Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Acordar

...de dia...

Relaxa, suspira, estica-te, é a hora. O vento abranda, as luzes da rua acordam e devagar os mortos acordam com a música dos carros, a música sobe, o vento grita e sobe, tu acordas e vais, vais até ao fim do mundo, cantando, dizendo que é a vida, a tua, a única e complexa, redonda e mestica, sem caminho nem padrão, sem pontos ou vírgulas, na rua vês o sinais e as portas da frente vazias, os hotéis cheios de empresários perdidos, o comboio cheio de ar na mente de quem o mente viajar, onde irão, onde vais, segue não o sabes, acordar é isto, por nas pernas a energia necessária para ir sem destino, para deixar parado a inércia dos que sem ti correm melhor.


Cidade, nevoeiro

A cidade enche-se de nevoeiro, ocultando em pequenos abraços a piedade das luzes que, devagar, se deixam embalar nele, plácidas, secas. E a noite cai na cidade, cedo, devagar. Uma a uma, as janelas despedem-se, acenando as horas até ao dia as vir beijar, devagar. O menino deita-se nos seus lençóis frios, baixinho, sozinho, dorme.

Recebe o medo, devagar, deixa-o vir contigo se deitar, cantar a última deixa do dia, baixinho, sussurrando, trazendo um pouco do nevoeiro com ele, um pequeno gosto da cidade. Não desvendes os dias, deixa as horas o encantarem, levarem para lá do horizonte onde o homem não vê, onde o tempo não sente, não deixes de sonhar.

Fecha os olhos e aperta as mãos ao peito num ligeiro sufoco, não tenhas medo, um dia na madrugada viras no reflexo do sol o rosto dourado de quem o olha, as mãos hirtas de quem o pega e a voz alta de quem traz o silêncio consigo, de quem dormiu com a companhia que não tem, com a gente que não traz.

Se um dia, na cidade, vires o nevoeiro, sorri, é apenas o medo a sonhar, a brincar aos países, deixa o embalar a cidade enquanto te embalas no medo. Não deixes de sonhar, a cidade é o mundo da luz que vem todas as madrugadas.


segunda-feira, 2 de julho de 2018

Ergue-te

Quebras como os silêncios, vivendo aquele instante triste num sufoco enormemente terreno, num labirinto sem saída, numa montanha sem fim. Montanhas... Erguem-se como os dias, hirtos perante o vento, fortes como os rios que abraçam nos seus veios, pujantes como as raízes das árvores que suportam, mil e uma vezes sem fim, mil e uma vezes sem princípio.

E tu...

O silêncio que trazes não é calado, é um suspiro dificil de suster, um bafo dificil de dar, um abraço que se teima em esconder... Montanhas que subsistem no tempo, sem barulho, sem gesto, sem medo de serem cada vez mais altas, sem orgulhos imensos ou terras completamente desbravadas, ficam, lutam, subsistem.

E tu...

Tudo o que precisamos é a esperança de um amanhã, de um dia mais claro, de um erguer mais fundo, mais forte, mais teu. Montanhas...

Tu ergues-te como o dia, como as montanhas, mil e uma vezes sem parar, sem suspirar, sem parar, sem medo, como todos os caminhos do mundo, como todos os horizontes sem fim, mil e uma vezes como nas histórias das crianças, nas fábulas elaboradas que tão sabes, com todos os sabores que conheces e todos os mais que ainda vais descobrir.

E tu... ergues-te como as montanhas que nunca se vergam.


quarta-feira, 7 de março de 2018

Olhar

Quero te ver como só eu te vejo, nas palavras certas dos teus olhos, na solidão inerente ao teu sorriso, o outono dos teus cabelos, no sempre do momento ver pelo castanho dos teus olhos as cores todas do mundo. No toque, ter o universo inteiro, na sua imensidão, ficar quando nada nos prende, no sempre aqui que é só nosso.

As tuas mãos abertas e prontas, toque suave sem dor, palavra digna, amor.

A força nova que trazes quando perdi a força de saber chorar.

Quero permanecer, só porque existes. Aqui. Sempre.


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Perpetuidade

Do sentido que temos, pouco dele dura para sempre, os grandes momentos da vida são demasiado curtos no tempo, demasiado rápidos na nossa história. Mesmo o que vive, sempre, no nosso coração, passa leve levemente pelas nossas mãos como pequenos grãos de memória que deixamos cair como crianças a aprender a caminhar.

O que esquecemos, não por falta de memória mas por falta de voltar, fica na perpetuidade do som, no infímo toque que nos lembra um do outro, o menos doce, amargo, torna-nos incompletos, assoberbados de pequenos vazios que nos enchem de nós.

Do que me lembro de ti, recordo que queríamos para sempre, tornar o nosso momento eterno, o nosso sorriso constante, a nossa escuridão infinita como a do espaço, flutuando como rios pelo espaço, protegendo-nos do que nos circunde, do que nos preenche, cruzando-nos imediata e afincadamente pelo trilho que criássemos.

Como tornamos tudo isto perpetuo?

Não tornamos. O silêncio que temos é maior do que a voz que hoje recordamos.


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Pássaros


Nos meios dos pássaros que já não voam e das brisas que já não correm, há um deserto imenso de folhas recalcadas dos pés descalçoes que já não temos. De volta aos ramos caidos e às trovoadas secas, o ricochete das gotas do mar no teu cabelo, o rio secou. Não há quem suba o monte, não há corrente nem fonte, não há nada além de terra seca fazendo uma linha exíqua, tonta, arrependida, a voltar para ti como se assim tivesse remendo.
Um dia quando voltar, no fim que eras tu, não estarei cá para me ver, não voltarei a mim, serei outro que não este, numa estrada que não aquela, onde o infinito é tão pequeno como nós e o silêncio tão grande como todos.
Na luz da penumbra, desfolha-se um livro, talvez nas palavras dele existam respostas que nos teus gestos já não há.

De repente.
Não.
Num silêncio lento, num só gesto, numa só frase diz-me que ficas bem.
Eu vou e quando voltar, não voltarei. Há viagens que num sentido não têm sentido nenhum.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Tropeça em mim

Tropeça em mim e não pares, deixa-te ir, no sofrego do vento que vem de norte, deixa o gemido sufocar no teu peito e a minha mão no teu corpo queimando, deixa-te levar, eu sei quanto eu tive, deixa-te ir aos poucos, em lentos fragmentos de ti que não te fazem o todo. Não olhes para trás, deixa os meus passos de bicho livre pela estrada marcarem o passo, o instinto dos astros que desfiz. Eu sei que sons existiram e não resistiram ao silêncio dos olhos, às cicatrizes das palavras que calam o que não esqueci.

Tropeça em mim e segue. O que fica é meu, e meu andará pela forma perdida dos vendavais, pelo sinuoso caminho do tempo.

Tropeça em mim e vai.
Não fica nada além dos teus passos.