Algures longe de tudo reside um pequeno boneco de porcelana, em terras onde o sol brilha, onde o mar nasce perto e reside connosco pelos caminhos obtusos dos campos virgens e verdes, recheados de árvores e singelos bancos silenciosos onde residem pensadores de alma e filósofos do corpo. Longe de tudo há um imenso vazio de gente e uma multidão rouca e ouvidos surdos à nossa voz, aqueles cuja boca desenhada pelo contorno liso de um pincel se residem à lingua de Pessoa, aos gestos de Eça e ao criticismo amargo de Sena, a saudade do mar de Sophia, o revolucionismo esfuzeante de Ary e a rouquidão crítica de quem na chuva faz perólas sem água de Mourão-Ferreira.
De luzes e ouro se murmuram países, não deixemos a sorte com as audazes nem o silêncio para as almas penadas. Pergunta o pequeno boneco se de longe cair, alguém de perto o apanhará, com mãos suaves como aquelas que o fizeram a rir, as que contornaram um pequeno chapéu azul na sua cabeça, as mesmas mãos que lhe afagaram as lágrimas na noite.
A noite vem e traz consigo a escuridão de breu e todos os monstrengos que residem em cada um, nos resquícios de cada alma, escondido por entre portas, um figurão negro, alto, espantoso, sem uma réstea de luz ou uma imaginação dócil, sem um bom trato ou um coração saudoso. Importa esquecer, trata de lembrar que há-de passar, passar o tempo sobreerguido no vento, vendo as aves de longe, sem parar, tentar matar com porquês o que sobre de confiança, A noite é vil. Por ela, ficarás com a chuva dos dias e o frio dos desertos, com os buracos no mundo e os poços de terror, em todas as prisões mais negras, sem saber de quem, sem saber onde, sem saber, só.
Numa noite de chuva que não nesta, num país que não este, o pequeno boneco subiu à sua janela, viu uma lua tapada de lágrimas, chorando para a relva encharcada e de tez triste, rebaixada com o tempo, ele não chorou, chorar não sabe, escutou o silêncio, sentiu-se sombra de todas as sombras e uma pequena mão tocou-lhe no ombro e eternamente se viu caindo, sem nunca tocar o chão, sem nunca findar a noite, suspenso de tudo.
Viver é tão mais que estar e tão pouco lhe chega respirar.
Pudéssemos quedar juntos no mundo e ele seria a nossa casa.
Aqui diz-se quando ninguém deixa. Aqui manda-se vir sem os gajos ricos deixarem. Aqui fala-se... E fala-se... Por ser isso que nos mantém vivos
Balelas (ou não) da Rua
Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra
quarta-feira, 3 de julho de 2013
domingo, 30 de junho de 2013
Distância
Enquanto o vento bate forte nos olhos, lavados em lágrimas, onde o tempo passa lento, rasgado como um ventre novo, sentimos aquele arrepio que só se sente longe, que só se sente ausente, que só se sente só. Podemos estar longe no tempo quando perdemos o momento de tornar eterna a vida num segundo. Podemos estar longe na distância, sabendo que as nossas lágrimas são uníssonas com as de quem nos quer. Perdemos a casa porque somos do mundo e ele não nos chega por ser grande demais, e ele não nos basta porque não o podemos agarrar, sentir, abraçar, tornar nosso aquele corpo, possuir de afectos até cessar o tempo.
Com um pouco de engenho podemos inventar formas de queimar a chama da saudade, latente, até que de novo nos vejamos.
Porque só quero que se retorne na memória que vos quero bem, que vos gosto, muito, sempre, meus.
Te voglio bene assai
Ma tanto tanto bene sai
Fica no sangue o peso de ser português e de não estar em casa em sítio algum que não o nosso, com quem queremos bem, com quem nos quer bem.
Com um pouco de engenho podemos inventar formas de queimar a chama da saudade, latente, até que de novo nos vejamos.
Porque só quero que se retorne na memória que vos quero bem, que vos gosto, muito, sempre, meus.
Te voglio bene assai
Ma tanto tanto bene sai
Fica no sangue o peso de ser português e de não estar em casa em sítio algum que não o nosso, com quem queremos bem, com quem nos quer bem.
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Um Chapéu à Chuva
Por baixo da chuva, cabisbaixos com o medíocore receio de nos molharmos, como gente civilizada e enxuta, seca por completo, num misto sem sabor de ataraxia pura, um suspenso oco, quiçá delirante, que nos impela para a frente, sem sentido, sem vagar, sem força. Não temos casa. Não temos gente. Não temos mais nada senão a chuva que nos reveste de vazio, que rompe a solidão com o mundo e nos afasta dos demais.
Em círculos estritos, ando pelo passeio, à espera que um chapéu se cruze com o meu, não mais que isso, um simples desejo infantil de ver desenhado um sorriso em cada um dos chapéus, um lapso futurista de sentir neles a alma de quem os carrega. Um sorri com a força do sucesso, enumerando vértices vertiginosos de pura pujança, uma verdadeira luz sobre o céu negro e as luzes foscas. Outro produz lágrimas a um ritmo superior ao da chuva, triste, vazio, perdeu-se no sentido da sua existência, poderá um chapéu de chuva ter a eternidade do vento?, Serei eu um pequeno gesto no meio de tantos mais, sirvo para salvar da chuva, não rio, não paro, não vejo o sol, não sinto a terra molhada enquanto chove, nunca conseguirei sentir o cheiro das mãos sujas na terra molhada enquanto chove, não poderei nunca ter em mim a sensação de sentir mais que isto.
E uma lágrima caiu, não era chuva, eu senti o peso daquela lágrima a escorrer lentamente pelo azul campestre daquele chapéu, carregando de peso cada haste por onde passava, circundando os pequenos rastos de chuva que furiosos tentavam penetrar do manto de salvamento, eu senti, e talvez por ter sentido, despertei da inércia incandescente que me possuía desde os primórdios, reacendeu-se em mim aquele ardente desejo de gritar, de quebrar a civilização, de romper com os preceitos franzinos que nos prendem às garras da não-loucura. Não partir pratos, não levantar a voz, sorrir educadamente às pessoas que passam, não disparar alarmes sem ver o incêndio ao alto, ser civilizado de gravata, E outra lágrima caiu, de sentar à mesa e usar talheres colocados a três quartos, usar fato, não quebrar silêncios nem ousar sentimentos.
A chuva pesou ainda mais pois naquele momento soube que ela não era quem me prendia ao chão, apenas eu consigo deixar no chão os sonhos, enquanto cabisbaixo espero que alguém os levante por mim, apenas eu posso prender no cimento a alma do presente, caindo no esquecimento mórbido de um futuro em sargaço. Do chapéu pendeu uma terceira lágrima, a última...
Do meio da gente endurecida, baixei o chapéu, senti então em mim a vida toda do mundo, os calafrios da realidade por cada poro da minha pele, um cataclismo desassossegado que me tornou gente, Corri.
Empurrei gente, gritei ao vento que era Livre, saudei gente que queria ser saudade, não mais, tirei a gravata num sopro de movimentos cambaleantes mas hirtos, corri para a terra.
Deitei-me e coloquei o chapéu aberto deitado comigo e os dois ficamos ali, presenteados de chuva, sentindo a realidade toda na terra que nos sustém,
e com o olhar no céu sabemos que nele residirá sempre o futuro que nos resta, infinito.
Em círculos estritos, ando pelo passeio, à espera que um chapéu se cruze com o meu, não mais que isso, um simples desejo infantil de ver desenhado um sorriso em cada um dos chapéus, um lapso futurista de sentir neles a alma de quem os carrega. Um sorri com a força do sucesso, enumerando vértices vertiginosos de pura pujança, uma verdadeira luz sobre o céu negro e as luzes foscas. Outro produz lágrimas a um ritmo superior ao da chuva, triste, vazio, perdeu-se no sentido da sua existência, poderá um chapéu de chuva ter a eternidade do vento?, Serei eu um pequeno gesto no meio de tantos mais, sirvo para salvar da chuva, não rio, não paro, não vejo o sol, não sinto a terra molhada enquanto chove, nunca conseguirei sentir o cheiro das mãos sujas na terra molhada enquanto chove, não poderei nunca ter em mim a sensação de sentir mais que isto.
E uma lágrima caiu, não era chuva, eu senti o peso daquela lágrima a escorrer lentamente pelo azul campestre daquele chapéu, carregando de peso cada haste por onde passava, circundando os pequenos rastos de chuva que furiosos tentavam penetrar do manto de salvamento, eu senti, e talvez por ter sentido, despertei da inércia incandescente que me possuía desde os primórdios, reacendeu-se em mim aquele ardente desejo de gritar, de quebrar a civilização, de romper com os preceitos franzinos que nos prendem às garras da não-loucura. Não partir pratos, não levantar a voz, sorrir educadamente às pessoas que passam, não disparar alarmes sem ver o incêndio ao alto, ser civilizado de gravata, E outra lágrima caiu, de sentar à mesa e usar talheres colocados a três quartos, usar fato, não quebrar silêncios nem ousar sentimentos.
A chuva pesou ainda mais pois naquele momento soube que ela não era quem me prendia ao chão, apenas eu consigo deixar no chão os sonhos, enquanto cabisbaixo espero que alguém os levante por mim, apenas eu posso prender no cimento a alma do presente, caindo no esquecimento mórbido de um futuro em sargaço. Do chapéu pendeu uma terceira lágrima, a última...
Do meio da gente endurecida, baixei o chapéu, senti então em mim a vida toda do mundo, os calafrios da realidade por cada poro da minha pele, um cataclismo desassossegado que me tornou gente, Corri.
Empurrei gente, gritei ao vento que era Livre, saudei gente que queria ser saudade, não mais, tirei a gravata num sopro de movimentos cambaleantes mas hirtos, corri para a terra.
Deitei-me e coloquei o chapéu aberto deitado comigo e os dois ficamos ali, presenteados de chuva, sentindo a realidade toda na terra que nos sustém,
e com o olhar no céu sabemos que nele residirá sempre o futuro que nos resta, infinito.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Kyrie
Ao alto o som das preces, em coro, em uníssono, um tanto de cor que transparece pelos vitrais e os inunda de uma tez escarlate, semblante triste, e olhos no chão, alguns, aqueles que se ajoelham, largam uma pequena lagrima no regaço do povo, um pouco de sal à terra que outrora alguém edificou.
O pouco que se percebe é que não somos nada, pequenos restos do tempo, pequenos vasos ao sabor do vento, uma gota perdida no oceano, um pássaro entre tantos outros iguais.
A forca da voz não alcança o céu e poucos são os terrenos que a ouvem.
À nossa condição nos queda perder os lábios na voz e os olhos no vento, esperando algum dia ver além daquilo que se olha, poder ser alguém que fica na memória, que eternamente nos queiremos bem, que saudosamente nos despeçamos afincadamente.
O pouco que se percebe é que não somos nada, pequenos restos do tempo, pequenos vasos ao sabor do vento, uma gota perdida no oceano, um pássaro entre tantos outros iguais.
A forca da voz não alcança o céu e poucos são os terrenos que a ouvem.
À nossa condição nos queda perder os lábios na voz e os olhos no vento, esperando algum dia ver além daquilo que se olha, poder ser alguém que fica na memória, que eternamente nos queiremos bem, que saudosamente nos despeçamos afincadamente.
domingo, 26 de maio de 2013
Longe de fora
Cai neve neste verão.
Nao estou na minha rua, muito menos no pais que me viu abrir os olhos, as viagens trazem para nos a saudade que nao sabíamos que existia. Nova Iorque enche me de saudosismo, falta nestas ruas rectilíneas e prédios beija-céu o ar tosco e latino que fechei em Lisboa, pelo menos naquilo que me sobra na memória. Fechei uma porta e deus nao me abriu já ela nenhuma e fez questão de desligar as luzes.
O sobretudo pesa, sacudo a neve e ponho as mãos nos bolsos, nao me segue ninguém embora saiba que a manada de gente que me circunda me olha com desprezo, sente no ar um leve toque Atlântico que aqui nao subsiste. Faz me falta Lisboa e tudo o que com ela vem, os gritos nas ruas, as crianças a saltar, a calcada a calcar as solas dos sapatos, onde muitas vezes um leve deslize servia de motivo para te agarrar no braço e com ar inocente disse, Desculpa escorreguei, sabias tanto como eu que senão fosse o acaso da vontade, teria escorregado de propósito.
Depois de um whisky num pequeno bar escondido num beco potrido, sigo ao hotel. Não há sono esta noite, não vejo estrelas para me entreter. Apenas um vazio, escuro, só, e comigo estava o céu cheio de nada e eu de nada cheio.
Nao estou na minha rua, muito menos no pais que me viu abrir os olhos, as viagens trazem para nos a saudade que nao sabíamos que existia. Nova Iorque enche me de saudosismo, falta nestas ruas rectilíneas e prédios beija-céu o ar tosco e latino que fechei em Lisboa, pelo menos naquilo que me sobra na memória. Fechei uma porta e deus nao me abriu já ela nenhuma e fez questão de desligar as luzes.
O sobretudo pesa, sacudo a neve e ponho as mãos nos bolsos, nao me segue ninguém embora saiba que a manada de gente que me circunda me olha com desprezo, sente no ar um leve toque Atlântico que aqui nao subsiste. Faz me falta Lisboa e tudo o que com ela vem, os gritos nas ruas, as crianças a saltar, a calcada a calcar as solas dos sapatos, onde muitas vezes um leve deslize servia de motivo para te agarrar no braço e com ar inocente disse, Desculpa escorreguei, sabias tanto como eu que senão fosse o acaso da vontade, teria escorregado de propósito.
Depois de um whisky num pequeno bar escondido num beco potrido, sigo ao hotel. Não há sono esta noite, não vejo estrelas para me entreter. Apenas um vazio, escuro, só, e comigo estava o céu cheio de nada e eu de nada cheio.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Um dia a um metro do chão
O sol jazia nos rostos húmidos dos que vieram à praça naquela tarde, suado o chão castanho, de pedra miúda calcada pelo peso do povo, nas ruas daquele tempo, o pouco vento que soprava não levantava o pó que dormia sobre os gentis cabelos daquela gente suja. Os tempos eram outros ou somente os rostos que neles habitavam.
Subo ao palco. Calmo, hirto mas trémulo, como uma opereta italiana, com a confiança necessária para saber que quando a senhora gorda cantar, a cortina baixa e os meus olhos se restaram com o escarlate do povo, ausentes, suspensos na idade, até ao fim do suspiro, do último bafo quente.
Comigo seguem dois outros, altos e cheios, bem vestidos o suficiente para me puderem acompanhar, sim eu que estava descalço, pobre, com a roupa lavada de tempo e pó, sem um pouco de rosto menos moreno, o sol não me fez sombra em altura alguma, mas sim, é tempo de começar.
Soam os tambores, Te quero bem, mas tanto, tanto que te quero bem, é uma dor funda, que em sangue sabe que te quero bem, até ao fim, até ao fim te quero bem, Sabes, que te quero bem?. O senhor do lado deita a sua deixa, Silêncio, e em tom abundante o povo aplaude de pé, porque sentado não estava.
Eu salto.Respiro.
Rompo a gravidade fico a um metro do chão, suspenso pelas cordas do tempo, para sempre assim, com um pouco de sal nos olhos e uma vida nos lábios, Sabes que te quero bem, e nesse dia um rosto pequeno não sorriu no meio do povo pois esse rosto sabia que os pés nunca mais chegariam ao chão e como eles aqueles lábios vivos não tornariam à infantil face daquele orfão que ali se fez. Vivam aqueles que o tempo não cala.
Subo ao palco. Calmo, hirto mas trémulo, como uma opereta italiana, com a confiança necessária para saber que quando a senhora gorda cantar, a cortina baixa e os meus olhos se restaram com o escarlate do povo, ausentes, suspensos na idade, até ao fim do suspiro, do último bafo quente.
Comigo seguem dois outros, altos e cheios, bem vestidos o suficiente para me puderem acompanhar, sim eu que estava descalço, pobre, com a roupa lavada de tempo e pó, sem um pouco de rosto menos moreno, o sol não me fez sombra em altura alguma, mas sim, é tempo de começar.
Soam os tambores, Te quero bem, mas tanto, tanto que te quero bem, é uma dor funda, que em sangue sabe que te quero bem, até ao fim, até ao fim te quero bem, Sabes, que te quero bem?. O senhor do lado deita a sua deixa, Silêncio, e em tom abundante o povo aplaude de pé, porque sentado não estava.
Eu salto.Respiro.
Rompo a gravidade fico a um metro do chão, suspenso pelas cordas do tempo, para sempre assim, com um pouco de sal nos olhos e uma vida nos lábios, Sabes que te quero bem, e nesse dia um rosto pequeno não sorriu no meio do povo pois esse rosto sabia que os pés nunca mais chegariam ao chão e como eles aqueles lábios vivos não tornariam à infantil face daquele orfão que ali se fez. Vivam aqueles que o tempo não cala.
domingo, 19 de maio de 2013
Não sentir o Ar
Perdemos o chão num segundo, quando colocamos os dois pés levemente assentes no chão, experimentando as suas particulares rugas e os seus leves contornos, esvoaçamos os braços para encontrar alguém que efectivamente já lá não está mais. Caímos ou ficamos inertemente suspensos num gap temporal que nos faz levitar, perdidos no sentimento instantâneo que nos faz rodopiar o tempo e perder o espaço a nossa volta. Tudo se contorce á nossa volta, giram imagem, tocam nos cheiros e a leveza da memória sai nos de repente e sem pedir. Num lapso cai a primeira lagrima e deis outra e com essas a leveza da magoa faz levitar as defesas e deixa ofender sob a chuva o caminho percorrido pela dor nas ruas da gravidade. Somos tão pouco no mundo que ninguém nos faz existência.
Quando vamos na rua não somos gente. Perdemos a inocência de esperar que tudo dure para sempre, que permaneçamos inertes, estáveis e duráveis nas curvas da rua e no caminho das estradas, por todos os por do sol possíveis e deslumbrando todos os ciclos intermináveis da natureza. Mas não, mas nunca, não sempre...
Quando vamos na rua não somos homens. Perdemos a forca de nos olharmos de frente com medo que os olhos tocam os que as palavras temem em enfrentar, com receio que a alma ceda num corpo já cedido à magoa das horas.
Quando vemos o tempo não somos inocentes. Quando vemos os olhos fechar, um rosto pálido e frio, eternamente encerrado na sua escuridão, perdendo o vislumbre do tempo nas rugas da eternidade, sem o suspiro dos ruídos da rua ou o traço humano do calor, do ar, do movimento simples, da empatia complexa, onde as mulheres bebem vinho e os homens fumam a mesa, resguardando os mais novos das dores do mundo, onde já foi isso que nao mó digam, estou longe demais no tempo para saber há quanto tempo fui gente dessa.
Quando encerramos uma pagina nao somos leitores.
Nao sinto o ar, nao porque ele nao o há, mas porque eu nao sou, nao por enquanto, nao no entanto.
Quando vamos na rua não somos gente. Perdemos a inocência de esperar que tudo dure para sempre, que permaneçamos inertes, estáveis e duráveis nas curvas da rua e no caminho das estradas, por todos os por do sol possíveis e deslumbrando todos os ciclos intermináveis da natureza. Mas não, mas nunca, não sempre...
Quando vamos na rua não somos homens. Perdemos a forca de nos olharmos de frente com medo que os olhos tocam os que as palavras temem em enfrentar, com receio que a alma ceda num corpo já cedido à magoa das horas.
Quando vemos o tempo não somos inocentes. Quando vemos os olhos fechar, um rosto pálido e frio, eternamente encerrado na sua escuridão, perdendo o vislumbre do tempo nas rugas da eternidade, sem o suspiro dos ruídos da rua ou o traço humano do calor, do ar, do movimento simples, da empatia complexa, onde as mulheres bebem vinho e os homens fumam a mesa, resguardando os mais novos das dores do mundo, onde já foi isso que nao mó digam, estou longe demais no tempo para saber há quanto tempo fui gente dessa.
Quando encerramos uma pagina nao somos leitores.
Nao sinto o ar, nao porque ele nao o há, mas porque eu nao sou, nao por enquanto, nao no entanto.
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