Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Baixa a luz

Passa o dia devagar, onde a luz renasce de manhã e nos faz esquecer o tempo, há coisas que não o têm, é tudo tão maior aqui, é tudo tão maior quando estás aqui, a pouco e pouco o jogo avança, o medo faz-nos sós, o tempo passa e não fugi, não fugiste, não está frio, a luz fica e tu também, e nos conformes da manhã que avança, onde tudo o que é meu e não sei largar, tudo o que é teu e não queres largar, vem, e deixa vir o que com a água vier, não haverá o último a cair, não se pode perder quando estamos a ganhar.

Em todo o tempo que julguei existir, não houve tempo algum que contasse até ao dia, pois tudo o que é meu, e teu, é nosso, não sei largar, não o sabes, rasga o escuro, deixa a chuva cair e lavar consigo o que dói, não se vai perder, quando finalmente encontraste o que julgavas não existir,

Baixa a luz, há brilho que chegue para termos caminho para a vida.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Risco

É aceitar o risco.
Tudo na vida tem duas medidas, dois sentidos, duas formas analogamente opostas que se transitam em sentidos distintos, e tudo é mensurável mesmo que sem medidas. Entre o ir e o voltar, entre o aqui e o ali, há o espaço insensato do tempo, o intervalo da distância e o medo da rendição.
Depois rendemo-nos, deixamos, para viver de novo, para ir mais longe. Para esta viagem há que não levar bagagem, há que deixar a roupa noutro corpo, a mala no seu lugar, e ir, simplesmente nu de tudo, sem qualquer rasto de civilização e render o corpo e a alma ao tempo, deixar ir com ele tudo, apostar numa só casa, voar tudo numa só vez, para chegar aí.

É aceitar o risco.´
É saber que a casa pode cair, que os braços se podem perder, que o voou pode ser curto e a estrada perdida, ter na memória o instante do mundo, o receio do eterno, o medo na sua inconstância sádica e mesmo assim render-se por completo.

É aceitar o risco.
De juntar mil sonhos num só e todos os passos num caminho.


quarta-feira, 25 de março de 2015

Fechar Lisboa

Entraste no avião primeiro, com um último sorriso perto do meu, aquele até já foi tão longo, tão metálico que ainda hoje se passeia por dentro da alma, roçando nos cantos uma pequena ferida que não se finda, reacende como uma pequena luz, lembrando que ainda, lembrando que já, e tudo mudou e nada ficou diferente. Foste, deixaste aqui um rasto de saudade, um conjunto de lágrimas guardadas para ocasiões especiais, como as roupas bonitas para casamentos, ou os doces mais gulosos para festas, deixaste-as guardadas para os dias mais escuros, para que uma luz pudesse mostrar o caminho para casa e fossem pirilampos esses tempos, gotas essa luz, e tudo faria sentido quando perdessemos a ausência do mesmo.
O tempo passou, o tempo passa sempre como o ar, nasce de manhã, sentindo o despertar, os pequenos gestos que sei que fazes em direção ao céu, os pequenos sons que te dizem bom dia e o olhar que se recente da luz, da nossa. O mesmo de sempre, mesmo sem o sempre de alguma vez ter sido o sempre de sempre, sei que o é.
Existe algo, não sei o quê, uma criança perdida pela margem, por todas as margens do mundo, que corre perdida, que corre sem cansar, com um sorriso tonto e uma lágrima bruxuleante, uma criança que, não sabendo para onde vai, só quer saber onde não fica e corre, e procura, e lança-se pela estrada, às vezes caindo, outras vezes saltando, ela sabe que no fim, se houver, melhor, sabe que no instante último do caminho, haverá um novo e esse será maior que todos os outros caminhos que se correm sem percorrer.
Agora entro eu. Olho para trás e fica um pouco de mim, uma saudosista mágoa como sempre, um sentido de mudança de não ser quem o viu nascer, o não saber se, o querer também e todas as formas incompletamente sintáticas do mundo que aqui podia ser encriptadas, um simples e conclusivo mas que por nunca concluir, nunca é simples e por nunca ser simples, um mas é complexo, nunca conclui, e neste circulo de mas se fazem os homens que decidem sem contudos. O que vier daqui será desafio, uma nova terra e um novo ser, nós não somos mais viajantes, somos a viagem que um dia sonhámos ser.

Fechar Lisboa.
E abrir com ela os mas do mundo.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Saber sempre onde me espera

O mundo cai, fragmenta-se em pequenos pedaços, uma folha queimada, desfiando-sem em poucos tragos, pequenos golos de saudade, grandes tragos de nostalgia, um simples eco do ego que nos deixa passar, um pequeno toque no ombro e um novo riacho que nasce para ti, uma pequena criança que cai aos primeiros passos, inquieta e já sem mãos, cai, deixa-se ficar no chão, pedra com pedra, e o mundo é escuro e escuro é o mundo agora para ela, nada mais, só silêncio, só eco, um toque no ombro e um não calar, um romper de estribeiras e um soluço incompleto, e tudo renasce. De uma pequena bresca do destino, de uma fração de escuridão nasce um relance de luz, pequena, tremendo, e cresce, e magnifica, e solta, e relança e faz e cria e és tu, e aquela criança pequena, caída, ergue a face manchada, os olhos cheios, a bochecha rosada, devagar, ergue, agarra-se ao que vem e não passa, apenas ao que não passa, puxa, força, luta, constrói, e segue.
De novo, treme, estremece, sente um arrepio e acende-se de novo nela a alma dos que outrora descobriram mares e criaram terras e simplesmente corre até ao fim, com uma lágrima evaporada e um sorriso na face pois sabe sempre onde lhe espera a luz que lhe tira da escuridão dos homens.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Universo

Fica a saber que a verdade não é universal, verás pessoas a ir, pessoas que não querias a ficar, quem te deixe na ponte, ou a atravesse contigo, acede ao que podes, não sejas claro nem demasiado obtuso, a luz vai-se percorrendo e um dia fará sentido, porque quando for demasiado tarde e souberes do teu lugar, que será de ti e do teu universo?
Dentro das pequenas vidas das grandes ideias, levas com a bagagem do passado e as lágrimas de hoje, deixas cair os segredos e esperas por melhores dias, deixas a melancolia e gritas, fazes um caminho e deixas-te ir, percorres estradas e não apagues rastos, quando deixar a tua guarda e desmontares o teu castelo, um dia fará sentido, saberás de ti e do teu universo?
Não controlas, não fazes, deixa o cosmos lá longe e mexe-te, fica no teu lado da estrada e anda como um louco, corre sem destino, deixa-te ser o vento e o caminho, o viajante e o pária, sozinho ou com quem quiseres, o caminho é teu, o universo é nosso,

Quando estiveres longe, sem alma, terás o teu universo.


Será isso que pretendes?

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Deixa te ir, algo faz me sempre voltar a ti, nunca sabendo a muito, nunca enchendo os olhos, por muito longe, ainda te sinto na manha, que me agarras sem tocar, que ficas sem mudar, nada faz mais sentido que nos afogar,os no amanha e irmos, livres, sem cair, aqui estamos, altos, como e suposto estarmos, como so nos sabemos ser.
Não somos frágeis, não pensamos mas assim que o chão treme, que o vento passa e o mundo ameaça parar de girar, sabemos que, nada muda, tudo se transforma e que a nossa gravidade nos leva ao infinito do tempo, aqui, nada nos prende senão uma vontade de ficar, um toque segredo de quem sabe o que amar.

Falta

Hoje fazes mais falta, não sei se pelo tempo frio ou pela chuva pegada aos vidros do carro, desprendendo se devagar, cada gota sozinha deslizando pela borracha ate voar sem sentido, hoje fazes mais falta, não sei se por faltar o teu sorriso no espelho ou o meu nos teus olhos, não sei se desconfio da voz que de vez em quando falha quando a falta falha a mais, ou se pelo riso tímido que se ouve na distância.
Não to sei dizer.
Sei que de manha não te ver e por dias não te encontrar faz peso no corpo, faz nó na alma, sei que o mundo esta igual, as horas passam, a chuva cai, o rio beija o mar num pequeno travo de loucura, mas o sentido das coisas não faz sentido nenhum quando não me espelho em ti.
Saio do carro, o vento passa, leva consigo, um cigarro acende se na pressa alheia de uma chama que subsiste, ilumina, aquece, transporta para longe um pouco de sim respira se fumo que o ar pesa, o vento passa e leva consigo uma parte de mim, espero que para junto de nós.