Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Torga

"—Mas porque não deixa você de escrever durante uma temporada, para descansar? — perguntava-me hoje alguém. — Porque era a mesma coisa que um crente deixar de rezar um mês ou dois, por higiene." Miguel Torga

Se nos quedássemos no mundo das ideias, onde os corpos so se corrompem por palavras, ficaríamos sempre longe da alma que nos afaga. Apenas na distancia imprecisa das modalidades impróprias nos pudemos, nos criaturas da carne, construir sacrilégios maiores para tempos diminutos, onde possamos deixar marcas tão grandes como silêncios e vastidões tão grandes como o vazio.
É isto que nos impulsiona, a sede dos homens que vivem segundos, não os dias, não os meses, mas cada segundo condensado na brisa das arvores, cada instante com o sabor adocicado do medo, intensamente tudo no pequeno intervalo dos instantes.
Com isto pergunto se te quero encontrar, sei que se me quiseres estarei longe daqui, perto do mar, onde todos os instantes são vida e todos os momentos solidão, nas aguas do mundo e na sede dos homens.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Em três tempos de céu

Apartam-me os olhos para longe, mais um dia que se perdeu, fecho o baralho e guardo-o no bolso, não quero ver que tudo é maior aqui quando estás, não quero ver o sol que transpira de chuva por todas as nuvens que me pairam, o tempo passa e eu fugi. Aqui está frio demais para mim. O tempo dos silêncios ficou longe, onde se guardam as pequenas memórias, numa pequena caixa de segredos guardada num sótão.
Não sei largar mas também não sei dizer mais. Rasga esta escuridão latente em mim, abre tudo o que é nosso e deixa brilhar.
Tudo o que é meu, não sei largar, não sei perder, quero continuar eternamente à chuva a jogar, lavado na água, transpirando dor, o último a cair não vai perder, o último a cair não vai sentir.
Aqui, longe, há um espaço enorme à tua espera, basta vires jogar.

Há um dia em que todos os homens lutam, em que se enchem de sangue nos olhos e se revoltam pela humanidade que se perdeu. Há nesse dia uma nova raça que se ergue, sabendo que perdeu no tempo toda a razão de existir, deixou na margem todas as formas de luar. É o tempo dos chacais, onde espreita na noite a maldade, a injúria e um nojo de tudo, apenas tudo, desta escravidão reles que nos prende às coisas sem passar. É o tempo da ameaça, onde os homens se fazem deuses ou poetas, deuses altivos, morbidamente cansados e estupidamente poderosos, poetas tristes, sós, pelas multidões apagadas esperando por uma luz que só deles pode vir.
Esta é a noite em que os homens se transformam.
Este é o futuro daqueles que não choram.

"Nós somos, existimos" em cada pequena gota que escorre pelo corrimão e em cada mão que procura outra, no momento em que o olhar se cruza e o coração bate mais forte, existimos, onde nas ruas criamos o silêncio das coisas e nas fontes a água que vem na nascente, existimos, pelos comboios que perdemos e risos que soltámos, nas violentas horas que nos perdemos e nos suspiros juntos que partilhámos, nós somos, existimos.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Movimento

Os carros andam, as pessoas correm para os seus afazeres, nada nesta cidade está parada há espera que aconteça mas igualmente ninguém faz nada para se fazer acontecer. Este movimento perpétuo de semblante triste e olhar machucado não é nada mais que um engano perene de utilidade, um milagre inútil dos que há aí em adivinhos e aspirações espirituais, de nada nos serve mover senão o fizermos para o lado certo.
Deixemos os cães ladrarem aos parados da vida. Rotos e sujos, poeirentos de teias por estarem demasiado tempo à espera de terem tempo ou de simplesmente alcançarem mais que o sonho, além do espectro iluminado. Eles que se fiquem no barulho, nós vamos continuar. Parnaciosos e cientes que quem nos ladra se mexe sem criar, se cria sem fazer e, pior, vive sem sonhar e dorme para continuar.
Aqui vive-se de sonhos, uns inúteis, outros utópicos, mas eternamente patentes no olhar de quem vê.
Aqui dorme-se com sonhos, abraçando e contornando cada corpo sonhado numa elegia sangrenta de sorrisos macabros, não maliciosos, de gozar nos momentos a eternidade das vidas dos outros.
O nosso movimento é controlado, não pelo mundo mas pelo sonho.

O nosso movimento não é maior, simplesmente é nosso e tem tanta mais sede do que aqueles que não bebem.

sábado, 12 de outubro de 2013

Não Há


Não há respostas certas nem momentos planeados, planear é falhar à partida no que se quer acertar no fim, ter no papel ou na mente o que se quer é perder tempo sem se fazer o que se deseja. Acabar feliz?, quem quer de todo acabar por si só, ir, ao poucos, perdendo a desumanidade que nos resta pelos cantos ocultos dos sonhos não realizados e, com o tempo, somar verdade a nós, não anos, não momentos, por si só verdades, pequenos traços de rostos que nos ficam e outros tantos que se apagam, sem qualquer resquício mesquinho ou trama maior na alma, apenas a verdade, per si, apenas marcas e não grandes sonhos ou elevações supersticiosas. Podemos todos acabar bem, só espero não acabar de todo. Ter sempre no novo dia a esperança de ser, não feliz, não triste, não sentimental e muito menos saudosista, negar todo e qualquer sentimento num cuspo matinal e ignorar pelos dias os momentos, ser pelas ruas o que for, sem nada mais, cegar ao termo do dia sem medo de me findar pois continua na noite as alvoradas que não vieram na manhã.
Não há percursos certos, conheço apenas os errados e desses muitas são as vezes que lá esgueiramos os cheiros e semeamos tempo, neles ganhamos a loucura eventual, quiçá condutora do percurso a casa, quiçá a perdição natural que nos afasta nos animais e nos aproxima dos bichos selvagens que dizemos não ser.
Da civilização a palavra, a ela o ser.
Não haverão respostas certas, nem sei se respostas, apenas dias, só momentos e desses saboreio-os todos como uma criança saboreia um chocolate, calma, percamos no tempo o que ganhámos na alma.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Sorrir Sem Sentido

O sorriso é sem sentido e não por isso menos útil, não é por si menos genuíno. Se sobrasse em instâncias metafísicas o que de genuíno se pauta num sorriso sem sentido, subjaria na imensidão do conhecimento o bom-senso básico da idiotice, da ausência absurda de razão nas pequenas maravilhas mundanas. Não existe força física ou teoria biológica que alicerce a magnificência do movimento muscular involuntário  seguido de um brilho estrelar nos olhos, não são estrelas, sei, mas luzem de tal forma que é como se de estrelas se tratasse.
Não são bichos que nos invadem o cérebro e muitos menos a inteligência fugaz do momento, simplesmente nutre-se um desejo de sorrir, sem sentido, sem razão, sem causa, porque dos sorrisos mais puros nascem pequenos rastos de felicidade.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Civilização

A cidade tem pântanos que não se vêem, em algumas esquinas onde pautam cafés residem fumacentas pessoas, Não obrigado, passe bem, e pela distância tecemos obsessivamente a necessidade de estar só, desligar o carro e correr descalço, viver do ar que temos e faltar à vida, transcendendo tudo e todos, a senhora do café e o rapaz da portagem, não preciso deles. O rapaz amarelo e desgrenhado estende a mão e convida a sair, a ir para longe, rápido e doente, nas nossas maneiras desligamos o motor do carro, os criados tornam-se indisciplinados.
Viver na cidade é ter-se pautado na miséria da mente os versículos viscosos e ardilentos que deus ou alguém aqui perdeu, esboçou neste pântano as maiores idiossincrasias, não viveriam em outro lugar, vendo este espectáculo há que agradecer quando estamos sós e na distância dos outros, faltando à vida dos outros, é cumprida na nossa o desejo de ser sede.

Cacos

Parti o vidro, sim, quem esperava que alguém que se pauta pela calma da vida e a pureza das cosias fosse capaz de, num gesto rápido e nada trémulo, segurar o punho com a exactidão cirúrgica dos que padecem de experiência em actos violentos, e usurpar das leis da física atentando contra  vidro neste único e simples movimento. Um arco exacto, exímio, descrevendo no fim um vector alinhado com o mundo, indo de encontro ao centro do espelho onde me via. Não me via, não podia ser eu aquele vegetal morto sem cor, uma mera sombra do que um dia tinha sido o sorrir, não sei o que se reflectia ali, só espero não ser eu.
Chegando ao êxtase do momento senti o quebrar, aquele barulho trémulo e balbuciante que se propaga num infinito contemplante, com a queda dos cacos de forma rápida e desgovernada vi nasce o sangue no meu punho, distante dos olhos e de todo o meu corpo. Não tinha corpo naquele momento, via-me na distância, ou não me via de todo.
Não sei que se passou, se tive neste instante toda a vida que tinha concentrada num gesto ou se nesse mesmo gesto perdi toda a vida que tinha até ali, continuava a sangrar, se a minha existência nesta noite se deixa definir pela loucura que me assombra e me faz vislumbrar os cacos no chão como um total esforço, um completo trabalho, ou apenas pelo sangue que misturado com as lágrimas beijando o chão aos salpicos, translúcidas nos pequenos espelhos que criei.
O resultado de partir a imagem é que agora, os meus dois olhos vermelhos se deslumbraram com mil cópias suas em todos os pequenos cantos sujos deste espaço. Não quero olhar, não me posso ver, hoje a noite é minha e a escuridão a voz com que falo.