Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

domingo, 20 de setembro de 2015

Maugham

Gastámos tudo, gastámos o silêncio nos becos, os olhos com o sal de lágrimas que caíam sem sentido, gastámos as algibeiras de procurar o que nunca existiu, gastámos o ar com o bafo de muitos cigarros sem sentido, e as palavras com os poucos significados que lhas damos, a verdade com as vezes que duvidámos dela e as muitas outras em que não as usamos. Gastamos os segredos com a luz da manhã, o oceano com o pouco dos olhos de tantos outros que o miravam, a solidão com a companhia de ninguém e a multidão ao não acontecer nada.

Antes que de tudo se faça nada, tenho a certeza que todas as coisas estremecem, todo o mundo se finda por segundos, no silêncio de uma lágrima, com a voz mais trémula, não há mais nada a dar, não há mais garra a sentir, estão gastas!

E quando tudo faltar, sabes que de ti faltará também tudo, o passado é inútil, a vida está gasta

Adeus a Maugham e a todos os que dele falaram

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Naufrágio

Pus os meus sonhos num barco à vela, já de toque envelhecido pelos raios de sol, já com a madeira pisada, riscada, por todas as viagens que cruzou, enchi o mundo em si, coloquei-lhe com as mãos molhadas do azul das ondas, queimando ao pouco o toque pelo soalho rispido da madeira, e a areia que escorre dos dedos fica nos espaços ocos do vento de longe, as velas tremem aos primeiros raios da noite, debaixo da água, o casco rompe lento, morrendo a cada batida, chorando em cada maré, no que for preciso a vela remesce, treme e chega ao fundo do tempo e o sonho chega ao silêncio.

Choram agora as ondas ao ver o barco partir, crescendo consigo pelo horizonte do porto e no fundo do tempo, ao fundo do mar, chegam os sonhos que desapareceram.

No fundo do mar fica, tudo o que o vento já não consegue alcançar.

Naufrágio.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Conhecer

É preciso muito para saber, de que são feitos os Homens, de que matéria se enchem as estrelas quando brilham, de que cor tem o mel ao reluz do sol, como voa o oceano pelas correntes do mundo, é preciso dar, precisar de ajuda, ser tu mesmo, e de relance, preencher o mundo de toque, de visões solitárias, de tudo mesmo quando não se tem nada, porque é prciso muito para perceber, muito para ter a distância correcta do sonho e do real, da terra e do céu, do ser e do ter, para se perceber com o sentido certo o sentido das coisas, mesmo as erradas. As crianças e os adultos, precisam de dar muito, de pedir mais, de ser tudo e ter na perspetiva do imediato o tempo inteiro do espaço para, lentamente, ir desvendando os pequenos espaços intrínsecos das coisas, o vislumbre nulo dos olhos sujos do mundo e ir tocando com a alma os dedos gastos das obras do dia, vivendo em cada segundo a vida inteira das horas, notando, a cada pequeno gesto, a cada simples movimento, um sossego desassossegado do que o corpo precisa para não ser só, somente, um corpo, uma obra cara de vazio conteúdo. De que tens medo de perder, o que pensas se te perderes, o que sentes se te custar saber, que sacrilégio, que pecado, que dor, que amargura, que perdas de alma maiores e que silêncios tortuosos te chegam?

É preciso muito para se ter e muito mais para se ser quem tem.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

De Noite

Manténs as tuas preces por dentro pode ser que lá te curem, ouves enquanto correm pelo teu sangue devagar, entrando em soluços pelos mais profundos órgãos do corpo, entrelançando-se, amordaçando, e contorcendo cada parte de si num silêncio, numa quebra de fé, uma vez encontrei a paz e ela sorriu-me de desdém, vestia de branco, sorria, emanava música, pedia um toque de silêncio, era vaga e, depois, virou as costas, partiu, não me chamou, disse-me que perto teria respostas, não desistisse.

De noite, não se dorme enquanto o amanhã fica na penumbra do tempo, no breu do escuro, cada um na sua corrida, cada esperança no seu cavalo, não há respostas, não há perguntas,

Corre, destrói, arranca, parte, grita, solta,

A paz de longe sorri e sabe que cada  voo é único, cada choque mortal, cada toque especial, um dia voára com quem perdeu as asas no caminho,

De noite não, esta noite não.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

ArMas

E mais uma queda e levantas-te de manhã, não conquistaste o espaço, não deixaste a guerra, e no nosso mundo sem armas, amas o que mais tens que amar e sem grandes multidões à deriva, confias no silêncio que não tens, continuas a lutar por ti, e para lá dessa pele rija e sorriso suave, está um mundo de letras por juntar, um mundo de frases por construir que, quando ordenadas placidamente no sentido último das coisas nenhumas, será no sentido único, o único sentido de sentires coisa alguma. Ficas de olho aberto pela noite, não sabes se sobrevives, não sabes se alguém te salva, e queres a vida, queres que alguém te salve mas é difícil escolher o certo, quando não se sabe o que é errado, irado, e com pele rija e coração. lutas, não me verás cair em pedaços nem destruir em sonhos, não saberás ver onde caio e muito menos de onde me levanto, não verás de mim parte fraca do que não sou, nem sonho sonhado do que não fui.

Puxa, aperta, corre, cega, não verás cair quem sempre se levanta, não perderás a guerra com quem de armas não precisa.

A maior arma é ter no dia inteiro o infinito do tempo para te ter.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Mudança

Não sabes o que se passa mas tudo muda, todas as pessoas mudam, dizes-me que não sabes sobre a vida mas quando se pensa um pouco sobre tudo, é tanta a dúvida que só podemos ter certezas, corre, morde e parte, a dor que temos nos olhos é o não saber do porquê da mudança, então, pelo corredor do tempo, quando tentas perceber o que é isto, quando te mexes apenas para ficar, quando simplesmente sabes que não sabes, tudo muda e só o teu nome fica, e só o teu ar fica, já passaste por tantos sonhos e adormeceste em tantos pesadelos, não parece certo que tudo mude, então quando o tempo passar e tentares perceber o que és, quando ficares não ficares no jogo mas criares o teu, quando tudo mudar e ficar simplesmente igual, quando, quando, quando,....

Então, o quando é teu, o momento nosso e o jogo o que decidirmos jogar hoje.
Precisas de começar por algum lado? É aqui que sonhámos, o simples de ter aqui tudo, estamos a ver o tempo passar e precisamos de nos agarrar para não passar, e o vento corta, o começo parte, e nós vamos, apenas para um sítio, longe, pode ser o fim de nada e o começo de todo, onde apenas eu e tu sabemos, onde apenas eu e tu podemos estar. Simples coisas, deixa-te ir e começa!

Temos tanto

Temos tanto...
Dois pássaros a voar, duas mãos juntas e a janela aberta sobre o horizonte, as certezas que ninguém perguntou e o silêncio disse, o que voa na recordação e ter tudo por dizer, todos os dias e a vida não chega, há um céu e um mar, um infinito por descobrir, uma terra por explorar, o que se escreveu é sempre linha branca do que ainda não está escrito e, devagar, o tempo passa mas não por nós, há tanto para contar, tanto para viver, tanto para amar, e a vida não chega. O tempo aqui parou e a saudade ficou, é hora, não é desencontro, não é silêncio, é toque e vida, é voltarmos sempre ao sítio de onde não saímos.

E ficamos... Temos tanto que tudo parece tão pouco.