Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

terça-feira, 7 de abril de 2026

A palavra mata

 Há palavras que não saem pelo peso que têm, deixam-se cair na garganta e afundam-se no profundo corpo, têm peso, são camadas densas de coisas sem nome, são as que mais querem sair, bebem ar, exigem oxigénio, quanto mais se revoltam, voltam, para sair, mais se afundam, são as palavras que crescem ao contrário, de dentro para fora, do coração para a razão, são as palavras sem nome, são as pessoas sem ar. A palavra mata, não aquela que sai, a palavra que fica é a que mais mata, afundam o corpo por dentro, consome o ar que se inspira, afunda num lago que não existe mas que comprime o ar que deveria entrar. As palavras que ficam são as que matam, são as que tiram a vida sem a tirar, comprimem e oprimem devagar, apertam no peito e ficam maiores, são as que apertam cá dentro, crescem por dentro, ficam cada vez maiores, insufladas, cheias, gordas, por muito que cresçam cabem sempre, por muito que aumentem ficam por dentro.

A palavra mata.

Eu respiro sem ar.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O silêncio salva

 Noutro lugar deste mundo, longe de mim, anoiteço no meu corpo, morto, apagado da vida, apagado da luz, nunca teve com calmo, nuna teve tão escuro, quer começar do início da vida, fora do útero, dentro das amarras, perceber os erros dos caminhos e ter a distância deles, pedir ar quando sufocoa, pedir asas quando cai, pedir voz no silêncio e cara no gesto.

Quero anoitecer noutro corpo, noutra vida, bem longe, no tempo e no espaço, erceber de que rios são feitos os meus olhos, de que searas se faz o tempo, de que verde é a esperança, que toque tem o amor, que paz tem o ruído, saber nos cantos redondos do mundo o que sou e para onde vou, tirar de mim este desejo contante de estar longe da vida, trazer ao corpo a dor imensa de ser eu,, projetar-me no que quero, não o que eu quero, somos dois na mesma pele, dois silêncios diferentes no mesmo quarto escuro, dois olhos que se miram sem perder.

Sou um espelho de mim que não se reconhece, vejo os dedos dactilografar estas letras perdidas e minhas não as são, deixam-na ir, também não são dele, são apenas acasos caos que renascem no vazio do papel, na dor imensa do espaço vazio que se ocupa de escuro, um recomeço de dois que não o são, que não sobrevivem um sem o outro, que não vivem enquanto estiverem juntos.

Quero-te arrancar de mim, quero-me arrancar de mim, apagar a sombra que sou, deixar-me vazio.

O silêncio salva a alma que se perdeu. A minha fica aqui no ruído da solidão que somos nós, eu comigo.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Algo Mais

 Conta o silêncio do mundo que extravasa esta sala vazia, olho para o canto, avanço para a varanda escura, sinto o frio tactear-me a pele, abraçar-me os ombos, estou sem roupa, sem pele, estou à espera de algo que me faça sentir, que não seja cedo, que seja algo, mais, algo mais, vejo ao fundo as ondas do mar, uma orquestra adormecendo, não faz silêncio, não faz barulho, não vem em paz e não traz fé, larga-me, deixo-me abraçar uma vez mais pelo silêncio e pelo frio, gostava que fossem sal+icos penso, gostava que fosse sal, que me ardesse na pele de fora como arde na pele de dentro, que o peso que temho no peito de dentro fosse o peso do peito de fora, durmo só, que quem me agarra nos pulmões de dentro, me empurasse a fé por fora, me expirasse o medo e me soprasse a temperança, ainda pode ser cedo, preciso de algo mais.

Então deixei-me ir, abracei-me por dentro e por fora, cumprimentei a alma que me foge e vai ao mar, não é cedo, aceito quem me aperta por dentro e quem me queima a pele que não é beijada pelo frio.

O peso do mundo...do meu mundo, do meu corpo, o peso que está dentro e não fora. Curioso como o frio que sinto na pele de fora não é nada comparado com o frio que tenho na pele de dentro, precisava de algo mais, que me desse equilíbrio de dentro para fora, que me deixasse adormecer na névoa, me fizesse silêncio de dentro, por muito silêncio que haja fora, muito espaço que tenha esta varanda vazia, estou apertado, não tenho espaço, não tenho tempo, tenho os sons todos do mundo presos nos meus ouvidos, as ondas todas do mar nos meus olhos fechados.

Precisava de algo mais, que fosse menos dentro, que fosse mais de fora...é tarde para quem perdeu o tempo dentro de si.