Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Sedado

Amanhece, frio, longe, só, sem sentido, simplesmente uma sinfonia de fundo sem ti, um solstício mundo sem nós, nas manhãs imensas dos dias claros, surge na janela um pequeno raio de escuridão, uma pequena brecha de destino, um peculiar rasgo de solidão, entra, penetra, toca e envolve, deixa-te ir nos seus braços para o longe, o infinito de nada, o mundo vazio de ti, uma pequena tontura, uma grande ferida, nascem sombras nas paredes dos reis, eu e tu, algo que fica longe pelas paredes. Nascem o chão muros sem fim, cobertos de cinza, recobertos de ervas crescendo a cada passo, mais rápido, mais alto, por mais que as agarre, as puxe, as rasgue e as tortura, nada as para, nada as faz, sedados pelo tempo que deixámos ao lado, o veneno que não deixámos cair, as pequenas gotas que nos saem do tempo e se deixam ir, de mim para ti, de ti para mim, dorme, deixa-te ir, e enquanto as paredes nascem e nos amarram a elas, cada vez mais perto, cada vez mais longe, eu e tu, não paramos, o mundo não para, o mundo não fica, e surdos, mudos, deixámos passar pelas linhas do tempo os caminhos que jurámos nunca percorrer sozinhos.

Sedados, mudos, calados, sem sentido, estamos cada vez mais longe, sem nunca saber o que foi estar perto.

domingo, 23 de novembro de 2014

Sempre quis ser...

Sem o tempo do sempre, ou o hoje dos outros dias, começar de novo, entrar num caminho diferente, ver nas árvores longas o desejo imenso, a manhã inteira, ter no pássaro livre a alma do deserto e o choro do campo, não me conhecer, não me ter nunca, virar o barco do mundo e socorrer me sem ar.
Vai valer pena deixar ir na estrada os caminhos que nos conduzem, os que não nos perdem, os que nos seguram, deixar fugir os fantasmas sem moldura, as esporas do domínio, a felicidade imensa, a dor aguda, os fascínios rebeldes e as ilusões inocentes.

Amanhecer só, longe, sem garras seguras, sem.

Sempre quis ser algo sem coisa alguma.

sábado, 15 de novembro de 2014

Às vezes perder é bom

Às vezes perder é bom, ter pontes só até ao meio do caminho, só chaves de janelas, só metades de ti, só partes de nós. Que do mar da vontade nos afogue em desejo, nas outras margens que ninguém sabe, onde a ponte não chega e o silêncio não parte, eu parto também, mesmo que me espreites, não atravessa ninguém, não sabes, não vejas, fica, e só, somente contigo numa ponte que só chega a meia margem, num barco só a meia rés.
Deixar na antecâmara o passado do tempo, o resto dos resíduos, numa sala fechada, num beco escuro, e partir pela maré dentro que me chama, não sei quem me reclama, sei quem já não me chama. Das mensagens e da voz, já sou eu ouvi, o nevoeiro cobre, a luz já não vi. Não me chores, não contes dias,  não demores a encontrar nova companhia.
Não reclames a minha agua, não fiques no meu tempo, coração não chames, inflama, reclama, grita e espanta mas não me chores, da ponte so o reflexo, de mim so memória.
Do outro lado da ponte espera me uma margem que ninguém sabe e um silêncio que ninguém conhece.
Às vezes perder é bom se o fizermos com verdade.

domingo, 2 de novembro de 2014

Dá-me a tua melhor faca

Dá-me a tua melhor faca, corta no meu melhor prazer, revela todo o teu sentido, enlaça toda a tua alma, corta nas esporas no deserto e finge todo o grito do universo, deixa no tempo a ilusão, deixa na memória a hesitação, deixa crescer o que nunca nasce e mate o que nunca morre, Cria contigo o universo que não queres, destrói connosco o que desejas. Limpa a boca e encolhe o estômago, ignora a fome e fuma o cigarro, parte o espelho, não és quem ele revela.

Depois, deixa a calma fluir, deixa a hesitação assentar, sente as costas raspar nas vísceras da parede onde te encostas, numa rua qualquer, num beco sujo, num aspeto nojento de roupa flácida, deixa-te descer, sinto os sulcos a moer, sinto a dor a renascer e desço, calmo, hirto, sem esperança, parindo silêncios em cada milímetro, chego perto do chão, as pernas cedem, esticam, elevam-se, mentira, restam, limpando as calçadas e as entrelinhas, cheguei ao fundo, se não o houver mais, cheguei ao topo se o findar, provavelmente, não cheguei a parte alguma por falta de força para ficar.



Dá-me a tua melhor faca e cortamos isto em dois!
Amanhã é tempo de esquecer.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Amanhã

É de noite e ainda gritamos, já voam pratos nos nossos sonhos e vozes na inspiração, o dia claro foi para longe, há coisas para dizer e este não é o tempo para o corrigir. Vem, não irá ser para sempre, este mundo que não mente, sabes aquele que é só nosso, diz que acabou, Estou cansado, dormimos?, Vira-te, estamos perdidos, e perdidos ficamos, eliminando nas palavras os gestos que nos consomem por dentro. Vamos sobreviver, lutar, enfim, aquelas palavras de eliminar maus tempos e chover linhas, perpetuando parágrafos até páginas sem fim, de livros sem histórias. Insiste, vira-te, corre, não fica nada, não sobra nada, deixamos cair cada pedaço da memória nos percursos obtusos dos que se perdem nas ruas, nas chamas inocentes de quem sabe que arde por dentro, o cansaço vem, consome, irrita, preenche e deixa um quarto vazio, uma janela aberta e uma cama desfeita, não há espaço arrumado, a estante deslocou-se, os livros caíram na madeira do chão, as roupas continuam espalhados mas já não somos nós que nos quedamos no horizonte.

Amanhã, vamos ser livres!

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Quando me quiseres esquecer

Cai a noite e o silêncio, a esplanada fica vazia, lentamente, sei que custa, não é fácil, não somos fáceis, acendem-nos uma vela com o cheiro antigo dos fósforos e da humidade que paira no ar, não voltaremos a encontrar-nos nos lábios um do outro, ver-me-às quando puderes, sei o que te faz triste, como te fiz triste, não há mais formas de saber, tinhamos os olhos abertos com as estrelas e a parte de ti que não vi, foi a que tu mostraste. Bebemos, o fumo ergue-se, rodopia, foge pelos lábios em foguete, a ponte ilumina-se na distância, estátuas idem, tenho a tua cabeça no meu ombro, e os meus olhos no infinito mundo de uma lágrima. Fazer o que tem de ser feito. Fazer o quê?

Quando me quiseres esquecer lembra-te de como me lembrares...contigo.


sábado, 30 de agosto de 2014

Quando me quiseres encontrar

Se eu ficar, serei sombra, traço morto, rasto mais negro, pedra mais escura, então vou, a passo pesado, para onde o mar acaba, onde o sonho é miragem e o horizonte casa. Há um trago doce das memórias, tudo o que levo às costas, adeus, não ficaram lágrimas por visitar, sabemos que do outro lado do mundo haverá sempre o tempo dos heróis, das muralhas, onde se conquistaram terras férteis e onde o sol brilhou de noite. Hoje não. Hoje não. Hoje não.

E no fim, teremos sempre. Sempre, a palavra. Sempre, o verbo. Não sei que ficará senão os sempre que deixamos no ar, as mãos que se tocaram e os olhos tocos que se refletiam em cada um.

Quando me quiseres encontrar, perde-te porque eu não sei onde estou!