Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

domingo, 2 de março de 2014

Maníaco

Sitiar Berlim, aterrar em Lisboa, beijar o mundo e queimar a pele, buscar o silêncio na multidão toda, saltar dos olhos de quem passa, sem se passar nada, buscar nos pulsos o nós atormentados das palavras, solicitar as tarifas do mundo no quichet dos viajantes e gozar licenças a quem licenças não tem que gozar, gritar na manhã o que se fez na noite e lembrar na aurora o que se esqueceu no prelúdio, rejeitar a saudade e todas as formas portuguesas de querer ter o que não se tem mais, cantar as músicas que ardem o capitalismo, gritar as palavras que derrubam comunismos e todas as formas de pensamento coletivo, como disse Soares, todo o pensamento coletivo é estúpido porque é coletivo, só os animais fazem bando, só as pessoas crescem sós.

Depois acordar e fingir que isto somos nós, como se algo mais fôssemos senão silêncio.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Não sei que força me mantém

Hoje não houve transportes. Hoje o metropolitano não andou mas as pernas sim, duas léguas de nada, não sei por onde andei, nem que cordas queimei, um dia cinzento sem chuva, uma saudade tamanha dos dias que não vivi, está frio mas sigo, quero ir para casa, beber café quente e sonhos confortantes, a noite já aí vem.
Andei perdido, sabendo perfeitamente onde estava a cada instante, trouxe terra nos sapatos e não a tenho nas mãos, não a sinto nos dedos a percorrer aq carne madura, a queimar o solo molhado, não comprei amor onde o não vi, quero ir para casa, não esta para onde vou mas para aquela que ninguém conhece, quero voltar.
Há momentos em que tudo abate, o passo de bala reduz e o corpo reduz, não ergue, como se frio viesse de dentro, não sou memória, nem raíz, mas sim passo moribundo dos que não andam com razão, a noite sou só eu.
Não sei que força me mantém, só sei que andei sem me conseguir perder e parei sem me tentar achar.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

100maneiras

A verdade mora longe, onde não faz frio, a verdade faz cambalear, tem grades de ferro e chão de mármore branco, a verdade tem paredes altas e tectos redondos, não tem saída e não se conhece entrada, verdade é casa mais alta, é monte virgem, sabe a terra pura e a pão quente, a verdade sabe a tudo e ninguém lhe conhece sabor.
A verdade queima mais, faz ferida no corpo, rasga a pele e arranca pedaços de alma, faz círculos na cabeça e pontapeia estômagos. A verdade é vontade de agarrar, é força para destruir, é corpo de felicidade e mata quem não dorme.
A verdade não dói mas magoa, não brilha mas queima, a verdade faz, a verdade desfaz, a verdade reza terços nas madrugadas e queima ondas ao luar, ela não sabe, ela não sonha, ela faz, ela tira, ela põe e dispõe dos que têm disposição.
A verdade é o caminho mais fino, mais longo, uma múmia calma e um pássaro sem bando, um guerreiro na frente, uma língua mordida, um beijo no pescoço, é cheia de lembrança e não se lembra de te ter.

Vá, anda, não queres ser quem viu e não quis ver,
Quem ardeu e não queimou,
Quem perdeu e não deixou.

A verdade de cada um não faz verdades de ninguém.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O Peso do Mundo

Senta-te comigo e não penses, não fales, não cales, há demasiados nãos quando se está só, há um mundo entre as duas pontas deste banco, duas vidas mais longe, dois caminhos mais tortos, querer ser mais, a grandeza não é gente, é ausência.
Preciso do teu silêncio e o nosso olhar ao mar, não sei o que aconteceu, se foste tu ou fui eu, mas este não é o nosso amanhã, esconde-se o céu onde somos verdade, perdemo-nos uma e outra vez ao tentarmo-nos encontrar, uma e outra vez ficamos sós.
Longe ou não, ainda me olhas com magia, ainda me calas sem palavras, ainda ficas sem me perderes, ainda me deixas até voltares.

Não sei se te perco enquanto ando, mas sei que não te encontro quando paro.

O mundo pesa demais, hoje pesa demais.

Sem Abrigo


A cada dia cresce um frio mais agreste vindo do norte, daqueles bafos de não existência que trazem os corpos para perto e afastam as almas para longe, circunscritos ao espaço infinito de nenhures, onde o sol é mais e o vazio é tudo. Navegamos na imagem que temos do outro, em pequenas oscilações de ternura, aumentando a distância da miragem, passa a noite mais escura, não vem um dia mais claro, esta distância faz a noite.

Tudo o que era eterno morreu hoje quando de manhã acendi o cigarro e tu não estavas cá, não senti o teu rasto, não sei do teu perfume, a varanda estava aberta para o rio e o sonho aberto para o silêncio, os pássaros dormiam sossegados nos beirais cinzentos destes prédios, o que senti ao sentir a tua mão, nada, senti o tempo voltar atrás e tudo era recordação, eternamente repetida, eternamente criada, a novidade a todo o segundo, onde foste não sei.

Volto para o abrigo daqueles que não o têm jamais,
Volto às manhãs em que só o café me toca a boca, onde só o fumo me afaga a alma.
Deixei na manhã imensa o substrato noturno das coisas, abandonando ao revés dos abraços, a mercê de todos os passos incertos, todos os abraços perdidos e os olhares não trocados, ronda-me a alma um pássaro que não voa, perdido não sei onde, só sei ceder-me ao mundo onde o meu ser se esconde, onde os pássaros não voam e onde não estamos, vazio, mão fechada, está noite, deixa-a ir.
Fiquei no fim de tudo a um passo de ter tudo sem fim, anseia saber de mim quem de mim sabe demais, uma nebulosa onda segue para lado nenhum onde não vou, está frio e não á nada.

Prometo falhar.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Ninguém tropeça nos dias

Ninguém tropeça nos dias, contudo tropeçaria em ti milvezes na mesma rua até vires que o meu rosto está perante o teu como o de uma criança junto de uma loja de doces, a mesma inocência capitalista que nos faz assoberbar tudo num único travo de existência, assimilando todo o conteúdo numa única dentada e absorvendo toda a malícia num único toque de desilusão.
Podes vir amanhã se acreditares que não é tarde, podes vir de manhã se não pensares que é cedo, podes ir ao mar se julgas que sabes nadar, podes, podes, podes, posso, posso, posso e silêncio, todos podem o que ninguém é capaz de fazer.
Somos capazes de acreditar no mesmo deus, ou em nenhum caso subsista algum caso de dúvida, somos capazes de partilhar a mesma chávena, sem receios ou modéstias, somos capazes de guardar os mesmos pensamentos numa caixa obscura no quanto esquerdo da nossa memórias, somos incapazes de concretizar, de agir, de fazer, há toda uma dormência de espírito que nos inócua o corpo e nos dá sede.

Ninguém tropeça nos dias, ninguém nos tira a sede,
Senão nas manhãs, senão em todas as manhãs de todos dias em que tropeço em ti.