Há palavras que não saem pelo peso que têm, deixam-se cair na garganta e afundam-se no profundo corpo, têm peso, são camadas densas de coisas sem nome, são as que mais querem sair, bebem ar, exigem oxigénio, quanto mais se revoltam, voltam, para sair, mais se afundam, são as palavras que crescem ao contrário, de dentro para fora, do coração para a razão, são as palavras sem nome, são as pessoas sem ar. A palavra mata, não aquela que sai, a palavra que fica é a que mais mata, afundam o corpo por dentro, consome o ar que se inspira, afunda num lago que não existe mas que comprime o ar que deveria entrar. As palavras que ficam são as que matam, são as que tiram a vida sem a tirar, comprimem e oprimem devagar, apertam no peito e ficam maiores, são as que apertam cá dentro, crescem por dentro, ficam cada vez maiores, insufladas, cheias, gordas, por muito que cresçam cabem sempre, por muito que aumentem ficam por dentro.
A palavra mata.
Eu respiro sem ar.