Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O Peso do Mundo

Senta-te comigo e não penses, não fales, não cales, há demasiados nãos quando se está só, há um mundo entre as duas pontas deste banco, duas vidas mais longe, dois caminhos mais tortos, querer ser mais, a grandeza não é gente, é ausência.
Preciso do teu silêncio e o nosso olhar ao mar, não sei o que aconteceu, se foste tu ou fui eu, mas este não é o nosso amanhã, esconde-se o céu onde somos verdade, perdemo-nos uma e outra vez ao tentarmo-nos encontrar, uma e outra vez ficamos sós.
Longe ou não, ainda me olhas com magia, ainda me calas sem palavras, ainda ficas sem me perderes, ainda me deixas até voltares.

Não sei se te perco enquanto ando, mas sei que não te encontro quando paro.

O mundo pesa demais, hoje pesa demais.

Sem Abrigo


A cada dia cresce um frio mais agreste vindo do norte, daqueles bafos de não existência que trazem os corpos para perto e afastam as almas para longe, circunscritos ao espaço infinito de nenhures, onde o sol é mais e o vazio é tudo. Navegamos na imagem que temos do outro, em pequenas oscilações de ternura, aumentando a distância da miragem, passa a noite mais escura, não vem um dia mais claro, esta distância faz a noite.

Tudo o que era eterno morreu hoje quando de manhã acendi o cigarro e tu não estavas cá, não senti o teu rasto, não sei do teu perfume, a varanda estava aberta para o rio e o sonho aberto para o silêncio, os pássaros dormiam sossegados nos beirais cinzentos destes prédios, o que senti ao sentir a tua mão, nada, senti o tempo voltar atrás e tudo era recordação, eternamente repetida, eternamente criada, a novidade a todo o segundo, onde foste não sei.

Volto para o abrigo daqueles que não o têm jamais,
Volto às manhãs em que só o café me toca a boca, onde só o fumo me afaga a alma.
Deixei na manhã imensa o substrato noturno das coisas, abandonando ao revés dos abraços, a mercê de todos os passos incertos, todos os abraços perdidos e os olhares não trocados, ronda-me a alma um pássaro que não voa, perdido não sei onde, só sei ceder-me ao mundo onde o meu ser se esconde, onde os pássaros não voam e onde não estamos, vazio, mão fechada, está noite, deixa-a ir.
Fiquei no fim de tudo a um passo de ter tudo sem fim, anseia saber de mim quem de mim sabe demais, uma nebulosa onda segue para lado nenhum onde não vou, está frio e não á nada.

Prometo falhar.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Ninguém tropeça nos dias

Ninguém tropeça nos dias, contudo tropeçaria em ti milvezes na mesma rua até vires que o meu rosto está perante o teu como o de uma criança junto de uma loja de doces, a mesma inocência capitalista que nos faz assoberbar tudo num único travo de existência, assimilando todo o conteúdo numa única dentada e absorvendo toda a malícia num único toque de desilusão.
Podes vir amanhã se acreditares que não é tarde, podes vir de manhã se não pensares que é cedo, podes ir ao mar se julgas que sabes nadar, podes, podes, podes, posso, posso, posso e silêncio, todos podem o que ninguém é capaz de fazer.
Somos capazes de acreditar no mesmo deus, ou em nenhum caso subsista algum caso de dúvida, somos capazes de partilhar a mesma chávena, sem receios ou modéstias, somos capazes de guardar os mesmos pensamentos numa caixa obscura no quanto esquerdo da nossa memórias, somos incapazes de concretizar, de agir, de fazer, há toda uma dormência de espírito que nos inócua o corpo e nos dá sede.

Ninguém tropeça nos dias, ninguém nos tira a sede,
Senão nas manhãs, senão em todas as manhãs de todos dias em que tropeço em ti.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Off

Faz sol, não como daqueles de verão que nos enchem o corpo de forças, regenerando a alma de novas formas de ver, conseguindo levar coragem para novos dias, o sol daqui é frio, desagradável, ilusórios, dá-nos uma certa expectativa de iluminação interna, de um abraço reconfortante perante a adversidade, e nós vamos, iludidos com erradas expectativas. Está frio, lá fora e cá dentro. Ausência.
Poda dizer que parti, para novos lugares sem nome, numa vila sem pessoas e numa casa sem paredes, nova morada no mundo, minha, solitária, sem flores, com mar, uma nova madrugada quente. Mas não.
Podia pedir-te para não ires, ficares, ser injusto para com o mundo, num egoísmo que nem me é de direito, os nossos caminhos afastam-se e cruzam-se, esperando sempre voltar a ter-te um dia mais tarde, um segundo mais cedo.
Ir e vir. Partir e voltar. Sonhar e viver. Há rios demais no mesmo chão. 

Até lá silêncio, a liberdade é minha e amanhã será um novo dia,
Hoje, fecho as janelas, junto o meu café e espero,
embalo-me na música que não oiço, nos lugares que não vi,
Não hoje não estou. parti para lugares que não existem.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Há, Existe!

Há palavras que nos tocam, não pela extensão do seu parafraseado mas pela imensidão do seu sentido.
Há gestos que nos fazem amar, não pela complexidade do seu saber mas pela simplicidade da sua forma.
Há pessoas que guardamos não pelos tempos que passaram, mas por haver sempre tempos por passar.

Ecce Homo

Há urgência nas palavras e sede nos silêncios, há uma torrente forte no tempo que nos joga para as despedidas mais fortes, as ausências mais tristes, há formas obtusas no silêncio e contornos imprecisos na tua boca que me trazem para perto, há verdade no teu sangue e sentimento no teu corpo. À que dizer sim, em cada despedida, no ultimo olhar, aquele toque repentino de dizer a toda a gente o que somos, somos maré negra nos oceanos, pássaro livre nos alteres e jogo sujo sem pecado.
Já não. Fica no tempo o que não criamos na mente, doendo por dentro e passando pelos braços, no vento, em contratempo na ausência, pelos dias e pelas noites, por cada ciúme e em cada hora, perguntamos ao tempo presente que agora ficou de ontem, que somos se inventássemos outro tempo...

Há nas formas um segredo que é teu, um desejo humano pelo igual, uma eterna conquista ao viver cada madrugada um pouco mais doce, um pouco menos alcoólica, onde o corpo se apaga lentamente, em pequenos golos de ausência, em pequenos travos de solidão. Ficou por escrever, ficou por viver, mas o que se escreveu e o que se viveu nunca se encontrou noutra estrada que não esta.

Depois de pararmos na noite, ao vermos Lisboa imensa, deparamos um profundo vazio crescente, de quem deixou pernoitar os filhos noitra terra, donde não voltam mais, há silêncio demais, há fome que sobeje e há sobretudo um nojo enorme, uma repugnância aguda por todo o grosso inimigo ignorante que apaga em cada estupidez crônica o que muitas palavras edificaram em muitos anos por muitas mãos, em muitas ausências.

Mar ao Sul da minha terra, o meu pais neste momento
O solo queima, o vento beija

Ainda e sempre.

A Ary, 30 anos de silêncio...
Uma eternidade de sentido!