Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

quinta-feira, 11 de julho de 2013

De mochilas vazias se criam viagens

As viagens que criamos, por pouco longe que fossem, saudavam nas vistas a infinita miragem do progresso, uma ideia de crescendo espiritual que nos remetia para uma nova era, onde os corpos era receptáculos recíprocos, interagindo com o mundo da mesma forma que ele os integrava na sua constância plácida.
Quando tudo pára, começa, em edifícios com espaços verdes, onde gritos nos evocavam, Nós não ligávamos, demasiado dentro do mundo para os ouvir, e juntos partilhámos o olhar aceso de quem incendeia de pensamento com a força da interrogação perplexa. Que a gente alta, pasmada de cegueira branca, trucidada em correntes de aço, presa pelo tempo gasto dos navegadores, passe por baixo de todo o nosso desprezo enquanto juntos gritamos ao vento que somos livres. Era a nossa maneira de sermos juntos, apenas, paralelamente estranhos, vendo como quem olha para a eterna novidade as novas terras da nova era, aí, esperas até ao fim para dizer adeus? Naquele tempo a viagem tornava-nos iguais, nem os sonhos descontíguos, nem as vozes roucas nos rogavam pragas de longe, era uma nova inocência, sabida, corajosa, ousada e livre, mas com o espírito suficientemente infantil para se deixar consagrar na virtuosa beleza da natureza e do pensamento que dela flui, pois da nossa mente luzia uma eterna luz que nos impelia em frente, sem direcção definida nem pressas de tempo, indo, sem saber porquê, mas uma e outra vez nos víamos juntos em viagens que não aquelas, porque éramos mais.
Esperámos pelos momentos de solidão para dizer que as nossas mochilas estavam vazias, sempre, porque apenas nosso era o caminho, apenas da viagem vinham recordações, não precisamos de levar mais nada quando queremos trazer connosco pequenas lembranças de grandes mundos.


Não esperes pelo fim para criar começos.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Assim

O sol nasceu cedo, em terras mais longínquas o sol nasce sempre cedo e obliquo aos nossos olhos tortos de vida, entrou pelo corpo aquecendo devagar como um toque  suave surrupeando cada poro vazio, cada esperança vã, um labirinto de gente que se constrói num corpo só. Vestiu-se e saiu. O tempo estava ameno, nem próprio do sítio, nem cómodo para a gente. Suspendo o tempo porque o relógio não o havia trazido, andou pelas ruas, entrou num metro sujo e amarelo, velho, ressequido como as veias do comunismo, onde os bancos são assentos rotos, escuros, próprios de quem vai sem voltar.
Chegado ao jardim, viu em si um novo ser. Perdido naquelas árvores verdes, naqueles silêncios harmoniosos e pelos cheiros do tempo surpreendeu-se ao sentir, ao aperceber-se que tarde demais era apenas escolher, não é tarde. É cedo nas multidões.
Correu, sem parar, sem olhar para trás e enquanto correr era tudo o que lhe ficava proscrito, deliciou-se no vento o rasto do perfume, viu no vento os lábios vermelhos que empalideciam o rosto sorridente, de tez calma e mão trémula que lhe suscitava na memória um reconforto estranho de quem parte sem nunca ir, de quem fica sem nunca esquecer, um complemento estranho de quem não se completa nunca.
Perto do fim abriam-se em triângulo campos vermelhos de lembranças, oferecidos por quem ali estivera em tempos antigos, cada casal embriagava-se de solidão e deixava ali um pequeno passo para que os próximos pudessem andar. Ali, perto do fim, onde se erguia já os edifícios da civilização e os barulhos dos homens loucos do futuro, ele viu-a. Em pequenos passos incertos mas fixos, com uma estranha tendência de por mais pé do que era preciso, tecendo em redor das solas um pó próprio das cidades do tempo novo, que se asfixiam em pó para se poderem embriagar em dinheiros e luxos que tais.
Quando se aproximou teceu um leve toque no ombro esquerdo daquele vestido, entre os dois triângulos onde pautava Matisse, desenharam de longe um círculo infindável, um pequeno espaço uno, uma pequena solidão que, ali, naquele momento, se fundiu nos corpos e se fez no tempo.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Pequenos Inquietamente Frágeis

Algures longe de tudo reside um pequeno boneco de porcelana, em terras onde o sol brilha, onde o mar nasce perto e reside connosco pelos caminhos obtusos dos campos virgens e verdes, recheados de árvores e singelos bancos silenciosos onde residem pensadores de alma e filósofos do corpo. Longe de tudo há um imenso vazio de gente e uma multidão rouca e ouvidos surdos à nossa voz, aqueles cuja boca desenhada pelo contorno liso de um pincel se residem à lingua de Pessoa, aos gestos de Eça e ao criticismo amargo de Sena, a saudade do mar de Sophia, o revolucionismo esfuzeante de Ary e a rouquidão crítica de quem na chuva faz perólas sem água de Mourão-Ferreira.
De luzes e ouro se murmuram países, não deixemos a sorte com as audazes nem o silêncio para as almas penadas. Pergunta o pequeno boneco se de longe cair, alguém de perto o apanhará, com mãos suaves como aquelas que o fizeram a rir, as que contornaram um pequeno chapéu azul na sua cabeça, as mesmas mãos que lhe afagaram as lágrimas na noite.
A noite vem e traz consigo a escuridão de breu e todos os monstrengos que residem em cada um, nos resquícios de cada alma, escondido por entre portas, um figurão negro, alto, espantoso, sem uma réstea de luz ou uma imaginação dócil, sem um bom trato ou um coração saudoso. Importa esquecer, trata de lembrar que há-de passar, passar o tempo sobreerguido no vento, vendo as aves de longe, sem parar, tentar matar com porquês o que sobre de confiança, A noite é vil. Por ela, ficarás com a chuva dos dias e o frio dos desertos, com os buracos no mundo e os poços de terror, em todas as prisões mais negras, sem saber de quem, sem saber onde, sem saber, só.
Numa noite de chuva que não nesta, num país que não este, o pequeno boneco subiu à sua janela, viu uma lua tapada de lágrimas, chorando para a relva encharcada e de tez triste, rebaixada com o tempo, ele não chorou, chorar não sabe, escutou o silêncio, sentiu-se sombra de todas as sombras e uma pequena mão tocou-lhe no ombro e eternamente se viu caindo, sem nunca tocar o chão, sem nunca findar a noite, suspenso de tudo.
Viver é tão mais que estar e tão pouco lhe chega respirar.
Pudéssemos quedar juntos no mundo e ele seria a nossa casa.

domingo, 30 de junho de 2013

Distância

Enquanto o vento bate forte nos olhos, lavados em lágrimas, onde o tempo passa lento, rasgado como um ventre novo, sentimos aquele arrepio que só se sente longe, que só se sente ausente, que só se sente só. Podemos estar longe no tempo quando perdemos o momento de tornar eterna a vida num segundo. Podemos estar longe na distância, sabendo que as nossas lágrimas são uníssonas com as de quem nos quer. Perdemos a casa porque somos do mundo e ele não nos chega por ser grande demais, e ele não nos basta porque não o podemos agarrar, sentir, abraçar, tornar nosso aquele corpo, possuir de afectos até cessar o tempo.
Com um pouco de engenho podemos inventar formas de queimar a chama da saudade, latente, até que de novo nos vejamos.
Porque só quero que se retorne na memória que vos quero bem, que vos gosto, muito, sempre, meus.

Te voglio bene assai
Ma tanto tanto bene sai

Fica no sangue o peso de ser português e de não estar em casa em sítio algum que não o nosso, com quem queremos bem, com quem nos quer bem.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Um Chapéu à Chuva

Por baixo da chuva, cabisbaixos com o medíocore receio de nos molharmos, como gente civilizada e enxuta, seca por completo, num misto sem sabor de ataraxia pura, um suspenso oco, quiçá delirante, que nos impela para a frente, sem sentido, sem vagar, sem força. Não temos casa. Não temos gente. Não temos mais nada senão a chuva que nos reveste de vazio, que rompe a solidão com o mundo e nos afasta dos demais.
Em círculos estritos, ando pelo passeio, à espera que um chapéu se cruze com o meu, não mais que isso, um simples desejo infantil de ver desenhado um sorriso em cada um dos chapéus, um lapso futurista de sentir neles a alma de quem os carrega. Um sorri com a força do sucesso, enumerando vértices vertiginosos de pura pujança, uma verdadeira luz sobre o céu negro e as luzes foscas. Outro produz lágrimas a um ritmo superior ao da chuva, triste, vazio, perdeu-se no sentido da sua existência, poderá um chapéu de chuva ter a eternidade do vento?, Serei eu um pequeno gesto no meio de tantos mais, sirvo para salvar da chuva, não rio, não paro, não vejo o sol, não sinto a terra molhada enquanto chove, nunca conseguirei sentir o cheiro das mãos sujas na terra molhada enquanto chove, não poderei nunca ter em mim a sensação de sentir mais que isto.
E uma lágrima caiu, não era chuva, eu senti o peso daquela lágrima a escorrer lentamente pelo azul campestre daquele chapéu, carregando de peso cada haste por onde passava, circundando os pequenos rastos de chuva que furiosos tentavam penetrar do manto de salvamento, eu senti, e talvez por ter sentido, despertei da inércia incandescente que me possuía desde os primórdios, reacendeu-se em mim aquele ardente desejo de gritar, de quebrar a civilização, de romper com os preceitos franzinos que nos prendem às garras da não-loucura. Não partir pratos, não levantar a voz, sorrir educadamente às pessoas que passam, não disparar alarmes sem ver o incêndio ao alto, ser civilizado de gravata, E outra lágrima caiu, de sentar à mesa e usar talheres colocados a três quartos, usar fato, não quebrar silêncios nem ousar sentimentos.
A chuva pesou ainda mais pois naquele momento soube que ela não era quem me prendia ao chão, apenas eu consigo deixar no chão os sonhos, enquanto cabisbaixo espero que alguém os levante por mim, apenas eu posso prender no cimento a alma do presente, caindo no esquecimento mórbido de um futuro em sargaço. Do chapéu pendeu uma terceira lágrima, a última...
Do meio da gente endurecida, baixei o chapéu, senti então em mim a vida toda do mundo,  os calafrios da realidade por cada poro da minha pele, um cataclismo desassossegado que me tornou gente, Corri.
Empurrei gente, gritei ao vento que era Livre, saudei gente que queria ser saudade, não mais, tirei a gravata num sopro de movimentos cambaleantes mas hirtos, corri para a terra.
Deitei-me e coloquei o chapéu aberto deitado comigo e os dois ficamos ali, presenteados de chuva, sentindo a realidade toda na terra que nos sustém,
e com o olhar no céu sabemos que nele residirá sempre o futuro que nos resta, infinito.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Kyrie

Ao alto o som das preces, em coro, em uníssono, um tanto de cor que transparece pelos vitrais e os inunda de uma tez escarlate, semblante triste, e olhos no chão, alguns, aqueles que se ajoelham, largam uma pequena lagrima no regaço do povo, um pouco de sal à terra que outrora alguém edificou.
O pouco que se percebe é que não somos nada, pequenos restos do tempo, pequenos vasos ao sabor do vento, uma gota perdida no oceano, um pássaro entre tantos outros iguais.
A forca da voz não alcança o céu e poucos são os terrenos que a ouvem.
À nossa condição nos queda perder os lábios na voz e os olhos no vento, esperando algum dia ver além daquilo que se olha, poder ser alguém que fica na memória, que eternamente nos queiremos bem, que saudosamente nos despeçamos afincadamente.

domingo, 26 de maio de 2013

Longe de fora

Cai neve neste verão.
Nao estou na minha rua, muito menos no pais que me viu abrir os olhos, as viagens trazem para nos a saudade que nao sabíamos que existia. Nova Iorque enche me de saudosismo, falta nestas ruas rectilíneas e prédios beija-céu o ar tosco e latino que fechei em Lisboa, pelo menos naquilo que me sobra na memória. Fechei uma porta e deus nao me abriu já ela nenhuma e fez questão de desligar as luzes.
O sobretudo pesa, sacudo a neve e ponho as mãos nos bolsos, nao me segue ninguém embora saiba que a manada de gente que me circunda me olha com desprezo, sente no ar um leve toque Atlântico que aqui nao subsiste. Faz me falta Lisboa e tudo o que com ela vem, os gritos nas ruas, as crianças a saltar, a calcada a calcar as solas dos sapatos, onde muitas vezes um leve deslize servia de motivo para te agarrar no braço e com ar inocente disse, Desculpa escorreguei, sabias tanto como eu que senão fosse o acaso da vontade, teria escorregado de propósito.
Depois de um whisky num pequeno bar escondido num beco potrido, sigo ao hotel. Não há sono esta noite, não vejo estrelas para me entreter. Apenas um vazio, escuro, só, e comigo estava o céu cheio de nada e eu de nada cheio.