Quero escrever em silêncio, penso ser a primeira vez que, aquando do processo de deixar cais palavras numa folha branca, não tenho um som a abraçar-me no fundo, precisava do silêncio hoje, de sentir apenas as teclas eclodirem nos meus ouvidos, o som mecânico, factual e frio que vem da máquina, não do homem, não da inspiração divina ou de outra coisa qualquer. Fico desconfortável, já não escrevo muito, perdi no rasto dos anos o resto das palavras que guardava para mim, para ti, deixa-as ir por falta de uso. É o que acontece certo?, perdemos o que não usamos, deixa-nos o que não nos faz falta naquele momento e é muito mais dificil conquistar do que perder, pensariam assim os guerreiros dos outros tempos? As palavras foram-se no silêncio e hoje, acho, esperava que o silêncio trouxesse de volta as palavras, as minhas, não as das músicas e dos poetas que, usualmente, habitam no meu fundo e me usam como uma marionete seca para escrever o que sinto e o que penso, no silêncio poderia voltar as minhas, as minhas, palavras, os meus, os meus, sentidos e sentimentos que me preenchessem novamente, arrancassem este vazio grande e claro que me tolda os olhos e me aperta a alma. Não aconteceu, não vieram, deixaram-me com o som mecânico das teclas, com o silêncio da sala e da alma e, uma vez mais, com os olhos secos de quem perdeu a força de chorar. A facilidade com que saem as letras não coaduna com a dificuldade que há em lhes empregar sentido, em lhes dar cheiro, não para outros que poderão, ou não, sentir algum leviano com o passar dos olhos pela tinta preta digital empregada gratuitamente aqui, mas para mim, para que possa sentir o cheiro da alma nas teclas que carrego sem grandes forças, sem grandes sentidos, num vómito inglório de quem tenta trazer a si algo que não tem mais dentro. É isto que nos traz o mundo de hoje, o mundo dos crescidos, uma atuação mecânica e óbvia dos sentidos e das rotinas, do digital e da proximidade longíqua de quem se trata por tu atrás de ecrãs, é isto que deixámos nos campos de Caeiro, abandonados e verdes, verdades, que tratam a solidão por tu de uma forma muito melhor do que nós a tratamos por nós.
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