Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

sábado, 22 de março de 2014

Não se deitam comigo corações obedientes (A Naifa)

Expludo o rosto na parede, talvez na última canção, onde os corpos se contradizem e as almas se reacendem, as paredes já são outras e as caras perdem-se em novos corpos, voltamos a ela muitos silêncios depois, deixei longe o que me deixaste, numa casa difícil de habitar, num sótão impossível de sobreviver, comigo não, contigo nunca, há uma falha no lugar intenso que temos, é melhor ficar assim, sem queixas de inconvenientes, nem trocas protocolares, é este o tempo que deixaste é com este que ficaste.
A tua boca é silêncio, a tua sina som e as tuas palavras ciúmes, não será o toque, não será o tempo a usar outros lábios, tempo e tempo depois, não digas nada que não se deitam comigo corações obedientes.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Se te dá ganas de agarrar, agarra, morde, torce, tortura, delineia o espaço, come a alma, devora o corpo, cambaleia, perde-te, deita as grades ao tempo, se eu falar talvez tu negues, se eu falar talvez tu fiques, até lá, só dói se quiser, só mói se deixar,
Até aparecer o momento certo, queimemos o desejo nos errados.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Noite VI

Se é real não mostres, se é palavra não digas, se tem toque, afasta, se tem corpo não aproximes, se tem fim, não comeces, parece tão inútil deixar ir com o vento o que não se sabe que veio com a maré, não fales, não expliques, não fiques, não vás, fica na ponte de sempre, no ponto infinito de quiasmos, no toque último de céu, onde as memórias podem ser chamadas, onde podem ser apagadas, onde o tempo, eu e tu, com a cabeça no horizonte e os olhos no infinito de cada um, se cruzam num término tempo sem fim, não fales, não sei o que pensas, não sei pensar, é demasiado fácil deixar de fingir, é demasiado fácil deixar de tentar, demasiado fácil fugir de onde nunca se pertenceu.
Com tudo e com todos, uma profunda distância de quem percorreu mais caminhos do que aqueles que devias ter cruzado.

domingo, 2 de março de 2014

Maníaco

Sitiar Berlim, aterrar em Lisboa, beijar o mundo e queimar a pele, buscar o silêncio na multidão toda, saltar dos olhos de quem passa, sem se passar nada, buscar nos pulsos o nós atormentados das palavras, solicitar as tarifas do mundo no quichet dos viajantes e gozar licenças a quem licenças não tem que gozar, gritar na manhã o que se fez na noite e lembrar na aurora o que se esqueceu no prelúdio, rejeitar a saudade e todas as formas portuguesas de querer ter o que não se tem mais, cantar as músicas que ardem o capitalismo, gritar as palavras que derrubam comunismos e todas as formas de pensamento coletivo, como disse Soares, todo o pensamento coletivo é estúpido porque é coletivo, só os animais fazem bando, só as pessoas crescem sós.

Depois acordar e fingir que isto somos nós, como se algo mais fôssemos senão silêncio.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Não sei que força me mantém

Hoje não houve transportes. Hoje o metropolitano não andou mas as pernas sim, duas léguas de nada, não sei por onde andei, nem que cordas queimei, um dia cinzento sem chuva, uma saudade tamanha dos dias que não vivi, está frio mas sigo, quero ir para casa, beber café quente e sonhos confortantes, a noite já aí vem.
Andei perdido, sabendo perfeitamente onde estava a cada instante, trouxe terra nos sapatos e não a tenho nas mãos, não a sinto nos dedos a percorrer aq carne madura, a queimar o solo molhado, não comprei amor onde o não vi, quero ir para casa, não esta para onde vou mas para aquela que ninguém conhece, quero voltar.
Há momentos em que tudo abate, o passo de bala reduz e o corpo reduz, não ergue, como se frio viesse de dentro, não sou memória, nem raíz, mas sim passo moribundo dos que não andam com razão, a noite sou só eu.
Não sei que força me mantém, só sei que andei sem me conseguir perder e parei sem me tentar achar.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

100maneiras

A verdade mora longe, onde não faz frio, a verdade faz cambalear, tem grades de ferro e chão de mármore branco, a verdade tem paredes altas e tectos redondos, não tem saída e não se conhece entrada, verdade é casa mais alta, é monte virgem, sabe a terra pura e a pão quente, a verdade sabe a tudo e ninguém lhe conhece sabor.
A verdade queima mais, faz ferida no corpo, rasga a pele e arranca pedaços de alma, faz círculos na cabeça e pontapeia estômagos. A verdade é vontade de agarrar, é força para destruir, é corpo de felicidade e mata quem não dorme.
A verdade não dói mas magoa, não brilha mas queima, a verdade faz, a verdade desfaz, a verdade reza terços nas madrugadas e queima ondas ao luar, ela não sabe, ela não sonha, ela faz, ela tira, ela põe e dispõe dos que têm disposição.
A verdade é o caminho mais fino, mais longo, uma múmia calma e um pássaro sem bando, um guerreiro na frente, uma língua mordida, um beijo no pescoço, é cheia de lembrança e não se lembra de te ter.

Vá, anda, não queres ser quem viu e não quis ver,
Quem ardeu e não queimou,
Quem perdeu e não deixou.

A verdade de cada um não faz verdades de ninguém.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O Peso do Mundo

Senta-te comigo e não penses, não fales, não cales, há demasiados nãos quando se está só, há um mundo entre as duas pontas deste banco, duas vidas mais longe, dois caminhos mais tortos, querer ser mais, a grandeza não é gente, é ausência.
Preciso do teu silêncio e o nosso olhar ao mar, não sei o que aconteceu, se foste tu ou fui eu, mas este não é o nosso amanhã, esconde-se o céu onde somos verdade, perdemo-nos uma e outra vez ao tentarmo-nos encontrar, uma e outra vez ficamos sós.
Longe ou não, ainda me olhas com magia, ainda me calas sem palavras, ainda ficas sem me perderes, ainda me deixas até voltares.

Não sei se te perco enquanto ando, mas sei que não te encontro quando paro.

O mundo pesa demais, hoje pesa demais.