Há que largar a espada, deixar as armas cair num gesto de rendição, esquecer o que se passou e ver a chuva pelas portas já fechadas, dormir, e escolher olhar para o mar infinito, talvez por escolha, talvez pelo tempo que perdemos ao não ter tempo, deixar ir o que não tem nada para ficar e saber que alimentar o vazio só o faz crescer.
Quanto se precisa? Quanto basta? Não se corta e corre, não se larga e deixa, às vezes deixas-te ir com o vento, cego para ver e o dano está feito, não esperas, não calas, não, enches de nãos todos os sins possíveis, queimas-te por dentro, os olhos ardem e não vês o regresso inteiro de quem nunca mais irá voltar.
Não é tarde, simplesmente já não é tempo para ter mais, para ter simplesmente, da janela vemos o mar calmo, e no canto ficam os sonhos que escrevemos, ficam os espaços onde passamos e o meu corpo corre para um sossego escuro, Nunca é o fim, dou-te um último beijo no ombro, deixas-te ir e contra mim vais, uma última lágrima cai, um último sorriso nasce, Nunca acaba o que o fim não consegue terminar.
Aqui diz-se quando ninguém deixa. Aqui manda-se vir sem os gajos ricos deixarem. Aqui fala-se... E fala-se... Por ser isso que nos mantém vivos
Balelas (ou não) da Rua
Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Começar de Novo II
Há uma tempestade lá fora e os teus cabelos são negros como ela, a tua boca carregada como as nuvens negras do céu, um criança tropeça, inocente, depois de correr, antes de sentir, uma criança tropeça dentro de ti e eu perco-me nela, a noite vem e leva-te como se não voltasses, como se não deixasses, e por nuvens e além nuvens, um mar profundo e um silêncio constante, a tua boca cala, o teu corpo consente, e indo mais longe que os homens fomos tudo menos deuses, não voltamos onde o mundo principia, não voltamos porque há viagens que só de uma partida são feitas.
E começas de novo, quando de manhã o sol nasce cedo e as gaivotas voam, brancas, por cima do rio, trazendo consigo o barulho dos motores, o céu que despreza a morte, o riso do tempo, o sonho que apenas desenhamos no tempo.
No último tempo, na despedida, vale a pena ter amanhecido, ter perdido, ter fascínio, deixando ir nas esporas do tempo a confiança cega dos sobreviventes, a mancha eterna dos prisioneiros, ter-me conhecido e perdido, ter me corrido nas manhãs, contar comigo...
Vale a pena se no começo existir princípio, se num fim existir silêncio....
E começas de novo, quando de manhã o sol nasce cedo e as gaivotas voam, brancas, por cima do rio, trazendo consigo o barulho dos motores, o céu que despreza a morte, o riso do tempo, o sonho que apenas desenhamos no tempo.
No último tempo, na despedida, vale a pena ter amanhecido, ter perdido, ter fascínio, deixando ir nas esporas do tempo a confiança cega dos sobreviventes, a mancha eterna dos prisioneiros, ter-me conhecido e perdido, ter me corrido nas manhãs, contar comigo...
Vale a pena se no começo existir princípio, se num fim existir silêncio....
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Todo o mundo é assim
As coisas transformam-se, a chuva cai e aprende a parar, o sol nasce e deixa-se morrer, tudo se muda em mim, tudo se transforma por colapso rápido, por mudança súbdita como um sopro no ar, um nome a chamar, de longe, um abraço e um até mais, o horizonte vai longe e tudo o que o olho alcançar se deixa partir com ele, invadindo a terra do ninguém, sem ninguém notas, palavras e vozes, sinais e gestos, tudo é grande demais,
Todo o mundo é assim, tudo se fecha num fim.
Num horizonte longe, numa palavra surda.
Todo o mundo é assim, tudo se fecha num fim.
Num horizonte longe, numa palavra surda.
Lá fora
Nos olhos fundos guarda a dor toda do mundo, o sal todo do oceano, um canto triste e sozinho, uma voz trémula de quem tem mãos gastas, Lá fora amor nasce, nos dedos uma ferida tépida, de passagem pela madeira ressequida do tempo, Eu mostrei sorrindo, a face sóbria como quem passa, o tecido verde como quem espante, Olhos tristes, guarda tudo no regaço e deixa tudo no seu espaço, num pequeno banco do quarto se senta e aceita mil versos do vento, mil distâncias do universo, Lá fora amor as rosas morrem, e a festa acabou aqui, o barco partiu comigo, o meu porto será sempre aqui, O tempo passou na janela, só não viu o tempo ficar. E com tudo, E com isto, se fica sempre na meia distância do tempo, na meia palavra da vontade, E a dor toda do mundo fica sempre, Não vai dar, E a dor não fica, Lá fora, Cá fora, Nasce de dentro a estrela que te cai nos olhos e ilumina, te desce na boca e fica, te mata na alma e cresce.
Se for isto o que chamam, é isto que fica, nenhuma palavra existe como o mundo não chega para agora explicar. Lá fora, nasce!
Se for isto o que chamam, é isto que fica, nenhuma palavra existe como o mundo não chega para agora explicar. Lá fora, nasce!
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Respira-me
Ligas o carro, está frio, o bafo do cigarro confunde-se com o da vida, devagar, lento, em cada bafo, um gelar interno até às vísceras da alma, e paras, respiras mais vagarosamente, em cada bafo o universo inteiro, fragmento, nublado, denso, confuso, a ir pelas janelas fora, revestindo o vidro de uma pequena película opaca, estás só, o mundo não te vê, e aceleras finalmente. Pões a primeira, a segunda, até à quinta o primeiro cigarro se vai e a música acende, não sabes para onde vais mas sabes onde não ficas mais, o caminho descobre-se com a viagem e o passado acaba-se no tempo, és livre, finge e cala, consente, deixa e vai, segue só, sem malas de viagem nem telefones guardados, apagas as fotografias e os papéis já reescritos, a tua história começa agora. Ficou na portagem o último sorriso, um último Obrigado, Ouves-me?, Falo contigo?, e ninguém responde, não queres falar, apenas em sonhos. Do outro lado do mundo, da outra margem do rio, para...
Olá, perdi-me outra vez, a pior parte é não haver mais ninguém a culpar, não haver mais nada a recordar, embrulha-me em sonhos e envia-me para o mundo, não preciso, não aqueço, não sei, respira-me.
Perder-me outra vez, mais longe, sabendo que te encontro quando nós quisermos, não me perco de ti, não fujo de nós, um dia o longe vai ser demasiado perto para fugir, demasiado calado para ter voz. Nesse dia, tudo fará sentido, nada será verdade.
Olá, perdi-me outra vez, a pior parte é não haver mais ninguém a culpar, não haver mais nada a recordar, embrulha-me em sonhos e envia-me para o mundo, não preciso, não aqueço, não sei, respira-me.
Perder-me outra vez, mais longe, sabendo que te encontro quando nós quisermos, não me perco de ti, não fujo de nós, um dia o longe vai ser demasiado perto para fugir, demasiado calado para ter voz. Nesse dia, tudo fará sentido, nada será verdade.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
Sedado
Amanhece, frio, longe, só, sem sentido, simplesmente uma sinfonia de fundo sem ti, um solstício mundo sem nós, nas manhãs imensas dos dias claros, surge na janela um pequeno raio de escuridão, uma pequena brecha de destino, um peculiar rasgo de solidão, entra, penetra, toca e envolve, deixa-te ir nos seus braços para o longe, o infinito de nada, o mundo vazio de ti, uma pequena tontura, uma grande ferida, nascem sombras nas paredes dos reis, eu e tu, algo que fica longe pelas paredes. Nascem o chão muros sem fim, cobertos de cinza, recobertos de ervas crescendo a cada passo, mais rápido, mais alto, por mais que as agarre, as puxe, as rasgue e as tortura, nada as para, nada as faz, sedados pelo tempo que deixámos ao lado, o veneno que não deixámos cair, as pequenas gotas que nos saem do tempo e se deixam ir, de mim para ti, de ti para mim, dorme, deixa-te ir, e enquanto as paredes nascem e nos amarram a elas, cada vez mais perto, cada vez mais longe, eu e tu, não paramos, o mundo não para, o mundo não fica, e surdos, mudos, deixámos passar pelas linhas do tempo os caminhos que jurámos nunca percorrer sozinhos.
Sedados, mudos, calados, sem sentido, estamos cada vez mais longe, sem nunca saber o que foi estar perto.
Sedados, mudos, calados, sem sentido, estamos cada vez mais longe, sem nunca saber o que foi estar perto.
domingo, 23 de novembro de 2014
Sempre quis ser...
Sem o tempo do sempre, ou o hoje dos outros dias, começar de novo, entrar num caminho diferente, ver nas árvores longas o desejo imenso, a manhã inteira, ter no pássaro livre a alma do deserto e o choro do campo, não me conhecer, não me ter nunca, virar o barco do mundo e socorrer me sem ar.
Vai valer pena deixar ir na estrada os caminhos que nos conduzem, os que não nos perdem, os que nos seguram, deixar fugir os fantasmas sem moldura, as esporas do domínio, a felicidade imensa, a dor aguda, os fascínios rebeldes e as ilusões inocentes.
Amanhecer só, longe, sem garras seguras, sem.
Sempre quis ser algo sem coisa alguma.
Vai valer pena deixar ir na estrada os caminhos que nos conduzem, os que não nos perdem, os que nos seguram, deixar fugir os fantasmas sem moldura, as esporas do domínio, a felicidade imensa, a dor aguda, os fascínios rebeldes e as ilusões inocentes.
Amanhecer só, longe, sem garras seguras, sem.
Sempre quis ser algo sem coisa alguma.
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