Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Estrelas

 Se conseguisse abrir este corpo, da forma mais fria, com a faca mais cortante, olhasse por cada entranha e te procurasse, estarias nas veias que fazem o coração bater. A minha alma flui e voa pelo universo, percorrendo o espaço exíguo do vazio, pagando as minhas dívidas com o universo. Não sei de que é feito, sei que voa, estala no céu e não me sabe sentir, não se sabe sentir, sei que quer tentar voar e debruçar-se dos mares do céu mas não sabe sentir. Não significa que não sinta, que não se arrepie na pele perante o vazio do universo, que não se cale de medo ou fale de arrependimento. Falta-lhe o saber, saber de que é feita, o que significa o silêncio, o toque da voz, a ignorância infantil de dizer o que se quer.

Um dia saberá que é feita da poeira das estrelas, bastando para si saber isso. Tudo o resto é ruído do mundo esperando ter significado para quem o faz.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Frio

 Abro a janela para ver o pálido branco que a abraça, esgueirando-se do sol frio que se reflete na calçada. É janeiro, é frio e tenho apenas o silêncio da madeira do chão comigo, articulando nos pés gelados o bater das ondas das marés que fazemos ao deambular por esta espaço nu, selvagem e sem árvores maiores. A janela branca continua a salvar-me de ver a rua, oculta dela o meu semblante cansado e oco, é, neste momento um balão de oxigénio ao não permitir que mais ar entre neste espaço, neste corpo. Ao canto, a cama de ferros preta, destapada, nua, continua a agarrar-se às mesmas madeiras do chão que calco com os pés feridos do frio. A energia que tenho traz-me de volta a ela e ao seu colo. Nada do que lá fora se passa me chama, a não ser a branca janela que me salva de ver a rua e o meu próprio reflexo. Tapo o espelho do canto. Apago a pequena luz rebelde que se encedeia à beira do ferro preto da cama despida. O escuro abraça o silêncio e vem-me dar um ténue beijo no gesto, sabe que é a nossa hora.

O tempo é de frio, a janela é do gelo e eu, iceberg morto, continuo a rolar pelos tacos de madeira à procura da profundidade certa para me afundar. Escolho o taco mais frio, virado para a janela que não me reflete e sento-me despido de mim e dos outros. Quando a lança de frio que repousa no chão me agarra com força e uma última lágrima desce as colinas do meu rosto eu paro.

Aceito que o maior frio é o que trago comigo na almae todo o gelo do mundo se derrete ao mirá-lo.


terça-feira, 2 de agosto de 2022

Corpo

 Chego a casa, dispo-me, deixo as roupas largadas de suor frio pelos cantos mortos desta casa vazia, enche-se de mim com o muito vazio que trago dentro. Deixo passar a mão fria pelo braço, deslizando calmamente, sentindo cada espinho roçando, cada cicatriz marcada. Desliza, perdi-me, não sei qual o caminho até ao fim desta minha estrada. 

Deixei-me lá fora, no meio das multidões que não encaro, embora olhe, deixei-me lá fora no barulho da cidade e, cá dentro, sou eu, estou despedido dos outros. Passo pelo espelho e não o olho, só me vejo na distância longa entre o que sou e o que devia ser. 

Silêncio enche-me uma vez mais, a cabeça pesa, o corpo descai marcando a parede de pequenas gotas de solidão, perdi-me, e deixei-me ir com a gravidade, atingindo o chão num calmo silêncio, ensurdecedor a todo o restante que me abraça.

Aperto-me uma vez mais, agarro-me uma vez mais, atiro-me uma vez mais, arranho o ar uma vez mais.

Perdi-me lá fora. Aqui sou eu, perdido dos outros, a encontrar-me no silêncio do meu corpo, nos gritos da minha voz muda.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Era teu

Já te perguntaste se és feliz, disse-me despretensiosamente, como se, sem interesse algum, me atira-se uma bomba de fumo, armada, explodida, dentro do meu próprio corpo que se perde no impacto, sem cair, sem explodir, imploding e absorvendo, Que pergunta, não se o consegue ser, decidi dizer sem qualquer desdém por mim próprio, sem ligar a toda a energia cinética que me enchia as veias de medo, Ser feliz é algo que não existe, está-se feliz, existem momentos felizes, acrescentei.
Sem um segundo de pausa recebo em mãos, Tu não és feliz só por dizer isso, não te deixas ser feliz, tens medo de o puder ser, parei no tempo, ou ele parou em mim não me apercebi da tonalidade desta passagem de tão rápida que foi.
Eu já fui meu, isto não é simples de explicar, mas ao me ver ao espelho sinto-me longe de mim, vejo um ser distante, um reflexo do nada que já fui, um caco ainda construído, embora me lembre sei que a perfeição não está ali, está um ser só, um tudo misto de confusão que se perdeu no tempo nos rasgos de cobardia que com ele vieram.
Algumas vezes a vida passa-nos pela porta das traseiras, não a vemos, deixamos passar, digo ao espelho, Não és o que espero, e peço a mim uma chance de começar de novo, de apagar as últimas estradas onde passei, e voltar a estar só no ponto de partida, sem medo da vida que me preenche, sem medo de construir no escuro, sem medo de mim próprio.
Voltei a olhar para as palavras que recebi, Já fui de mim, não o sou.
Perdido voltei ao espelho, pode ser que me encontre em mim.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Quando te apetecer

Existem dias em que a respiração é mais pesada, onde aquele aperto que já não sentias te volta a abraçar, devagar, intenso, volto a ti e nunca é demasiado tempo. Por muito que se corra na estrada do tempo ainda te sinto aqui, ainda conheço o teu abraço sem toque, a tua mão na minha e, melhor, o teu silêncio a envolver o meu.

Liberta-me e deixa-me ir por aí. Não voltares é dares-me o vazio que preciso de não te ter, o espaço e vácuo para te conseguir sofrer e voltar a enchê-lo de saudade, de mim, não tua.

Pensava que era forte sabes, que ao longo da vida tinha conseguido erguer muros frágeis por aí, aqueles que nos guardam nas noites mais escuras, fortalezas de mim que me deixaram ficar só no meu silêncio, como eu devo estar.

Um dia disseste-me e até agora não me quis lembrar.

Tudo o que preciso está na minha terra, no meu ser, e por muito que me agarres sou eu que me seguro, eu que respiro, eu que sei onde posso ser.

Por isso, por mim, por tudo, quando me apetecer chorar, irei, sou apenas eu a ganhar um espaço para mim, em mim.


quarta-feira, 15 de maio de 2019

Escreve-me

Um dia, se o tempo te abraçar, escreve-me uma carta, nua, sem letras, deixa os teus lábios florear por lá até secar, transpira a alma para uma folha branca e deixa-a ir como havias feito, fácil e sem sentir, gritando do corpo o que já não sentes, a vida que deixaste escapar. Com a calma plácida dos gregos, flui como um rio pelos veios do papel, sente os sucalcos, flutua, faz-te chegar ao fim do tempo.

Não precisas de conversas, nem gestos, não te mostres, sei de cor o papel da tua mente, a roupa que trazes e o cheiro que deixas pelos campos, sei como danças e como perdes o equilíbrio ao trocares os tempos do tempo, aquele cambalear sôfrego e corajoso, lembro-me de quando bebes e tragas com os lábios secos a vida dos outros, ainda me lembro de bastante.

Escreve-me porque eu perdi a minha letra, deixa-a contigo um dia no tempo. Quando pensava que bastava ver no bolso roto do casaco, ultrapassando o frio da rua e a chuva de maio, não bastou, estava vazio como sempre esteve desde a última vez que me escrevi.

Agora sem letra, escreve-me e lembra-me de quem sou comigo. Depois parte novamente.

A tinta percorre-te. Eu deixo-me contigo e vou para o futuro.
Lá escrevemos com o corpo.


sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Vamos e Ver

Vamos fugir para ver o mundo, longe, encharcarmos os nossos olhos com as planícies, desafiamo-los com as montanhas, crescer no abraço que fazemos às pequenas flores que timidamente crescem entre os rochedos, beijar com o corpo imenso os rios e as cascatas que nos lavam a alma. Gritar o barulho da água a chegar à mãe natureza. E o silêncio é quieto, é dificil de respirar com tanta liberdade no ar, com tantos sonhos no corpo e planicies na mente.

Vamos embora e ver o mundo, como crianças felizes que experimentam o primeiro gelado, sentem a primeira neve nos rostos rosados, a primeira onde, a descoberta da primeira vez do mundo, a esperança de termos o nosso próprio, individual. intransmissivel big bang e fazermos dele o nosso mundo, e crescer, o nosso mundo, e acreditar, no nosso mundo.

Vou embora e criar o meu pequeno mundo, só meu, tão nosso.

Até lá...