Conta o silêncio do mundo que extravasa esta sala vazia, olho para o canto, avanço para a varanda escura, sinto o frio tactear-me a pele, abraçar-me os ombos, estou sem roupa, sem pele, estou à espera de algo que me faça sentir, que não seja cedo, que seja algo, mais, algo mais, vejo ao fundo as ondas do mar, uma orquestra adormecendo, não faz silêncio, não faz barulho, não vem em paz e não traz fé, larga-me, deixo-me abraçar uma vez mais pelo silêncio e pelo frio, gostava que fossem sal+icos penso, gostava que fosse sal, que me ardesse na pele de fora como arde na pele de dentro, que o peso que temho no peito de dentro fosse o peso do peito de fora, durmo só, que quem me agarra nos pulmões de dentro, me empurasse a fé por fora, me expirasse o medo e me soprasse a temperança, ainda pode ser cedo, preciso de algo mais.
Então deixei-me ir, abracei-me por dentro e por fora, cumprimentei a alma que me foge e vai ao mar, não é cedo, aceito quem me aperta por dentro e quem me queima a pele que não é beijada pelo frio.
O peso do mundo...do meu mundo, do meu corpo, o peso que está dentro e não fora. Curioso como o frio que sinto na pele de fora não é nada comparado com o frio que tenho na pele de dentro, precisava de algo mais, que me desse equilíbrio de dentro para fora, que me deixasse adormecer na névoa, me fizesse silêncio de dentro, por muito silêncio que haja fora, muito espaço que tenha esta varanda vazia, estou apertado, não tenho espaço, não tenho tempo, tenho os sons todos do mundo presos nos meus ouvidos, as ondas todas do mar nos meus olhos fechados.
Precisava de algo mais, que fosse menos dentro, que fosse mais de fora...é tarde para quem perdeu o tempo dentro de si.