Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Quando me quiseres esquecer

Cai a noite e o silêncio, a esplanada fica vazia, lentamente, sei que custa, não é fácil, não somos fáceis, acendem-nos uma vela com o cheiro antigo dos fósforos e da humidade que paira no ar, não voltaremos a encontrar-nos nos lábios um do outro, ver-me-às quando puderes, sei o que te faz triste, como te fiz triste, não há mais formas de saber, tinhamos os olhos abertos com as estrelas e a parte de ti que não vi, foi a que tu mostraste. Bebemos, o fumo ergue-se, rodopia, foge pelos lábios em foguete, a ponte ilumina-se na distância, estátuas idem, tenho a tua cabeça no meu ombro, e os meus olhos no infinito mundo de uma lágrima. Fazer o que tem de ser feito. Fazer o quê?

Quando me quiseres esquecer lembra-te de como me lembrares...contigo.


sábado, 30 de agosto de 2014

Quando me quiseres encontrar

Se eu ficar, serei sombra, traço morto, rasto mais negro, pedra mais escura, então vou, a passo pesado, para onde o mar acaba, onde o sonho é miragem e o horizonte casa. Há um trago doce das memórias, tudo o que levo às costas, adeus, não ficaram lágrimas por visitar, sabemos que do outro lado do mundo haverá sempre o tempo dos heróis, das muralhas, onde se conquistaram terras férteis e onde o sol brilhou de noite. Hoje não. Hoje não. Hoje não.

E no fim, teremos sempre. Sempre, a palavra. Sempre, o verbo. Não sei que ficará senão os sempre que deixamos no ar, as mãos que se tocaram e os olhos tocos que se refletiam em cada um.

Quando me quiseres encontrar, perde-te porque eu não sei onde estou!

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Toque

Toda a ação dirigida e o alvo ininterrupto da vida humana, o circunflexo imperfeito da sua atuação crente e descrente, de todos aquilo que conhecem na despedida os restos preciosos do tempo. A ausência traz em si o sabor amargo da esperança, as esporas intermináveis da nostalgia, Não saber que há maneiras de não sentir, ninguém sabe, tenho os olhos abertos para as estrelas e mesmo assim não vejo o norte, O caminho é aquele que vejo contigo. Talvez nunca mais. Talvez para sempre. O talvez dos fracos indecisos. Fumo. A pequena chama que se consome a si própria, inalo, respiro, estou vivo, não sinto, tremo, Volta e vê me como quiseres.

E vai e vem, e troca e corre e o céu sabe que tudo vale, não importa como, não importa quem, as palavras são pequenas para a prosa dos corpos, o mundo esta louco, as pessoas não sabem, as pessoas só sentem, não há grandes vitórias mas épicas quedas, do império so o resto moribundo dos livros de memórias e dos cadáveres apodrecidos numa jaula qualquer humanistica. O mundo vai mau, o céu não se ergue, o fumo não para e tudo vale para valer por tudo. No meio disto, saímos pelas pontas que o nosso caminho já se faz pelos nossos pés.

Uma noite, no escuro, quando o mundo estiver frio irei encontrar te numa esquina qualquer, com o brilho qualquer, sem ideia talvez, contigo, saberei aí que não há nada mais além, so o fim do mundo no infinito do tempo.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

O mundo continua

Não sabe nada da noite, nem dos mistérios ocultos da metafísica, desconheço o tempo e a ausência, conhece os campos e as cores, a tonalidade mais cinzenta da chuva e as pequenas gotas que beijam o chão nas manhãs menos enxutas. Ficou sempre de fora das cidades do mundo, na sua terra, o seu mundo de um hectare, se tanto, se muito, não sabe de palavras robustas mas de braços fortes, desconhece os sons da arte mas sabe os da natureza.

Fecho a porta e sei que não volto, escondo as cortinas e sei que elas não se abrem mais.

Viste nos tempos o que muitos só vêem nos livros, caíram palavras e regimes, nasceram países e quebraram-se mundos, arderam terras e choveram mortes, e apenas sabes das chuvas, apenas sabes dos ventos, só sabes do teu mundo, porque só ele te disse respeito.

E é injusto!

"O Mundo é tão bonito e tenho tanta pena de te perder... Porque o mundo continua sem mim... e sem ti." - José Saramago

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Um lado

Demasiado alto nas montanhas, onde o sorriso se esconde nos arbustos do obscuro, onde não estamos prontos para ficar, onde parar é cair e o eclipse a noite, o não ver, o estar a cair aos poucos, cedendo em cada frincha um pouco de nós, um corte, mais profundo, ainda mais, as memórias afundam-se, o sangue escorre.
Lamentar, um lado só não lamenta, um olho só não vê, não aos deuses, nem aos mortais, compassadamente, numa ligeira brisa de quem se deixa levar, a noite treme, as memórias vão-se e não estamos prontos a subir, não ficamos por aqui, parar é cair, ficar é partir.
Enquanto não se voa e não se desiste, não se foge sem rasto, não se chora sem lágrima.
Não se fica, não se parte,

O esquecimento global I

Se sentes o corpo a soluçar, nas vagens mais impuras do tempo, levando a nicotina espalhada pelo corpo nos tecidos vazios da memórias, apagando a cada bafo mais hirto as verdades mais certas, mais nubladas, que as bocas não contam, que o corpo não esconde, se sentes lá fora a chuva, um novo toque, leve, descobrindo nos resquícios de cada gota as laminas impenetráveis das tuas unhas, os contronos suaves dos lábios e as naves perdidas do rostos que se queimam, numa tempestade de areia, num risco de teimosias sem precedentes, fica com o desejo eu cumpro o que não disse, muito mais do que se falou, não houve silêncio que ficasse, nem palavra que se escondesse.

Penso às vezes que se safa no final do dia, quem é que passa pelos cabos tumultuosos da vida e se ingere a si próprio em leitos profundas de regojizo, não é a pessoa mais inteligente, nem a mais bonita, não é a mais rápida nem sequer a mais astuta. Fala-se em adaptação, uma mutação constante com o passar do tempo, adaptação ao vento mais forte, à carne mais crua, passar sem comer ou ter que dilacerar os corpos inertes deixados ao abrigo do tempo para sobreviver. No fim é deixar ao acaso do esquecimento o que sempre nos recorremos nas lembranças, deitar ao fascínio as despreocupações largas do dia-a-dia, deixando se levar na corrente da sobrevivência, na ternura dos que se plastificam nas circunstâncias.

No fim o que conta não é a sobrevivência, não é a persistência duradoura no tempo, omisso de gente, omisso de alma quente que embale nas insónias, é a marca que se deixa quando se passa, a memória que fica no que resta, na cabeça dos tolos, na memória dos sábios, é aquilo que se põe no único momento em que se pode, é o que se deixa como os últimos que se vão.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Rendição

Somos secos por dentro meus caros, não subsiste um único regozijo nutrido na alma, uma lenta circunflexão dos hemisférios do tempo, uma perdição luxuosa dos anos de deixar ficar o que sempre partiu, ficamos presos às circunstâncias e ao que com elas nos da um medo, um prazer, de ficar a meia distância das distâncias dos outros.
Com isto não notamos mas perdemos um pouco de nós ao estarmos sós sonoro, a tal secura, um fingimento do fim em si mesmo, uma bebida não alcoólica que mesmo assim nos revira os olhos e nos transtorna a realidade, só levar, só deixar, perder nos outros o medo de os ter e não os tendo não ter medo nenhum.
Até ao dia em que, contra o expetável da razão e as noções dos corpos, deixamos quebrar, como naqueles dias de vento forte onde por uma pequena mas bruxuleante brecha na porta, se escancaram todas as janelas, e todos os ventos do mundo se transformam em todo o ar que respiramos, fundo, único, potente. Já não somos de nós mesmos, rendemo nos de corpo e alma, razão e tudo o resto a algo que não nós mesmos. Sabido está que a duração de tudo é menor do que o que tiramos dele, contudo. Sempre, rendemo nos felizes à tristeza de não sermos apenas nossos.