Já te perguntaste se és feliz, disse-me despretensiosamente, como se, sem interesse algum, me atira-se uma bomba de fumo, armada, explodida, dentro do meu próprio corpo que se perde no impacto, sem cair, sem explodir, imploding e absorvendo, Que pergunta, não se o consegue ser, decidi dizer sem qualquer desdém por mim próprio, sem ligar a toda a energia cinética que me enchia as veias de medo, Ser feliz é algo que não existe, está-se feliz, existem momentos felizes, acrescentei.
Sem um segundo de pausa recebo em mãos, Tu não és feliz só por dizer isso, não te deixas ser feliz, tens medo de o puder ser, parei no tempo, ou ele parou em mim não me apercebi da tonalidade desta passagem de tão rápida que foi.
Eu já fui meu, isto não é simples de explicar, mas ao me ver ao espelho sinto-me longe de mim, vejo um ser distante, um reflexo do nada que já fui, um caco ainda construído, embora me lembre sei que a perfeição não está ali, está um ser só, um tudo misto de confusão que se perdeu no tempo nos rasgos de cobardia que com ele vieram.
Algumas vezes a vida passa-nos pela porta das traseiras, não a vemos, deixamos passar, digo ao espelho, Não és o que espero, e peço a mim uma chance de começar de novo, de apagar as últimas estradas onde passei, e voltar a estar só no ponto de partida, sem medo da vida que me preenche, sem medo de construir no escuro, sem medo de mim próprio.
Voltei a olhar para as palavras que recebi, Já fui de mim, não o sou.
Perdido voltei ao espelho, pode ser que me encontre em mim.
Aqui diz-se quando ninguém deixa. Aqui manda-se vir sem os gajos ricos deixarem. Aqui fala-se... E fala-se... Por ser isso que nos mantém vivos
Balelas (ou não) da Rua
Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra
quinta-feira, 26 de setembro de 2019
segunda-feira, 9 de setembro de 2019
Quando te apetecer
Existem dias em que a respiração é mais pesada, onde aquele aperto que já não sentias te volta a abraçar, devagar, intenso, volto a ti e nunca é demasiado tempo. Por muito que se corra na estrada do tempo ainda te sinto aqui, ainda conheço o teu abraço sem toque, a tua mão na minha e, melhor, o teu silêncio a envolver o meu.
Liberta-me e deixa-me ir por aí. Não voltares é dares-me o vazio que preciso de não te ter, o espaço e vácuo para te conseguir sofrer e voltar a enchê-lo de saudade, de mim, não tua.
Pensava que era forte sabes, que ao longo da vida tinha conseguido erguer muros frágeis por aí, aqueles que nos guardam nas noites mais escuras, fortalezas de mim que me deixaram ficar só no meu silêncio, como eu devo estar.
Um dia disseste-me e até agora não me quis lembrar.
Tudo o que preciso está na minha terra, no meu ser, e por muito que me agarres sou eu que me seguro, eu que respiro, eu que sei onde posso ser.
Por isso, por mim, por tudo, quando me apetecer chorar, irei, sou apenas eu a ganhar um espaço para mim, em mim.
Liberta-me e deixa-me ir por aí. Não voltares é dares-me o vazio que preciso de não te ter, o espaço e vácuo para te conseguir sofrer e voltar a enchê-lo de saudade, de mim, não tua.
Pensava que era forte sabes, que ao longo da vida tinha conseguido erguer muros frágeis por aí, aqueles que nos guardam nas noites mais escuras, fortalezas de mim que me deixaram ficar só no meu silêncio, como eu devo estar.
Um dia disseste-me e até agora não me quis lembrar.
Tudo o que preciso está na minha terra, no meu ser, e por muito que me agarres sou eu que me seguro, eu que respiro, eu que sei onde posso ser.
Por isso, por mim, por tudo, quando me apetecer chorar, irei, sou apenas eu a ganhar um espaço para mim, em mim.
quarta-feira, 15 de maio de 2019
Escreve-me
Um dia, se o tempo te abraçar, escreve-me uma carta, nua, sem letras, deixa os teus lábios florear por lá até secar, transpira a alma para uma folha branca e deixa-a ir como havias feito, fácil e sem sentir, gritando do corpo o que já não sentes, a vida que deixaste escapar. Com a calma plácida dos gregos, flui como um rio pelos veios do papel, sente os sucalcos, flutua, faz-te chegar ao fim do tempo.
Não precisas de conversas, nem gestos, não te mostres, sei de cor o papel da tua mente, a roupa que trazes e o cheiro que deixas pelos campos, sei como danças e como perdes o equilíbrio ao trocares os tempos do tempo, aquele cambalear sôfrego e corajoso, lembro-me de quando bebes e tragas com os lábios secos a vida dos outros, ainda me lembro de bastante.
Escreve-me porque eu perdi a minha letra, deixa-a contigo um dia no tempo. Quando pensava que bastava ver no bolso roto do casaco, ultrapassando o frio da rua e a chuva de maio, não bastou, estava vazio como sempre esteve desde a última vez que me escrevi.
Agora sem letra, escreve-me e lembra-me de quem sou comigo. Depois parte novamente.
A tinta percorre-te. Eu deixo-me contigo e vou para o futuro.
Lá escrevemos com o corpo.
Não precisas de conversas, nem gestos, não te mostres, sei de cor o papel da tua mente, a roupa que trazes e o cheiro que deixas pelos campos, sei como danças e como perdes o equilíbrio ao trocares os tempos do tempo, aquele cambalear sôfrego e corajoso, lembro-me de quando bebes e tragas com os lábios secos a vida dos outros, ainda me lembro de bastante.
Escreve-me porque eu perdi a minha letra, deixa-a contigo um dia no tempo. Quando pensava que bastava ver no bolso roto do casaco, ultrapassando o frio da rua e a chuva de maio, não bastou, estava vazio como sempre esteve desde a última vez que me escrevi.
Agora sem letra, escreve-me e lembra-me de quem sou comigo. Depois parte novamente.
A tinta percorre-te. Eu deixo-me contigo e vou para o futuro.
Lá escrevemos com o corpo.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2018
Vamos e Ver
Vamos fugir para ver o mundo, longe, encharcarmos os nossos olhos com as planícies, desafiamo-los com as montanhas, crescer no abraço que fazemos às pequenas flores que timidamente crescem entre os rochedos, beijar com o corpo imenso os rios e as cascatas que nos lavam a alma. Gritar o barulho da água a chegar à mãe natureza. E o silêncio é quieto, é dificil de respirar com tanta liberdade no ar, com tantos sonhos no corpo e planicies na mente.
Vamos embora e ver o mundo, como crianças felizes que experimentam o primeiro gelado, sentem a primeira neve nos rostos rosados, a primeira onde, a descoberta da primeira vez do mundo, a esperança de termos o nosso próprio, individual. intransmissivel big bang e fazermos dele o nosso mundo, e crescer, o nosso mundo, e acreditar, no nosso mundo.
Vou embora e criar o meu pequeno mundo, só meu, tão nosso.
Até lá...
Vamos embora e ver o mundo, como crianças felizes que experimentam o primeiro gelado, sentem a primeira neve nos rostos rosados, a primeira onde, a descoberta da primeira vez do mundo, a esperança de termos o nosso próprio, individual. intransmissivel big bang e fazermos dele o nosso mundo, e crescer, o nosso mundo, e acreditar, no nosso mundo.
Vou embora e criar o meu pequeno mundo, só meu, tão nosso.
Até lá...
segunda-feira, 17 de dezembro de 2018
Acordar
...de dia...
Relaxa, suspira, estica-te, é a hora. O vento abranda, as luzes da rua acordam e devagar os mortos acordam com a música dos carros, a música sobe, o vento grita e sobe, tu acordas e vais, vais até ao fim do mundo, cantando, dizendo que é a vida, a tua, a única e complexa, redonda e mestica, sem caminho nem padrão, sem pontos ou vírgulas, na rua vês o sinais e as portas da frente vazias, os hotéis cheios de empresários perdidos, o comboio cheio de ar na mente de quem o mente viajar, onde irão, onde vais, segue não o sabes, acordar é isto, por nas pernas a energia necessária para ir sem destino, para deixar parado a inércia dos que sem ti correm melhor.
Relaxa, suspira, estica-te, é a hora. O vento abranda, as luzes da rua acordam e devagar os mortos acordam com a música dos carros, a música sobe, o vento grita e sobe, tu acordas e vais, vais até ao fim do mundo, cantando, dizendo que é a vida, a tua, a única e complexa, redonda e mestica, sem caminho nem padrão, sem pontos ou vírgulas, na rua vês o sinais e as portas da frente vazias, os hotéis cheios de empresários perdidos, o comboio cheio de ar na mente de quem o mente viajar, onde irão, onde vais, segue não o sabes, acordar é isto, por nas pernas a energia necessária para ir sem destino, para deixar parado a inércia dos que sem ti correm melhor.
Cidade, nevoeiro
A cidade enche-se de nevoeiro, ocultando em pequenos abraços a piedade das luzes que, devagar, se deixam embalar nele, plácidas, secas. E a noite cai na cidade, cedo, devagar. Uma a uma, as janelas despedem-se, acenando as horas até ao dia as vir beijar, devagar. O menino deita-se nos seus lençóis frios, baixinho, sozinho, dorme.
Recebe o medo, devagar, deixa-o vir contigo se deitar, cantar a última deixa do dia, baixinho, sussurrando, trazendo um pouco do nevoeiro com ele, um pequeno gosto da cidade. Não desvendes os dias, deixa as horas o encantarem, levarem para lá do horizonte onde o homem não vê, onde o tempo não sente, não deixes de sonhar.
Fecha os olhos e aperta as mãos ao peito num ligeiro sufoco, não tenhas medo, um dia na madrugada viras no reflexo do sol o rosto dourado de quem o olha, as mãos hirtas de quem o pega e a voz alta de quem traz o silêncio consigo, de quem dormiu com a companhia que não tem, com a gente que não traz.
Se um dia, na cidade, vires o nevoeiro, sorri, é apenas o medo a sonhar, a brincar aos países, deixa o embalar a cidade enquanto te embalas no medo. Não deixes de sonhar, a cidade é o mundo da luz que vem todas as madrugadas.
Recebe o medo, devagar, deixa-o vir contigo se deitar, cantar a última deixa do dia, baixinho, sussurrando, trazendo um pouco do nevoeiro com ele, um pequeno gosto da cidade. Não desvendes os dias, deixa as horas o encantarem, levarem para lá do horizonte onde o homem não vê, onde o tempo não sente, não deixes de sonhar.
Fecha os olhos e aperta as mãos ao peito num ligeiro sufoco, não tenhas medo, um dia na madrugada viras no reflexo do sol o rosto dourado de quem o olha, as mãos hirtas de quem o pega e a voz alta de quem traz o silêncio consigo, de quem dormiu com a companhia que não tem, com a gente que não traz.
Se um dia, na cidade, vires o nevoeiro, sorri, é apenas o medo a sonhar, a brincar aos países, deixa o embalar a cidade enquanto te embalas no medo. Não deixes de sonhar, a cidade é o mundo da luz que vem todas as madrugadas.
segunda-feira, 2 de julho de 2018
Ergue-te
Quebras como os silêncios, vivendo aquele instante triste num sufoco enormemente terreno, num labirinto sem saída, numa montanha sem fim. Montanhas... Erguem-se como os dias, hirtos perante o vento, fortes como os rios que abraçam nos seus veios, pujantes como as raízes das árvores que suportam, mil e uma vezes sem fim, mil e uma vezes sem princípio.
E tu...
O silêncio que trazes não é calado, é um suspiro dificil de suster, um bafo dificil de dar, um abraço que se teima em esconder... Montanhas que subsistem no tempo, sem barulho, sem gesto, sem medo de serem cada vez mais altas, sem orgulhos imensos ou terras completamente desbravadas, ficam, lutam, subsistem.
E tu...
Tudo o que precisamos é a esperança de um amanhã, de um dia mais claro, de um erguer mais fundo, mais forte, mais teu. Montanhas...
Tu ergues-te como o dia, como as montanhas, mil e uma vezes sem parar, sem suspirar, sem parar, sem medo, como todos os caminhos do mundo, como todos os horizontes sem fim, mil e uma vezes como nas histórias das crianças, nas fábulas elaboradas que tão sabes, com todos os sabores que conheces e todos os mais que ainda vais descobrir.
E tu... ergues-te como as montanhas que nunca se vergam.
E tu...
O silêncio que trazes não é calado, é um suspiro dificil de suster, um bafo dificil de dar, um abraço que se teima em esconder... Montanhas que subsistem no tempo, sem barulho, sem gesto, sem medo de serem cada vez mais altas, sem orgulhos imensos ou terras completamente desbravadas, ficam, lutam, subsistem.
E tu...
Tudo o que precisamos é a esperança de um amanhã, de um dia mais claro, de um erguer mais fundo, mais forte, mais teu. Montanhas...
Tu ergues-te como o dia, como as montanhas, mil e uma vezes sem parar, sem suspirar, sem parar, sem medo, como todos os caminhos do mundo, como todos os horizontes sem fim, mil e uma vezes como nas histórias das crianças, nas fábulas elaboradas que tão sabes, com todos os sabores que conheces e todos os mais que ainda vais descobrir.
E tu... ergues-te como as montanhas que nunca se vergam.
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