Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Sem distância

 Longe vai o tempo que o carro is cheio de estranhos, a madrugada era fria e o destino é o mesmo, já não somos estes que aqui se sentam, o nosso olhar não é o mesmo, o destino mudou, mas ainda sei quem são estes dois, ainda tropeçam um no outro, todos os dias, em pensamento, ainda sabem o lugar um do outro, sem se ver, sem se tocar, há uma memória bonita, de futuro, a melhor delas. 

Vamos juntos pela cidade, não importa quantas vezes, caminhamos de mãos dadas sem nos tocar, crescemos aqui no coração um do outro, sem por fins no caminho, sem deixar silêncios por dizer, será que ainda nos conhecemos?, sim, sempre, o tempo passa e não esquecemos, quem fomos, quem somos e o que seremos, o nosso doce coração fica no mesmo lado da memória.

Sempre que me lembro, lembro de ti, sempre que cresces, cresço contigo, se a tua alma transborda eu serei o vaso que a guarda, se o teu sorriso trespassa, serei o espelho que a guarda, se a lágrima cai, estarei lá para a guardar como um tesouro, cuidar, proteger, ainda nos lembramos de nós.

Quando um dia voltarmos àquele autocarro cheio, velhinhos talvez, enrugados, saudosistas, teremos esta longa história, esta família à nossa volta e uma memória que ainda existe, ainda sabe quem é.

Até lá, ainda agradeço a tua voz e o teu abraço. Até lá, guarda o meu carinho e amor, que eu não consigo deixar longe de quem colhe a madrugada. Nesta cidade e nas outras, no mundo grande que nos sustenta, onde crescemos hoje, onde eixstirem fins e começos, onde existir lembrança e esquecimento, tempo e espaço, seremos, enfim, parte doce do mesmo coração, abraço quente da mesma memória.

Sempre.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Irritações

 Li uma vez " assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa: uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual." e pergunto-me se sou este que aqui estou. 

Há na memória a irritação que vem de um olhar triste, da memória que existe, o fumo que sobe pelo peito e se perde na ausência, tropeço e não me alegro, deixo ir sem o tratar. É aquele fumo que me recorda de todos os momentos, todas as falhas e a falta de me faltar.

Quando a mão se perde e não consegue agarrar, quando a sinceridade não vem no vento, quando a palavra se perde no momento, quando não consigo chegar, quando a dúvida subsiste ou se algo eu pus fim, tu vens e abraças-me por dentro, percorres o âmago de dentro e não sais, ficas, rebolas e reviras, deixas-te fermentar sem que eu te consiga olhar nos olhos e dizer adeus.

Será que um dia nos cruzaremos, nos deixaremos passar, será que tu me conheces?

Será que um dia te olharei como amiga, um doce coração, me dirás se sabes ou não o que eu não vivi.

Ouço um dia mais o silêncio, o único som do vento que me trespassa, minha doce irritação, obrigado por vires, ainda te lembras de mim?

Gostaria de aprender a andar, contigo a meu lado e não em mim, onde perdesse o medo de te ver, que crescessemos fortes, lado a lado, cada vez mais longe, que não perdesse a força por não te ter, que não perdesse a força por te ter tido.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Velocidade

 Desces pelo Chiado, passas por Pessoa, cais e esfolas o joelho, levantas, com o dedo molhado nos lábios gretados passas pelo joelho esquerdo, queima pouco, tem pouco sal, que sorte, que azar, pelo menos passará rápido com o néctar que é a tua saliva, levantas, ajeitas a roupa, a camisola desce mais um pouco, os calções ajeitam-se rentes aos joelhos, um deles ferido, o outro resiste enquanto espreita a sorte, voltas e danças pela rua abaixo, não trazes hoje os nós da alma, a vida é caos, é um abraço do destino ou uma chapada do azar, tal como na queda, fintas o destino na ignorância da cegueira, o teu controlo finda na dança que queres prendar a calçada deste Chiado que não te pertence mas é teu.

Entras em velocidade naquela descida, vendo os azulejos a reluzir o sol que hoje beija também com calma, sais para dançar, rodopias, olham para ti e rodas ainda mais para ver se os olhos dos outros também gira e se voltam para dentro, há muito por ver, muito mais nos dentros das pessoas do que nos tetos deste que dança.

Velocidade, é a nossa dança.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Colo

 Preciso de falar contigo, não sei onde estás e muito menos quem és, quem poderás ser, estou a sós, de luz trancada e de silêncio ligado, calado na voz, olhos carregados de mar, folgando os nós das roupas, das almas, deixo transbordar de mim as datas e as contas, as dores e as memórias, tentanto ficar de mãos vazias, não consigo, quando quero falar contigo não sei onde estás, não sei quem és, aceito a dor e com ela nada faço senão mirá-la, observá-la, com calma, plácido, ammaso-a, viro-a, rodopeio e ela nada faz, cresce, lambo-a, nada, abraço-a, vejo-me tristonho nela, acho-me medonho nela, nada acontece. E se eu quiser falar contigo, não sei onde estás, nem sei quem és, aventuro-me sozinho à tua procura, subo ao céu, desço ao inferno, sem cordas, arrasto-me nas paredes calcárias, digo adeus às esquinas que cruzo, dou as costas a todos os caminhos, a todas as estradas e não vou dar a nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, que eu possa segurar.

Não preciso de falar contigo, nem sei onde estás e muito menos quem poderias ser. Sei que precisava do teu colo e do teu silêncio, saber que tudo iria correr bem, mesmo que continuasse perdido sem nada ter de encontrar.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Ilha

 Já tentei mudar, por um sorriso no rosto, um abraço apertado no corpo, tentei ser bom, ser melhor, mas acabo no mesmo espaço, tentando ser diferente, mas será que sou apenas um ator, gostava de ser perfeito mas não sou daqui, envio sinais de fumo, ninguém vê, na ilha onde estou já não sinto o sol, o sal do mar não me arde, não me cura, estou demasiado longe do centro, não sinto a areia nos pés nem a brisa na face, não há arranjo para quem nasce desassossegado.

Se tivesse menos espinhos num corpo, ou uma pele mais lisa nas mãos, sem os sinais do tempo, sem as linhas da destruição, passaria no rosto de quem se avizinha, aproximava de quem está perto, o mais dificil é saber quem sou e que não há solução para quem solucionado está, não há alturas para quem nasce baixo, não há espaço para quem não ocupa lugar, somos diferentes e eu não tenho arranjo.

Pego num barco a remos improvisado, com as madeiras do corpo, os braços da alma, sei quem sou e isso é o mais dificil, não tenho arranjo, não sou daqui, grito ao vento num soluço baixo, dou mais sal ao oceano e arranco, não sei para onde, não sei porquê, sei que não sou daqui.

sexta-feira, 28 de março de 2025

Sem som

 Quero escrever em silêncio, penso ser a primeira vez que, aquando do processo de deixar cais palavras numa folha branca, não tenho um som a abraçar-me no fundo, precisava do silêncio hoje, de sentir apenas as teclas eclodirem nos meus ouvidos, o som mecânico, factual e frio que vem da máquina, não do homem, não da inspiração divina ou de outra coisa qualquer. Fico desconfortável, já não escrevo muito, perdi no rasto dos anos o resto das palavras que guardava para mim, para ti, deixa-as ir por falta de uso. É o que acontece certo?, perdemos o que não usamos, deixa-nos o que não nos faz falta naquele momento e é muito mais dificil conquistar do que perder, pensariam assim os guerreiros dos outros tempos? As palavras foram-se no silêncio e hoje, acho, esperava que o silêncio trouxesse de volta as palavras, as minhas, não as das músicas e dos poetas que, usualmente, habitam no meu fundo e me usam como uma marionete seca para escrever o que sinto e o que penso, no silêncio poderia voltar as minhas, as minhas, palavras, os meus, os meus, sentidos e sentimentos que me preenchessem novamente, arrancassem este vazio grande e claro que me tolda os olhos e me aperta a alma. Não aconteceu, não vieram, deixaram-me com o som mecânico das teclas, com o silêncio da sala e da alma e, uma vez mais, com os olhos secos de quem perdeu a força de chorar. A facilidade com que saem as letras não coaduna com a dificuldade que há em lhes empregar sentido, em lhes dar cheiro, não para outros que poderão, ou não, sentir algum leviano com o passar dos olhos pela tinta preta digital empregada gratuitamente aqui, mas para mim, para que possa sentir o cheiro da alma nas teclas que carrego sem grandes forças, sem grandes sentidos, num vómito inglório de quem tenta trazer a si algo que não tem mais dentro. É isto que nos traz o mundo de hoje, o mundo dos crescidos, uma atuação mecânica e óbvia dos sentidos e das rotinas, do digital e da proximidade longíqua de quem se trata por tu atrás de ecrãs, é isto que deixámos nos campos de Caeiro, abandonados e verdes, verdades, que tratam a solidão por tu de uma forma muito melhor do que nós a tratamos por nós.

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Sorriam

 Aprendemos tanta coisa na jornada e nos dias, queremos contar tanta coisa e viver ainda mais, sonhar e transladar para o real, o toque, o som, o silêncio, o toque é menor do que a vida, aprendemos a ver os perigos das esquinas, os sorrisos tortos na sala, os sinais fechados aos jovens e os beijos guardados para a lua. Fizeram-se braços, abraços e lábios, vozes e murmurios, silêncios, perguntas-me pelo meu caminho e respondo sem som, fico por aqui, neste canto calmo, nesta estrada segura, com as feridas vivas do meu corpo, com os laços presos no meu espírito. 


Aprendemos tanta coisa na jornada, põe-te direito, engole a dor, faz tudo o que tiveres que fizer, sê o mesmo que eras, muda para o que tens que ser, vive, não vivas, guarda, separa e liberta, engana nas aparências, vislumbra os vultos, desaparece e aparece, diz que estás fora ou grita que não saiste de dentro, ama o passado, apaixona-te pelo futuro.


Aprendemos tanta coisa na jornada, ideias, consciência e juventude, deixa-te guardar por deus, culpa-o pela dor, abraça pelo espinho, apesar de fazer tudo o que fizeres, és o mesmo.


Aprendemos tanta coisa na jornada mas quando a câmara aparece e a foto se prepara, sorri como te manda a voz que se esconde no obturador, sorri com os lábios, os olhos, esses, podem abraçar as lágrimas que ainda não podem sair.