Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Fragmargens II

Não me quero destruir, não me quero olhar, quero acabar longe, num sítio só meu, onde possa ver o mar, onde possa plantar árvores e vê-las crescer, onde possa dizer que não tenha paz e onde possa pedir mais, onde há bancos de madeira vazios e mares por provar, onde a areia queima nos pés, cortando-os em pequenos golpes sem dor, onde se construam cidades pelos rios e barcos com as marés, onde possa ir, sem nunca voltar, sem nunca me  deixar.  Ser folha branca para todas as tintas do mundo, sensação para todos os ventos, corpo para todas as facas e pensamento para todos os ignorantes, só mais uma vez, só esta vez.
Onde passa o frio, onde jogo comigo, onde me tenho para me sentir bem, onde o calor passa pela manhã e a lua cai de tarde, onde penso em ti, sem dor, sem sentimento, só pensar como criança inocente a brincar ao faz de conta.
Quero é ver, sentir, provar, ir, ser , liberdade, criar margens.
Ser à margem do mundo, a margem de mim mesmo.

Deixar para trás

Esconder, guardar, deixar, queimar, ficou a noite rendida, uma janela para o rio e um monte no longe, o vento está mais frio e a noite mais barulhenta, tu olhas-me com ar sério, uma carta rendida e um vazio a esperar, uma letra apagada e um beijo roubado, um toque que se desmancha e uma memória que renasce, uma festa que se ganha, uma pedra que cai, uma fuga no campo, um rio que bate e uma rocha que não cede, um bafo quente e um olhar perdido, não és tu, não somos nós que nos perdemos, só os outros não nos encontram, o cenário manda dançar, a noite faz lembrar, tu não és nada, a madrugada vem, os carros apitam e a gente olha, vejo os teus traços, os meus lábios, acabo em ti, nasces de nós, tenta parar, o corpo não deixa, a boca não morde, as mãos não largam, a noite aquece, o vento foge, as ervas crescem, e nós perdemos, nós esquecemos, nós somos, nós estamos, nós não existimos, vês?, estás só!

Quimera

Tropeço em mim e passo por Lisboa. Cresce em cada caso uma milagrosa magia de desprezo, de desconfiança e nojo, somos nós a morrermos sós. Se me bateres à porta, hoje, direi que não, não quero ilusões, nem transtornos aos olhos, se vieres direi que não, se um dia nos virmos sorrirei com gosto como quem passa por um oásis em pleno deserto, até lá nego. Nego querer, nego ser, nego tudo e nego-me ao silêncio.
Há nesta rua demasiada gente a passar, gente de negócios bem vestida, artistas descambidos e personalidades exuberantes, não há som contudo. Chove e não oiço nada. Não bate em terra a água pura do céu, não salpica os olhos, não limpa a alma apenas passa por nós como a noite, não fica, não deixa, vem e parte como tudo o resto. Ouve a chuva na terra molhada, não aqui, longe, rasga a luz em som e talvez me oiças a dizer adeus.
Quando a chuva vem de noite e ninguém bate à porta, não salto da cama, nem me aparto nela, sinto-me num limbo de quem não é, não é sossego, nem é esperança, não sente, nem dói, subsiste.
Quando a noite passa e a madrugada vem, quimeras são as que ladrão pelos terrenos lamacentos deste bairro, porque vivo?, ironicamente passam outros.
Quando bateres à porta nego que te abra,
Não te garanto que esteja fechada.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

E depois partes

Um pequeno toque no braço, por muito longe que os meus olhos te apanhem, aquele breve suspiro que fazes quando acordas ao meu lado e eu não te vejo, o brilho que há nos nossos olhos quando se cruzam e as pequenas letras que, tecidas, nos entrelaçam, juntos, estreitos, numa espiral infinita de desejo e sabedoria parva, um tom sentimental, nada nosso. E voamos, imaginamos mundos, construímos universos, pequenas criações juntas, pautadas pelo sorriso imaginário de duas crianças que trocam palavras como quem troca carinho.
Depois, silêncio.
No fim, partes.
Fica o espaço sempre que voltas, deixas silêncio sempre que partes.

Será que dissemos o quanto mudámos a vida um do outro, quanto criámos, quanto ainda queremos criar e se queremos o mundo?
Podemos amanhã não dizer e amanhã ser tarde demais.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Noite IV

Sigo sozinho nos desertos do meu carro, profanando a cada curva os segredos intrínsecos da memória do teu corpo, circundo os sítios populosos e chego à solidão da terra. Confuso e abstracto, que tenha eu frieiras se as multas que me chegam são muito menos do que as que passam, tenho eu arranhões na alma, riscadas pelas tuas unhas cravadas em agonias lentas.
Como dizia uma criada que mal sabia ler, o meu momento é o presente, vou para a cama estou doente. Estou longe dela, de tudo, junto do silêncio e deste nuvem de fumo que começa a embaciar as janelas do carro, já ninguém me vê lá dentro.
Tira tudo, perde-te, não sei ler também, deixei na cidade o que me põe doente.
Não há ninguém aqui. Ninguém aqui fica, tudo o que vem passa porque eu não aprendi a fechar portas, só a abrir fechas por onde usurpa o espaço, Não te quero. Quero-te. Não sei que mais querer senão uma beata de cigarro a escorrer me no braço, queimando lentamente o seu caminho até numa volúpia escarlate desafiar a gravidade a pequenos soluços e atravessar um chão que não se deixa trespassar.
Um bafo mais quente e uns faróis que passam, nem a luz aqui se deixa prender.
Não há espaço nos bancos para que cries margens, nem tempo para te deixares ir. Vivo do que me dão, até não viver mais e ter que procurar ódio nos olhos de outro alguém.
Saio dele, o vento bate frio, o cigarro ressente-se e a alma apaga-se, os pequenos toques no vento ao passo ritmado da dança do casaco lembram-me de ti, um dos 'ti' que por aqui passou, não estás, eu não quero, eu quero. Deixas-te passar como este vento também passa, como as ervas também voam e como os pássaros se vão esconder nos recônditos caminhos de deus. Viver do que nos dão é tão menos do que viver com o que se quer.
Acende-se o último e já não sei ler, a porta ficou aberta e eu persigo a chapa das restantes, queimando a mão no frio ardente que ali vivia, ou apenas passava, chego ao fim dele e continuo, Olho de relance para trás, vejo, no vidro pálido vejo, na chapa iluminada pela brisa, vejo, no pequeno traço espelhado da marca, vejo, e só me vejo a mim,
Continuo, uma lágrima caí e mais um bafo se enche, o corpo contorce-se mas não para, a alma dói mas não se vai, todo os meus olhos se fixam naquela imagem e no fumo que agora a cobre,
Porque me traíste tanto?
e eu não consegui responder

domingo, 17 de novembro de 2013

Sentares-te à mesa torna-se de tal modo uma rotina que dispares os olhos não observam com a devida tenacidade as margens obtusas do que os circundam, as pequenas sombras sobre a mesa, a posição errónea dos talheres, o pequeno folho onde assentava a panela, tradição, as crianças rugindo animosidade às voltas da mesa como uma plateia de circo, os traços campestres trazidos da cozinha, numa marinada de calor e desejo que acendiam a animosidade em nós, o desejo carnal de morder, perder nos sentidos da boca os doces travos da conquista. Saborear com a parcimónia devida os pequenos contrastantes, o alecrim, o louro, lamber o sal com sentido, morder com os olhos o mundo e tomar a fome como eterna.
Levanto a cabeça do prato que se pousa defronte e nada. Nem o trapo velho que lá costuma estar, nem os talheres compostos, nada. Silêncio, um absurdo de vazio conquistou este espaço, um vago néscio tempo de distância imprecisa, de desfasamento real, uma curva abstracta para dentro de nós, uma contorção anímica que nos estrangula.Perdemos pela passagem, aos soluços amargos, as pequenas surpresas, que sem sabermos, constituem as grandes imagens, delas se fazem livros e delas se fizeram pirâmides. Delas vem a força e dela nascem heróis.
À mesa o silêncio,
Façamos barulho enquanto tivermos voz.

Molière

Estou sentado nas abordagens recônditas do palco, longe dos olhos bifurcados na escuridão, da svozes quentes e do bafo dos aplausos ecoando pelas miragens de ouro, únicos restos da magnífico, onde procura o público, a dor, a garra, ainda não estou lá.
Não te sentes aqui, não agora, pinto-me os traços por baixo das rugas marcadas pelo desgaste, desgosto, pelos lados que me perderam e pelos sonhos que me deixaram, por todos os silêncios que não cumpri e por todas as palavras que não direi, aqui, antes, no prólogo de tudo, espera-se por algo, algo onde nunca estive, um tempo em que nunca me perdi, não tu.
Não quero sentir o teu bater, não perto de mim, fecho a porta e tu andas pela amdeira, como na primeira vez, e sei que aqui algures, num bau, está a resposta. Porque eu não sou deste palco nem tu desta história, quando me procurares nele saberás que farei tudo para lá não estar, caminhamos para algo, maior que nós, e lá, no fim, acabaremos de mãos dadas e costas voltadas ao tempo, eternos amantes ao luar.
No fim do espelho, no intrínseco sono dos meus olhos, há uma pequena lágrima seca, há espera de ser chorada, não hoje,
Visto-me e saio do camarim, pronto, penteado, com pó de sobejo, com a pouca humanidade guardada no bolso,
Saio ao palco, na rua há demasiada desumanidade e esta plateia está vazia,
Na tua ausência o vazio vira horizonte.