Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Não sou o caminho

Há quem procure caminhos a percorrer, directos, com luz, torneados de simplicidade estética e negação completa de contornos obtusos, onde passam silêncios calmos e sítios pacíficos, onde nasce o mar e o oceano se completa em tons azuis de alegria juvenil, criações deificas de um deus menor.
Nunca sou o caminho certo a seguir, escolhido, obtuso, perdido, emaranhado nele próprio, com cruzamentos na alma e entorses nos olhos, baralhado em si mesmo nas confusões muito benditas da vida. Não há luz que brilhe nem noite que fique, não há um silêncio eterno nem um perfil de barulho definido, apenas um aborrecido meio termo de tudo, uma relatividade absoluta do tudo, um tanto faz obrigado na alma, e uma indiferença cinicamente falsa de quem finge ter poucas opiniões.
Por se ter todas as opiniões do mundo, por se ter tanta escuridão como luz e por todos os paradoxos fingidos que se criam, não sou o caminho certo a seguir, podes sempre vir e ser a pessoa errada, quem sabe faremos algo certo no meio de todos os erros, não há por onde fugir, se ficares nunca poderás vir.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

St. James

Na enfermaria onde repouso há um branco em toda a parte, as paredes são brancas, as camas metálicas mas brancas, os lençóis pálidos e as pessoas plastificadas, não há nada de luz neste branco, apenas vazio, uma busca incessante nas imagens brancas por algo que nos nutra de sentimento, algo profano que nos corrompa e nos faça ser homens, mais que animais. Nesta ala não há mais pacientes, não subsistem gritos nem mordaças, não há camas partidas nem lençóis desfeitos, tudo está na mesmíssima precisa distância apocalíptica que criou o humano, perfeito, inteiro, branco, único, limpo, sem sinal de vida, sem subsistência de morte.
Ao fundo, perto das janelas que revestem toda a parede e dão para sítio nenhum, que não reflectem as árvores da rua, nem os pássaros dos campos, só branco, sem luz, pálido, há um piano de cauda, um tradicional hollywodesco piano, em silêncio. Toca a primeira nota, e silêncio, e a escala vem, resplandece tudo de vida e cala. Silêncio. Renova, volta, vem, nasce de novo e numa exígua perspicácia mantém-se perene no som, e cria ritmo, e faz vida e faz sentido, e sem nada transparecer nasce.
Saio da cama, não me calço, não me visto, sigo. Ao ritmo da melodia, ao som dos acordes, sentindo toda uma nova fragrância a queimar-me o corpo e a impelir-me ao movimento, crio passos, não os dou, crio, mais pesados, mais compassados. Silêncio e tudo para.
Se eu me ficar por aqui, deixei-me com o piano, talvez um dia ele toque alto e eu volte para acabar o que nunca ganhou começo.


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Fragmargens II

Não me quero destruir, não me quero olhar, quero acabar longe, num sítio só meu, onde possa ver o mar, onde possa plantar árvores e vê-las crescer, onde possa dizer que não tenha paz e onde possa pedir mais, onde há bancos de madeira vazios e mares por provar, onde a areia queima nos pés, cortando-os em pequenos golpes sem dor, onde se construam cidades pelos rios e barcos com as marés, onde possa ir, sem nunca voltar, sem nunca me  deixar.  Ser folha branca para todas as tintas do mundo, sensação para todos os ventos, corpo para todas as facas e pensamento para todos os ignorantes, só mais uma vez, só esta vez.
Onde passa o frio, onde jogo comigo, onde me tenho para me sentir bem, onde o calor passa pela manhã e a lua cai de tarde, onde penso em ti, sem dor, sem sentimento, só pensar como criança inocente a brincar ao faz de conta.
Quero é ver, sentir, provar, ir, ser , liberdade, criar margens.
Ser à margem do mundo, a margem de mim mesmo.

Deixar para trás

Esconder, guardar, deixar, queimar, ficou a noite rendida, uma janela para o rio e um monte no longe, o vento está mais frio e a noite mais barulhenta, tu olhas-me com ar sério, uma carta rendida e um vazio a esperar, uma letra apagada e um beijo roubado, um toque que se desmancha e uma memória que renasce, uma festa que se ganha, uma pedra que cai, uma fuga no campo, um rio que bate e uma rocha que não cede, um bafo quente e um olhar perdido, não és tu, não somos nós que nos perdemos, só os outros não nos encontram, o cenário manda dançar, a noite faz lembrar, tu não és nada, a madrugada vem, os carros apitam e a gente olha, vejo os teus traços, os meus lábios, acabo em ti, nasces de nós, tenta parar, o corpo não deixa, a boca não morde, as mãos não largam, a noite aquece, o vento foge, as ervas crescem, e nós perdemos, nós esquecemos, nós somos, nós estamos, nós não existimos, vês?, estás só!

Quimera

Tropeço em mim e passo por Lisboa. Cresce em cada caso uma milagrosa magia de desprezo, de desconfiança e nojo, somos nós a morrermos sós. Se me bateres à porta, hoje, direi que não, não quero ilusões, nem transtornos aos olhos, se vieres direi que não, se um dia nos virmos sorrirei com gosto como quem passa por um oásis em pleno deserto, até lá nego. Nego querer, nego ser, nego tudo e nego-me ao silêncio.
Há nesta rua demasiada gente a passar, gente de negócios bem vestida, artistas descambidos e personalidades exuberantes, não há som contudo. Chove e não oiço nada. Não bate em terra a água pura do céu, não salpica os olhos, não limpa a alma apenas passa por nós como a noite, não fica, não deixa, vem e parte como tudo o resto. Ouve a chuva na terra molhada, não aqui, longe, rasga a luz em som e talvez me oiças a dizer adeus.
Quando a chuva vem de noite e ninguém bate à porta, não salto da cama, nem me aparto nela, sinto-me num limbo de quem não é, não é sossego, nem é esperança, não sente, nem dói, subsiste.
Quando a noite passa e a madrugada vem, quimeras são as que ladrão pelos terrenos lamacentos deste bairro, porque vivo?, ironicamente passam outros.
Quando bateres à porta nego que te abra,
Não te garanto que esteja fechada.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

E depois partes

Um pequeno toque no braço, por muito longe que os meus olhos te apanhem, aquele breve suspiro que fazes quando acordas ao meu lado e eu não te vejo, o brilho que há nos nossos olhos quando se cruzam e as pequenas letras que, tecidas, nos entrelaçam, juntos, estreitos, numa espiral infinita de desejo e sabedoria parva, um tom sentimental, nada nosso. E voamos, imaginamos mundos, construímos universos, pequenas criações juntas, pautadas pelo sorriso imaginário de duas crianças que trocam palavras como quem troca carinho.
Depois, silêncio.
No fim, partes.
Fica o espaço sempre que voltas, deixas silêncio sempre que partes.

Será que dissemos o quanto mudámos a vida um do outro, quanto criámos, quanto ainda queremos criar e se queremos o mundo?
Podemos amanhã não dizer e amanhã ser tarde demais.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Noite IV

Sigo sozinho nos desertos do meu carro, profanando a cada curva os segredos intrínsecos da memória do teu corpo, circundo os sítios populosos e chego à solidão da terra. Confuso e abstracto, que tenha eu frieiras se as multas que me chegam são muito menos do que as que passam, tenho eu arranhões na alma, riscadas pelas tuas unhas cravadas em agonias lentas.
Como dizia uma criada que mal sabia ler, o meu momento é o presente, vou para a cama estou doente. Estou longe dela, de tudo, junto do silêncio e deste nuvem de fumo que começa a embaciar as janelas do carro, já ninguém me vê lá dentro.
Tira tudo, perde-te, não sei ler também, deixei na cidade o que me põe doente.
Não há ninguém aqui. Ninguém aqui fica, tudo o que vem passa porque eu não aprendi a fechar portas, só a abrir fechas por onde usurpa o espaço, Não te quero. Quero-te. Não sei que mais querer senão uma beata de cigarro a escorrer me no braço, queimando lentamente o seu caminho até numa volúpia escarlate desafiar a gravidade a pequenos soluços e atravessar um chão que não se deixa trespassar.
Um bafo mais quente e uns faróis que passam, nem a luz aqui se deixa prender.
Não há espaço nos bancos para que cries margens, nem tempo para te deixares ir. Vivo do que me dão, até não viver mais e ter que procurar ódio nos olhos de outro alguém.
Saio dele, o vento bate frio, o cigarro ressente-se e a alma apaga-se, os pequenos toques no vento ao passo ritmado da dança do casaco lembram-me de ti, um dos 'ti' que por aqui passou, não estás, eu não quero, eu quero. Deixas-te passar como este vento também passa, como as ervas também voam e como os pássaros se vão esconder nos recônditos caminhos de deus. Viver do que nos dão é tão menos do que viver com o que se quer.
Acende-se o último e já não sei ler, a porta ficou aberta e eu persigo a chapa das restantes, queimando a mão no frio ardente que ali vivia, ou apenas passava, chego ao fim dele e continuo, Olho de relance para trás, vejo, no vidro pálido vejo, na chapa iluminada pela brisa, vejo, no pequeno traço espelhado da marca, vejo, e só me vejo a mim,
Continuo, uma lágrima caí e mais um bafo se enche, o corpo contorce-se mas não para, a alma dói mas não se vai, todo os meus olhos se fixam naquela imagem e no fumo que agora a cobre,
Porque me traíste tanto?
e eu não consegui responder