, deixo ir sem o tratar. É aquele fumo que me recorda de todos os momentos, todas as falhas e a falta de me faltar.

Quando a mão se perde e não consegue agarrar, quando a sinceridade não vem no vento, quando a palavra se perde no momento, quando não consigo chegar, quando a dúvida subsiste ou se algo eu pus fim, tu vens e abraças-me por dentro, percorres o âmago de dentro e não sais, ficas, rebolas e reviras, deixas-te fermentar sem que eu te consiga olhar nos olhos e dizer adeus.

Será que um dia nos cruzaremos, nos deixaremos passar, será que tu me conheces?

Será que um dia te olharei como amiga, um doce coração, me dirás se sabes ou não o que eu não vivi.

Ouço um dia mais o silêncio, o único som do vento que me trespassa, minha doce irritação, obrigado por vires, ainda te lembras de mim?

Gostaria de aprender a andar, contigo a meu lado e não em mim, onde perdesse o medo de te ver, que crescessemos fortes, lado a lado, cada vez mais longe, que não perdesse a força por não te ter, que não perdesse a força por te ter tido.

Sem comentários:

Enviar um comentário