Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

terça-feira, 15 de abril de 2014

Aqui

Não sei se andei depressa demais, ou se te não deixei correr ao meu lado, mas estou distante, não vou estar aqui quando a noite chegar, não ficarei eterna rocha no mar de sargaços, estupidamente fixado nas ideologias baratas de um mundo capitalizado de banalizações, não se vêm horas de não voltar aqui, não sei quando te deixei de ver, nem em que lugar o sorriso perdi, pedi mais tempo para olhar, não há sobras para ver, eu não estou aqui.
O tempo é depressa demais para quem tem tudo no tempo morto à espera que de morto ele não se altere.
Sei que algum momento terei para te olhar, num outro tempo, com tempo de ver, de agora em diante, não vou estar aqui.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Caminhos

Deixa na calçada o que dela é, sem pretensões de ter o que nunca foi efetivamente nosso. Sem mágoas nem ressentimentos, já outros falharam a vida, sem se aperceber que falhar a vida é simplesmente viver, percorrer eternamente os carros que nos guiam até ao infinito, com o fim último em todos os fins que nunca mais terminam. Seguir eternamente caminhos que não se tocam e falar sempre em linguas que não se cruzam, parece destino grego a quem de grego nada tem hoje e de tragédia só em escritas menores.
Nada muda no ano novo, nem nada fica no ano velho, se soubermos ficar sempre no limbo em que já não estamos, quedaremos sempre no tempo a dúvida que não tirámos no espaço.
Num outro momento, num outro tempo, sob outro céu, com música ligeira  e vinho suave, tragarei de ti a alma toda que minha já não é.

Hoje estarei sempre com o meu amanhã e só dele pertenço.

domingo, 13 de abril de 2014

Manifesto

Por onde vais correr, ao longo de quantos dias, corres às rochas e prendes-me ao porto, corres ao mar e deixas o mar ao sul, nada se fica, nada se prende, quando o perigo vem, quando a madrugada é suja, o que se passa?, ninguém sabe, cala e finge, eu corri para o rio que sangrava até ao mar, num único suspiro de vida, num único bafo de morte, onde a terra se esbate nos seus contornos lentos, nas suas farpas suaves, aqui não se esconde deus, aqui não se mata ninguém. Deus manda-nos ao diabo quando sabe que ficamos sem caminho, e choramos poder. Poder. Poder. O que se passa?
No fim da torrente, no ponto último das chamas, soam sinos de longe, nascem fontes de perto, nada mais se cria, nada mais se transforma, surge apenas uma estagnação última da miséria humana, um grito primário de quem vem de longe e matou em todas as guerras, aqueles que pedem perdão sem o querer, e os que amam demais sem o saber, a ignorância é a primazia
infernal dos pecados da carne, e o espírito último da cura dos corpos.
Que dizer em manifesto? Que se manifesta que "o sentido único das coisas, é elas não terem sentido único nenhum".

sábado, 22 de março de 2014

Não se deitam comigo corações obedientes (A Naifa)

Expludo o rosto na parede, talvez na última canção, onde os corpos se contradizem e as almas se reacendem, as paredes já são outras e as caras perdem-se em novos corpos, voltamos a ela muitos silêncios depois, deixei longe o que me deixaste, numa casa difícil de habitar, num sótão impossível de sobreviver, comigo não, contigo nunca, há uma falha no lugar intenso que temos, é melhor ficar assim, sem queixas de inconvenientes, nem trocas protocolares, é este o tempo que deixaste é com este que ficaste.
A tua boca é silêncio, a tua sina som e as tuas palavras ciúmes, não será o toque, não será o tempo a usar outros lábios, tempo e tempo depois, não digas nada que não se deitam comigo corações obedientes.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Se te dá ganas de agarrar, agarra, morde, torce, tortura, delineia o espaço, come a alma, devora o corpo, cambaleia, perde-te, deita as grades ao tempo, se eu falar talvez tu negues, se eu falar talvez tu fiques, até lá, só dói se quiser, só mói se deixar,
Até aparecer o momento certo, queimemos o desejo nos errados.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Noite VI

Se é real não mostres, se é palavra não digas, se tem toque, afasta, se tem corpo não aproximes, se tem fim, não comeces, parece tão inútil deixar ir com o vento o que não se sabe que veio com a maré, não fales, não expliques, não fiques, não vás, fica na ponte de sempre, no ponto infinito de quiasmos, no toque último de céu, onde as memórias podem ser chamadas, onde podem ser apagadas, onde o tempo, eu e tu, com a cabeça no horizonte e os olhos no infinito de cada um, se cruzam num término tempo sem fim, não fales, não sei o que pensas, não sei pensar, é demasiado fácil deixar de fingir, é demasiado fácil deixar de tentar, demasiado fácil fugir de onde nunca se pertenceu.
Com tudo e com todos, uma profunda distância de quem percorreu mais caminhos do que aqueles que devias ter cruzado.

domingo, 2 de março de 2014

Maníaco

Sitiar Berlim, aterrar em Lisboa, beijar o mundo e queimar a pele, buscar o silêncio na multidão toda, saltar dos olhos de quem passa, sem se passar nada, buscar nos pulsos o nós atormentados das palavras, solicitar as tarifas do mundo no quichet dos viajantes e gozar licenças a quem licenças não tem que gozar, gritar na manhã o que se fez na noite e lembrar na aurora o que se esqueceu no prelúdio, rejeitar a saudade e todas as formas portuguesas de querer ter o que não se tem mais, cantar as músicas que ardem o capitalismo, gritar as palavras que derrubam comunismos e todas as formas de pensamento coletivo, como disse Soares, todo o pensamento coletivo é estúpido porque é coletivo, só os animais fazem bando, só as pessoas crescem sós.

Depois acordar e fingir que isto somos nós, como se algo mais fôssemos senão silêncio.