Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Tropeça em mim

Tropeça em mim e não pares, deixa-te ir, no sofrego do vento que vem de norte, deixa o gemido sufocar no teu peito e a minha mão no teu corpo queimando, deixa-te levar, eu sei quanto eu tive, deixa-te ir aos poucos, em lentos fragmentos de ti que não te fazem o todo. Não olhes para trás, deixa os meus passos de bicho livre pela estrada marcarem o passo, o instinto dos astros que desfiz. Eu sei que sons existiram e não resistiram ao silêncio dos olhos, às cicatrizes das palavras que calam o que não esqueci.

Tropeça em mim e segue. O que fica é meu, e meu andará pela forma perdida dos vendavais, pelo sinuoso caminho do tempo.

Tropeça em mim e vai.
Não fica nada além dos teus passos.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Sangrando

Quando soltar a voz no meio da escuridão, entrega por favor todas as palavras que guardaste minhas, todos os pequenos toques, de peito aberto e coração perdido vou sangrando. Quando abrir na gargante a força da crimeras, mesmo que não esteja certo, estou vivo, com o brilho dos olhos, espelhados, o tremor nas mãos, a segurança do ontem. Se chorar, sou homem do meu sorriso, sem espantos, sem espanto que tenha força para gritar, porque quando soltar a voz por favor entende, sou apenas eu a viver a só.

Sem espantos e sem silêncios, quando o sol acabar, soltarei a voz pelos ventos do amanhã, sem o preconceito do ontem, sem as amarras todas que o mundo fez, sem nada, despido de sensações e sentimentos, despido de tudo mesmo de ti.

Vejo outra vez o tremor das minhas mãos, perdendo a força do corpo, o sol molha o meu sorriso, as minhas lágrimas beijam levemente o chão como um abraço.Palavras por palavras arrancarei de mim a entrega, por garras e garras vou sangrando pelo tempo, nas lutas da vida que estou gritando.

De ti o nada. Tenho voz que baste para criar o silêncio.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Ouvir, Cantar, Saber

Sei que ainda há palmeiras onde as aves cantam e o sol relaxa a sua suavidade no verde esperança do dia, no alto do cume, tocando as pequenas nuvens, sei que vou voltar, ainda vou voltar ao lugar onde esta árvore cresceu, onde os pequenos ramos desbrotam com a primavera, ainda lá, irei voltar a ouvir cantar as dores de ontem, as esperanças de amanhã.

Sei que vou deitar na sombra desta palmeira que já não há, colhendo do seu ar o espaço imenso que acabou, beber do som o silêncio que já não há, espreitando as noites que não queria, o dias que não existiram num fundo imenso do nada.

Sei que ainda vou voltar, não em vão, não em silêncio, de me encontrar no fim da escuridão, no meio dos enganos e dos estranhos, depois das estradas em que me quis perder, no tudo e nada de te esquecer, aqui.

Sei que sabendo não sei, se algum dia voltarei a saber de nós.


domingo, 20 de novembro de 2016

Azul

...

O azul do céu pode um dia cair sobre nós e a terra inteira um buraco imenso parir, não me preocupo desde que estejamos juntos, não preciso de saber do resto do mundo desde que todas as manhãs me inundes de ti, desde que o meu corpo colapse nas tuas mãos, não quero saber de todos os problemas, porque somos juntos. Resgataria o fim do mundo, deixaria me abalar pelos cortes da inércia, se o pedisses, roubaria a lua e as fortunas, renunciaria à minha pátria, renunciaria, podes te rir mas qualquer ato de loucura é meu. Se um dia a vida nos separar, para longe um do outro, para pontas opostas do mesmo ser, não me preocupo se ainda me amarás, teremos para nós a eternidade, o azul imenso, o céu sem problemas, enquanto acreditarmos em nós.

Deus junta aqueles que se amam.

...


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Pour tout se dire encore ou bien se taire

Deixa-me cuidar de ti, ver em cada espaço teu o limite mínimo do meu, regar no teu encanto o meu canto tosco de sentir, voltar a dormir com os teus olhos no meu e deixar-nos ir no tempo com a saudade que já não demos, dar-te a paz que perdi, ver a parte triste do teu abraço, o canto perdido do teu beijo, deixar-te ver o jardim imenso que nos faz acreditar, ver nele o rio que criámos, as nascentes que temos e os barcos que velejam sobre cada toque teu, sobre cada espaço nosso.

Deixa entrar a minha voz, percorrer a tua alma como faz o vento, entrar no teu regaço e nele ficar, na calma eterna dos que têm sede, olhar de vez o que te faz crescer, o que te fez ir e o que não te faz voltar, ver no teu riso imenso todas as cores do mundo,

E não te ter, apenas ser contigo o que não sou sozinho.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Pular a Cerca

Aquece as mãos, vai embora, chega de dias e horas, lutas e dores, chega de cercas na alma e presas nos dentes, chega de troféus e medalhas, honras e misericórdias, a farsa continua e vai mudar custe o que custar. O sol nasce, as mãos tremem, o sorriso aquece, a corrida marcha, é tudo em rápido, é tudo em longe, faz uma mancha e esfrega a alma, salta a dor, pula o sorriso, esquece o ódio, apaga o amor, lava as tuas chagas e as de quem quiser, a vida continua e algo vai mudar.
As cartas lançam-se, a marcha arranca, os homens caem, as almas morrem, os barcos afundam e as gaivotas nadam, a água seca, o vento queima, eu sei que algo vai mudar.

Custe o que custar, algo vai mudar.

domingo, 3 de julho de 2016

Ido

Volta a noite com todas as estrelas, de todo o fogo que sai das tuas palavras eu deito o meu corpo sobre a chama incessante, finjo dormir, sei no entanto que me vês... tenho que me deitar... mas se eu quiser mesmo ir, se eu desejar tanto, só eu me culpo da distância, só de mim se separa o tempo.

Se for verdade o que as pessoas diz, que a escuridão aparece antes da luz, tenho que me deitar, se formos demasiado fracos para continuar, tenho que me deitar e deixar cair, perdendo tudo na queda, sentindo o vento nas costas, a cabeça a pesar, os braços a quebrar, e o universo inteiro a sugar-me para um novo espaço.

Se quiser mesmo o outro lado do ontem, basta ir e voltar de novo, basta fazer e deixar queimar, basta de bastar, para pior ou melhor... Porque do outro lado do ontem, para lá do esquecimento e da dor, do vazio e da névoa... deixo me cair...



Se quisermos mudar a página, apagamos o adeus e escrevemos de novo o que nunca conseguimos começar.