Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

terça-feira, 17 de junho de 2014

Sabedoria


Não há conhecimento que me faça perceber a dificuldade, não estar, não culpar, ser livre, não é culpa, é saber, que desde o verdadeiro começo é de minha culpa. Eu sempre soube, faz o que tens a fazer, com o instinto do animal que corre pelos campos sem olhar para trás, como o vento que se despede à chegada. Já não sei sentir-nos seguros, já não sei sentir, talvez não haja maneira de saber, mesmo com os olhos abertos, mesmo sem mentir, mesmo sem ver a parte de mim que nunca vi, a parte que mostro a ti, faço o que há a fazer, talvez nunca mais, talvez sempre, volto atrás e vejo te enquanto parto.
Por muita sabedoria, não há maior do que saber quando não há nada mais por descobrir.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

A parte calma do que és


Sou parte quente do que vês, porta por fechar, chumbo por cair, vento por soprar, tudo o que vai escorrendo pela madrugada, não sou quem vai lutar, não vou ser eu a ter o teu melhor e rogar que sigam a tua mão, como só eu sei, como só eu.
Para descobrir depois, quando a luz voltar, que há ruas ainda por ver, árvores a crescer, muros a cair, tudo mais forte que o norte, tudo a escorrer pelo vendo, jardins por regar e noites inteiras por dormir, há lápides a escrever e poucas histórias por contar, há um tempo novo que só os velhos esperam, os que de corpo de perduram nas imensidões negras das horas que não se perderam um no outro, se há parte fraca no que és, eu não tenho parte forte que te salve.
Procura e encontra, pergunta e descobre, agarra e prende, mais forte que a vontade, mais perto que o toque, a parte calma do que és é rio no caminho do que somos.

domingo, 25 de maio de 2014

Deixar ir

Nada é para sempre, se restringíssemos esta simples ideias nas idiossincrasias mentais que nos guiam no dia a dia tudo seria mais fácil, eu ouvi, eu esperei pelo dia em que tudo se fosse, tudo caminhasse para outro caminho que não o meu e me mostrasse que se eu me mantivesse aqui, a minha alma não seria livre, eu não seria eu.
Repetir o passado, quando os teus braços me dizem que sim, quando o meu tempo diz que não, por passarmos maus começos e assistirmos a finais menos felizes, queremos fechar livros antes do fim, apagar filmes sem os seus epilogos, somos almas cortadas pelo tempo dos que esperam sem tentar.
Tudo é mais fácil dito, pouco acontece, quando o abismo chama, nem tentamos agarrar, porque sabemos que estamos vivos, que precisamos de lembrar, que não deixamos ir nas inocentes chamadas do facilitismo agnóstico, mesmo que o corpo diga que não, mesmo que o tempo diga que não,

Não se deixa  ir quem leva mais do que deixa.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Mira

Abre as janelas de manha, levanta com o sol o corpo mole que se colou nos regaços maternos da cama, vê as aves a levantar voo, crescendo num manto negro pelos contornos imprecisos das poucas nuvens brancas que sobrevoam o céu azul, por baixo as crianças nascem nas calçadas, gritando de juventude os bons dias uns aos outros, brincando e saltando como nós, sem a mínima preocupação com o tempo, com o amanha, à volta o dia começa a abrir, o café do sr. Antônio já tem gente há espera com o jornal debaixo do braço, as camisas de trabalho enfiadas a força nas calças de ganga sujas do dia, os primeiros cachimbos nas bocas e os primeiros bafos no ar, começam as conversas, liga se o dia,
Mira, não é bom sonhar que se acorda assim?

domingo, 4 de maio de 2014

Walk Away

De tudo o que nos passa, pouco nos prende, nos agarra e nos corta aos fragmentos imprecisos das almas que se deixam ficar, as pequenas lutas, os ocos soluços e pernas dormentes, os gestos imprecisos e as maõs trémulas, tudo passa, mas fica, tudo vai, mas deixa, aquele espaço vazio que não segue contigo, que se deixa ficar enquanto desces a rua e te banhas no mar. Fica a questão de que, tempos a tempos, nos escondemos até à guerra final, onde vestimos os coletes de bala, as progressões morais e os retiros espirituais, o sol desce, o vento acalma, as sombras nascem lívidas, suspiradas, os passos começam e as balas são disparadas por dentro. Não há colete que nos salve, nem escuro que nos esconda.
Depois, viramos as costas e andamos, sorridentes, o sol morre, o dia passa, no teu caminho, no meu passado, cada golpe se sara só, cada corpo se deixa ir no pecado, pelas paredes da vida, no silêncio dos pares.
Gostava de dizer sem arrependimentos mas palavras voam com o vento, gostava de dizer que não mas as mentiras ficam nas orações.

Ando para longe, onde o sol só nasce amanhã, a histórica fica, a onda passa,
Tudo é o eterno recomeço do nada que sempre acaba.

Há que saber partir quando simplesmente não faz sentido ficar.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Sem razão

De vez em quando ainda passamos na mesma rua, o mesmo sorriso de meninos reguilas que tanto sabemos fazer, o nosso pequeno jogo de olhares, a nossa pequena troca de pensamentos, não me tens em nada mas ir sem ti deixa-me com tão pouco.
Na tua sombra azul, não sei como te enervas tanto, nunca terias tudo, nunca passaríamos paredes, por muito respeito e empurrões, toques e puxões, iríamos ser um 'nunca mais' num eterno olá, seríamos os melhores amigos de todos aqueles que nos levariam para longe.
Tiremos os dias, as palavras negras, as histórias passadas e o céu que nos cobre, e andemos, para longe, com o sol no fim, nos teus passos, na minha sombra, fica por saber para onde, fica por saber como, sorri, andamos para lados opostos, de forma erradamente certa, até ao fim do dia, até ao começo do mundo.

sábado, 19 de abril de 2014

Involuntária

Ainda te sentia o bafo ao tabaco seco que tragavas nos anos recentes, aquele travo amargo, ressentido pelas ruas queimadas de uma cidade usada, sem raiz, aquele toque que se contorcia no vermelho imaginário dos teus lábios carnudos, recheados de espamos voluntários como os meus, deus não escolhe que é feliz. Sorrias com o desdém de quem se intriga consigo mesma, uma leveniedade cínica, borrifada de um estrabismo hipócrita, sem queda, de quem sempre viu o reverso das coisas que de reverso so têm alma, atraias ciúme, inveje, não te perdes, eu não te encontro.
Sais te de mansinho, bateu te na porta de madeira comida pelos insetos, não pelo tempo que esse não passa aqui, repetidamente voltavas, caindo uma lágrima seca no soalho perdido, ninguém so marca por prazer, põe batom, reveste as unhas, despe, deus não escolhe quem foi feliz.
Das vezes que voltavas, sussurras as voltas no jazigo obscuro da mediocridade da alma que não vive, subsiste, num ritmado ato continuo de ver no chão o que não se reflete nas estrelas, sol, e partes, e voltas, e sem ires voltas e sem voltares partes, somos sempre incisivos nos cortes que não fazemos, e eu retomo e vou, e volto, e deixo e fico e sem sabor de ti deixo me provar, ir com o vento, dizer que sou, não tenho, conspiro, o destino não se faz de raiz e tu não te tiras sem dizer.
Por isso, desce as escadas, veste te de vermelho, traz do teu perfume, eu levo o piano, não exibas felicidade, nem desdém, sê leve com essa alma toda, não haverá queda, não haverá reverso, haverá piano, sinfonia, vinho quente e a nicotina de sempre, não perdemos pela demora ate que tudo se evapora, no ultimo trago do cigarro que não acedemos, puxa do verniz, não e deus que escolhe que vai ser feliz.