Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Um Chapéu à Chuva

Por baixo da chuva, cabisbaixos com o medíocore receio de nos molharmos, como gente civilizada e enxuta, seca por completo, num misto sem sabor de ataraxia pura, um suspenso oco, quiçá delirante, que nos impela para a frente, sem sentido, sem vagar, sem força. Não temos casa. Não temos gente. Não temos mais nada senão a chuva que nos reveste de vazio, que rompe a solidão com o mundo e nos afasta dos demais.
Em círculos estritos, ando pelo passeio, à espera que um chapéu se cruze com o meu, não mais que isso, um simples desejo infantil de ver desenhado um sorriso em cada um dos chapéus, um lapso futurista de sentir neles a alma de quem os carrega. Um sorri com a força do sucesso, enumerando vértices vertiginosos de pura pujança, uma verdadeira luz sobre o céu negro e as luzes foscas. Outro produz lágrimas a um ritmo superior ao da chuva, triste, vazio, perdeu-se no sentido da sua existência, poderá um chapéu de chuva ter a eternidade do vento?, Serei eu um pequeno gesto no meio de tantos mais, sirvo para salvar da chuva, não rio, não paro, não vejo o sol, não sinto a terra molhada enquanto chove, nunca conseguirei sentir o cheiro das mãos sujas na terra molhada enquanto chove, não poderei nunca ter em mim a sensação de sentir mais que isto.
E uma lágrima caiu, não era chuva, eu senti o peso daquela lágrima a escorrer lentamente pelo azul campestre daquele chapéu, carregando de peso cada haste por onde passava, circundando os pequenos rastos de chuva que furiosos tentavam penetrar do manto de salvamento, eu senti, e talvez por ter sentido, despertei da inércia incandescente que me possuía desde os primórdios, reacendeu-se em mim aquele ardente desejo de gritar, de quebrar a civilização, de romper com os preceitos franzinos que nos prendem às garras da não-loucura. Não partir pratos, não levantar a voz, sorrir educadamente às pessoas que passam, não disparar alarmes sem ver o incêndio ao alto, ser civilizado de gravata, E outra lágrima caiu, de sentar à mesa e usar talheres colocados a três quartos, usar fato, não quebrar silêncios nem ousar sentimentos.
A chuva pesou ainda mais pois naquele momento soube que ela não era quem me prendia ao chão, apenas eu consigo deixar no chão os sonhos, enquanto cabisbaixo espero que alguém os levante por mim, apenas eu posso prender no cimento a alma do presente, caindo no esquecimento mórbido de um futuro em sargaço. Do chapéu pendeu uma terceira lágrima, a última...
Do meio da gente endurecida, baixei o chapéu, senti então em mim a vida toda do mundo,  os calafrios da realidade por cada poro da minha pele, um cataclismo desassossegado que me tornou gente, Corri.
Empurrei gente, gritei ao vento que era Livre, saudei gente que queria ser saudade, não mais, tirei a gravata num sopro de movimentos cambaleantes mas hirtos, corri para a terra.
Deitei-me e coloquei o chapéu aberto deitado comigo e os dois ficamos ali, presenteados de chuva, sentindo a realidade toda na terra que nos sustém,
e com o olhar no céu sabemos que nele residirá sempre o futuro que nos resta, infinito.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Kyrie

Ao alto o som das preces, em coro, em uníssono, um tanto de cor que transparece pelos vitrais e os inunda de uma tez escarlate, semblante triste, e olhos no chão, alguns, aqueles que se ajoelham, largam uma pequena lagrima no regaço do povo, um pouco de sal à terra que outrora alguém edificou.
O pouco que se percebe é que não somos nada, pequenos restos do tempo, pequenos vasos ao sabor do vento, uma gota perdida no oceano, um pássaro entre tantos outros iguais.
A forca da voz não alcança o céu e poucos são os terrenos que a ouvem.
À nossa condição nos queda perder os lábios na voz e os olhos no vento, esperando algum dia ver além daquilo que se olha, poder ser alguém que fica na memória, que eternamente nos queiremos bem, que saudosamente nos despeçamos afincadamente.

domingo, 26 de maio de 2013

Longe de fora

Cai neve neste verão.
Nao estou na minha rua, muito menos no pais que me viu abrir os olhos, as viagens trazem para nos a saudade que nao sabíamos que existia. Nova Iorque enche me de saudosismo, falta nestas ruas rectilíneas e prédios beija-céu o ar tosco e latino que fechei em Lisboa, pelo menos naquilo que me sobra na memória. Fechei uma porta e deus nao me abriu já ela nenhuma e fez questão de desligar as luzes.
O sobretudo pesa, sacudo a neve e ponho as mãos nos bolsos, nao me segue ninguém embora saiba que a manada de gente que me circunda me olha com desprezo, sente no ar um leve toque Atlântico que aqui nao subsiste. Faz me falta Lisboa e tudo o que com ela vem, os gritos nas ruas, as crianças a saltar, a calcada a calcar as solas dos sapatos, onde muitas vezes um leve deslize servia de motivo para te agarrar no braço e com ar inocente disse, Desculpa escorreguei, sabias tanto como eu que senão fosse o acaso da vontade, teria escorregado de propósito.
Depois de um whisky num pequeno bar escondido num beco potrido, sigo ao hotel. Não há sono esta noite, não vejo estrelas para me entreter. Apenas um vazio, escuro, só, e comigo estava o céu cheio de nada e eu de nada cheio.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Um dia a um metro do chão

O sol jazia nos rostos húmidos dos que vieram à praça naquela tarde, suado o chão castanho, de pedra miúda  calcada pelo peso do povo, nas ruas daquele tempo, o pouco vento que soprava não levantava o pó que dormia sobre os gentis cabelos daquela gente suja. Os tempos eram outros ou somente os rostos que neles habitavam.
Subo ao palco. Calmo, hirto mas trémulo, como uma opereta italiana, com a confiança necessária para saber que quando a senhora gorda cantar, a cortina baixa e os meus olhos se restaram com o escarlate do povo, ausentes, suspensos na idade, até ao fim do suspiro, do último bafo quente.
Comigo seguem dois outros, altos e cheios, bem vestidos o suficiente para me puderem acompanhar, sim eu que estava descalço, pobre, com a roupa lavada de tempo e pó, sem um pouco de rosto menos moreno, o sol não me fez sombra em altura alguma, mas sim, é tempo de começar.
Soam os tambores, Te quero bem, mas tanto, tanto que te quero bem, é uma dor funda, que em sangue sabe que te quero bem, até ao fim, até ao fim te quero bem, Sabes, que te quero bem?. O senhor do lado deita a sua deixa, Silêncio, e em tom abundante o povo aplaude de pé, porque sentado não estava.
Eu salto.Respiro.
Rompo a gravidade fico a um metro do chão, suspenso pelas cordas do tempo, para sempre assim, com um pouco de sal nos olhos e uma vida nos lábios, Sabes que te quero bem, e nesse dia um rosto pequeno não sorriu no meio do povo pois esse rosto sabia que os pés nunca mais chegariam ao chão e como eles aqueles lábios vivos não tornariam à infantil face daquele orfão que ali se fez. Vivam aqueles que o tempo não cala.

domingo, 19 de maio de 2013

Não sentir o Ar

Perdemos o chão num segundo, quando colocamos os dois pés levemente assentes no chão, experimentando as suas particulares rugas e os seus leves contornos, esvoaçamos os braços para encontrar alguém que efectivamente já lá não está mais. Caímos ou ficamos inertemente suspensos num gap temporal que nos faz levitar, perdidos no sentimento instantâneo que nos faz rodopiar o tempo e perder o espaço a nossa volta. Tudo se contorce á nossa volta, giram imagem, tocam nos cheiros e a leveza da memória sai nos de repente e sem pedir. Num lapso cai a primeira lagrima e deis outra e com essas a leveza da magoa faz levitar as defesas e deixa ofender sob a chuva o caminho percorrido pela dor nas ruas da gravidade. Somos tão pouco no mundo que ninguém nos faz existência.
Quando vamos na rua não somos gente. Perdemos a inocência de esperar que tudo dure para sempre, que permaneçamos inertes, estáveis e duráveis nas curvas da rua e no caminho das estradas, por todos os por do sol possíveis e deslumbrando todos os ciclos intermináveis da natureza. Mas não, mas nunca, não sempre...
Quando vamos na rua não somos homens. Perdemos a forca de nos olharmos de frente com medo que os olhos tocam os que as palavras temem em enfrentar, com receio que a alma ceda num corpo já cedido à magoa das horas.
Quando vemos o tempo não somos inocentes. Quando vemos os olhos fechar, um rosto pálido e frio, eternamente encerrado na sua escuridão, perdendo o vislumbre do tempo nas rugas da eternidade, sem o suspiro dos ruídos da rua ou o traço humano do calor, do ar, do movimento simples, da empatia complexa, onde as mulheres bebem vinho e os homens fumam a mesa, resguardando os mais novos das dores do mundo, onde já foi isso que nao mó digam, estou longe demais no tempo para saber há quanto tempo fui gente dessa.
Quando encerramos uma pagina nao somos leitores.
Nao sinto o ar, nao porque ele nao o há, mas porque eu nao sou, nao por enquanto, nao no entanto.

domingo, 31 de março de 2013

Boémia (Fala de Gente Cansada)


Olha-me nos olhos e dá-me uma razão, só uma, daquelas que num segundo de compreensão nos deixa escrever estrelas e compor oceanos por aí fora, sem meias desculpas nem tratos vulgares, que desses temos multidões por aí. Na minha cabeça vejo-te a ter maus sonhos, pesadelos escuros que te levam a lençóis vazios de camas desfeitas.
Não estamos no mar, muito menos no campo, no véu da cidade escondemos os nossos rostos, numa rua movimentada onde a gente que passa não nos interessa, nem sequer nos vê - que vêm eles - nada é mau como parece, dá-me um pequeno trago de alma que possa levedar nos meus lábios e derreter-me o estômago  que me corroa por dentro e me faça parir mundos de ir além pelas palavras malcriadas que me saiam da boca.
Aproximas-te.
Um gato passa na rua, não dos pretos com olhos crepitantes, estamos de dia, dos malhados, castanhos, com um ar sôfrego mas igualmente altivo, ainda com aquele toque selvagem de quem se recusa a ser maltrato pela palavra doméstico, não há animais domésticos, só gente domesticada.
Estás demasiado perto.
Um piano toca de uma varanda não alta, trazendo pequenos ventos de civilização para uma rua suja de corpos ocos que não ascendem à humanidade porque a nada pertencem, só somos alguém se a alguém pertencermos, de forma insipidamente inútil e despretensiosa.
Noutros tempos...
Agora, as tuas mãos aproximam-se do meu rosto, deslizam vagas, calmas, oscilantes ao tom do piano, compondo as pausas ao mesmo semblante, deslizando o allegro pelos meus lábios e fazendo claves de sol nos meus olhos, predendo-os a uma obscuridade muito mais clara que a da rua, vejo-te noutros tempos, noutras roupas, em nenhumas, no tempo em que se deslizavam almas por este tempo, no tempo da Boémia.
Sinto as tuas duas mãos na minha cara, sem preceitos mais que inocentes, compondo a música triste que nos pauta, que nos vinga e nos seduz.
Acelera o piano, está no auge, é o grito, o termo apoteótico, onde o ritmo acelera a voz falha, o coro ressalva, o corpo descai, a alma sobe, a voz grita e o homem morre. Porque essas mão não são as tuas, sou eu que não me sinto jamais.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Pela escuridão das luzes


Liga-se um cigarro a conduzir a janela do carro pelo caminho da noite, com estrada mas sem caminho, o volante rodopia lento, sem calma mas igualmente sem movimentos que exijam demasiada vida aos braços cansados, um gato preto passa pelo caminho, sobrevive, sente-se a falta do destino no banco de trás, sem saber para onde ir, acende-se mais um e acelera-se a fundo, com calma, sem movimentos demais nos pés que estas pernas cansadas estão de não andar. Com isto sou um homem da estrada, sem lugar fixo onde ficar nem gente que me prenda a algum lugar, fraco, frágil, não frágil desculpe-me, fraco, sem raízes não se criam árvores fortes. Está frio, mas isso não me impele a manter a janela aberta e o fumo num vai e vem silencioso e ofegante, este é o trabalho que tenho neste momento, não pensar, não querer, não chorar, não amar, não rir, não ser, não mais, por favor, não mais. O combustível também se vai queimando, ao ritmo das ondas que batem na areia, de dia branca, recosta à estrada, numa ténue linha obtusa e oblíqua, jamais recta ou tediosa, crescendo vagamente pelas encostas a dentro, com erva de um lado e areia doutro, tento descobrir qual é o sítio do meio onde eu gostava de estar, sem o compromisso nem a fome, jamais sede, trago um bafo mais quente que os outros, quem sabe o último.
Não há luzes na estrada, não são precisas, quem por aqui andas, sem o sol, não que apogueus maiores para revirar os olhos, queremos silêncio nas ondas e movimento nas ervas, não queremos faróis de frente nem animais pela retaguarda, queremos a travessia, não mais, só passar e esperar que com esta venha a sabedoria de quem não tem um sítio onde ficar, ou um ombro onde parar, nem os cigarros se ficam neste lugar.
Neste caminho não quero descobrir quem sou, nem espero uma epifânia maior, só quero ir pela escuridão, com o brilho dos meus faróis e o cheiro a nicotina que me trás a calma que a vida me tirou, queria ver o mar uma vez mais, não sei se última pois acredito que, independente do sítio onde vá estar no fim, vou ter sempre um lugar junto do mar. Procuro saber quem preciso, parar, escutar o silêncio e estar verdadeiramente só, para saber o que é verdadeiramente ter o segredo do vazio na mágoa dos dias. Não quero ganhar, nem sei se quero sonhar, fumo outro, tudo o que quis, o que preciso não me faz dizer que sim, só me faz querer acreditar que algures noutro lugar estarei verdadeiramente calmo e consciente da luz.
Decidi dizer coisas, só pelo prazer das dizer enquanto desenho formas no ar com o fumo que me corrói os pulmões, a alma?, como se todos tivéssemos o mundo ninguém ousaria negar a existência do universo, ou simplesmente, um mundo faz-se no silêncio, falamos para por termo ao que nos sustém.
Pelas três da manhã já queria mais altas as estrelas, o fumo já lá tinha chegado, e enquanto me refugiava na areia, a cem metros do carro que luzia sombra no pequeno areal aberto nas rochas pelo mar dos antigos, onde correu sangue pelas encostas agrestes e escarpadas, feridas pelo tempo e queimadas pelos abraços que não as tiverem, onde o fumo queimou a vida e deixou este resto de lodo rochoso, sem alma que o sustenha nem razões que o perpetuem na vida, não mais, mais camadas por detrás virão e deixaram vazia a recordação daquelas escarpas serenas, pequenas crianças dormindo sobre outras, eternas substituídas pela razão do tempo, adormecidas como eu, apenas diferentes porque eu respiro e ainda tenho os olhos abertos e a minha criança de dentro não se queima pela de fora na demora do seu tempo.
Secreta e pura não é a minha passagem pela terra, asos de loucura e resteas de luz me deixam aqui, eternamente na areia, sentindo a gente certa proclamando noutros mares, em ti respiro, em ti consigo a força de novo, Não mais escuridão, Não mais luz, o silêncio me dá as cores que preciso para amanhã,
Porque as árvores morrem de pé e os homens vegetam deitados na escuridão das luzes, na eternidade do tempo.

Pela eterna margem