Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

domingo, 10 de março de 2013

Vai Valer a Pena


Partir na manhã, com o raiar do sol, ir para outras margens, começar de novo, eternamente novos, lúcidos, contando com os passos que nos tocam e os pássaros que nos ouvem, vai valer a pena.
Todas as lutas, todas as mossas, a sobrevivência ao fogo, o ter partido o vidro, o ter mudado a mesa e fechado a porta,
Pintar novas telas, com cores que conhecemos de sempre, esperando que pelas garras da manhã surjam novas formas dos fantasmas, sem as molduras que os carregam,
Perder o domínio da civilização e gritar ao vento que o fascínio da vida é longe dela,

Vai valer a pena, cada queda, cada toque de chão, cada golpe, cada fascínio,
Contar que o mundo é mais, mais longe, perder o esquecido e Ser

Ter o ontem para todos os amanhãs!

segunda-feira, 4 de março de 2013

Como quem conta uma história...

Na mesma rua só nos vemos porque a chuva passou, o tempo queima, o tempo passa, e eu não fico. Vejo-te ir, sabes que se vieres amanhã, tenho riscos de mais para ficar de quadro aqui para sempre, se ficares no mesmo deus, não há laços que se te fiquem que não os teus, devolve-me o que de mim te sobra, apenas isso e nada mais.
Andamos em voltas, na mesma rua, no mesmo tempo, há rastos demais na calçada. há corpos demais no teu, se quiseres voltar deixa-te ficar longe que aqui fica espaço para novos vintos que virão, devolve-me os laços que esses não encontro mais.

E o rio segue, um quanto indifirente ao que sonha um homem sem casa, que ao frio e à chuva subsiste sobrevive e segue, sem laços e sem tempo, Olha o sonho onde ficou, tão longe, tão perto, estivemos muito longe para o ver ao lado.
Sozinho, ao frio, só os sapatos tremem no chão, vibrando na alma daqueles que pouco mais têm.

Alto

Longe lá no alto, queria mais altas as estrelas, maior o tempo, mais criador quem me fez, o fogo mais quente e o mar mais revolto, mais azul, com mais cavernas, com mais beleza onde nos podéssemos perder, com almas mais abertas, mais montanhas e pássaros, mais sangue perdido nos caminhos da conquista.

Ainda mais alto, abrir os abraços, cair o vento na face, seda, sentir leve o tempo a queimar as ondas da minha pele, mais alto, mais alto que não cansa mais, não nos perdemos mais, não somos mais perto dos outros por queremos estar longe de nós.

Acaba a tarefa alto, um dia mais contente, serenamente como uma criança, em paz com a dor como quem dorme no berço uma criança perdida nas valas do sono.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Música

Como e que se mantém uma orquestra perfeita e em síncrona, durando o som ate cada eco, cedendo, cedendo, perdido para alguém e sem nunca perder o seu caminho. A música continua, nao perde a novidade, tem sempre uma palavra nova para nos dizer.... E como? Se estamos sempre a mudar, se o mundo nao nos deixa ser o mesmo, como sabemos que de ano para ano, sabemos que cedemos cada vez que ouvimos o nosso nome?
Sei que o vento que me corre no sangue me leva a ter mais movimento nos olhos que tentativas nos corpo. Se pudéssemos ficar para sempre os melhores, juntos, se tentássemos todos os dias, sermos melhores enquanto crescemos, podemos acreditar que na sorte, a música nunca acabaria, seguiria o seu caminho sem se perder.
Sei que agora é o momento de por os olhos no céu e ver para sempre a música a tocar. Podemos ser diferentes mas se tentarmos fazer melhor, nao nos perderemos no caminho e, com sorte, a música perdurara no tempo, será vida.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

'Não se pode morar nos olhos de um gato'

Enquanto nesta noite o meu reflexo ficar amarelo, nos olhos de um gato preto que segue na rua, como tantas outras espécies que circulam, não moro mais. Beija, arranha, queima, foge, circunda-te de espaço, serve-te, serve-me e brinca, queixa-te e coxeia pelo mundo que quem vive aqui, não mora jamais. Aleija e fere, foge e grita, desencante e desanda, neste espaço não nos chocamos mais.
Eu vou-me.
Eu vou para Longe, para o sítio donde partem os navios sem rumos e as velas sem vento, onde outrora as árvores foram verdes e o fogo flamejante, onde a chuva molha e o tempo passa, vou para aí. Quem sabe um dia não esteja lá mais, espanque a vida, alicie os deuses a irem além, ao tempo infinito, ao espaço inacabado, serem a natureza e respirarem, faz tão bem respirar longe, ser perto de nós mesmos e estarmos afastados do mundo.
Eu vou para Longe, onde não sou nada, porque não se pode morar nos olhos de um gato nem viver nos sonhos de uma pessoa.

Não se pode morar nos olhos de um gato. Não se pode chegar a sítios sem porto.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Piano Bar

Os dedos deslizam no xadrez mais rápido do que um jornalista e mais ritmado que um pintos, há segredos em cada tecla e sons em cada toque, circunda-se do piano a animação do costume. O velho que perdeu a inocência nos tempos da guerra e se lhe viu desprovido de vida nos tempos de quem já não manda, onde as roupas já ganham espaço e onde as rugas marcam cada bala que o percorreu. Ele pede um som calmo, que nos embale enquanto o tempo nos dá um pouco de si. O tipo do bar, amigo de todos, oferece uma rodada, sempre disponível para dar mais um copo ou acender um cigarro, Acredito em anjos e tu?, de certeza que ele podia ser uma grande estrela se antes de tudo acreditasse nos homens e no seu poder transformador. Aquela lá do fundo está sozinha, todas as noites, um whisky e um cigarro, um banco e um espaço, praticando políticas consigo mesma, apenas no silêncio. Raramente noto, balança a cadeira enquanto canto, entoando cada nota nos modos do seu corpo, entoando no seu ar aquilo que eu digo com notas, e dedos e teclas, nada mais artificial. Toco rápido. Alto. Canta algo, afinal estás ao piano e nesta noite precisamos de conseguir acordar com ela na memória de manhã. Os negócios passam na bebida, afinal todos a partilhamos. Nada como jazz a um sábado. Nada como partilhar com alguém que não se conhece, embora saibamos de cor, as evaporações do espírito e os suores do corpo. Embora este público seja bom, o gerente me sorria, e todos se tenham esquecido que lá fora a vida, está na hora de largar o fumo dos cigarros, agradecer ao piano e pensar onde vamos todos estar em mais uma temporada. Diz-nos algo maior, quem está no piano, temos todos a disposição para uma melodia, a última. À saída acordamos do tempo e entramos no mundo, sem pianos, sóbrios, prestes a lutar pela sobrevivência. E nada mais e no entanto nos chega para bastante.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Se alguém perguntar, sussura-me ao ouvido, o teu silêncio é tudo o que me apetece puvir no barulho do mundo, não consigo perceber mais, nem quero perceber mais, enquanto o mundo roda, enquanto as cidades se fazem e os muros do mundo caem, simplesmente não percebo o agora, o espaço que nos crcunda, as mesas onde nos sentamos à vez, as cadeiras que não nos cruzam e a cegueira que nos circunda, não consigo perceber mais.

Simplesmente, nada. Que significa uma fotografia se apenas uma existe para recordar... Diz-me o teu nome que eu digo o meu, atraves-te a tentar saltar se prometer que seguro, atraves-te a ir se pedir duas vezes...

Por uma noite dás-me o mundo, dançarias a chuva se a luz fosse dos dois, viverias duas vidas se uma não te bastasse, se parasse o tempo sorririas para sempre?

E se ainda restam dúvidas, se ainda nos quebra o tempo, posso escrever três vezes...

"  Nós sabíamos ali, por uma intuição que por certo não tínhamos, que este dolorido mundo onde seríamos dois, se existia, era para além da linha extrema onde as montanhas são hálitos de formas, e para além dessa não havia nada. E era por causa da contradição de saber isto que a nossa hora de ali era escura como urna caverna em terra de supersticiosos e o nosso senti-la era estranho como um perfil da cidade mourisca contra um céu de crepúsculo outonal...
Ali vivemos horas cheias de um outro sentirmo-las, horas de uma imperfeição vazia e tão perfeitas por isso, tão diagonais à certeza rectângula da vida... Horas imperiais depostas, horas vestidas de púrpura gasta, horas caídas nesse mundo de um outro mundo mais cheio do orgulho de ter mais desmanteladas angústias...
      E doía-nos gozar aquilo, doía-nos... Porque, apesar do que tinha de exílio calmo, toda essa paisagem nos sabia a sermos deste mundo, toda ela era húmida da pompa de um vago tédio, triste e enorme e perverso como a decadência de um império ignoto...
      Nas cortinas da nossa alcova a manhã é uma sombra de luz. Meus lábios, que eu sei que estão pálidos, sabem um ao outro a não quererem ter vida.
  A nossa vida era toda a vida.., Vivíamos horas impossíveis, cheias de sermos nós... E isto porque sabíamos, com toda a carne da nossa carne, que não éramos uma realidade...
      Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquer... Éramos aquela paisagem esfumada em consciência de si própria... E assim como ela era duas — de realidade que era, e ilusão — assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não ele próprio, se o incerto outro viveria...
      Quando emergíamos de repente ante o estagnar dos lagos sentíamo-nos a querer soluçar... Ali aquela paisagem tinha os olhos rasos de água, olhos parados, cheios do tédio inúmero de ser... Cheios, sim, do tédio de ser, de ter de ser qualquer coisa, realidade ou ilusão — e esse tédio tinha a sua pátria e a sua voz na mudez e no exílio dos lagos... E nós, caminhando sempre e sem o saber ou querer, parecia ainda assim que nos demorávamos à beira daqueles lagos, tanto de nós com eles ficava e morava, simbolizado e absorto...
      E que fresco e feliz horror o de não haver ali ninguém! Nem nós, que por ali íamos, ali estávamos... Porque nós não éramos ninguém. Nem mesmo éramos coisa alguma... Não tínhamos vida que a Morte precisasse para matar. Éramos tão ténues e rasteirinhos que o vento do decorrer nos deixara inúteis e a hora passava por nós acariciando-nos como uma brisa pelo cimo duma palmeira."
Bernardo Soares, O Livro do Desassossego