Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

sexta-feira, 15 de março de 2024

Dormir

 O carro continua a andar com destino a casa, passa pelos semáforos sem ver a cor, olho para as nuvens sem ligar à estrada que se encurva à nossa frente, mas ele concorre às leis da física e levemente segue o caminho do alcatrão, deixo-me ir, sem perceber muito bem o movimento das minhas mãos, o toque pesado, agarrado, sofrido, dos dedos ao volante de pele, que sua, que sangra, que sente tudo o que sinto por cada milímetro quadrado de toque. O banco sente o meu corpo enrijecer, cada músculo contrai, cada lágrima cai no assento que me sustenta, cada pingo leva consigo um pouco mais da minha alma que se corrói com o dia a dia destes dias. Vou inerte, gás químico sem expressão, carro rápido sem solução, contorna e vira, acelera e trava com soluços perdidos que ninguém percebe. As pessoas olham para aquele carro preto, não descontrolado, não rápido, apenas inconstante, não cumpre as regras da estrada mas igualmente ninguém ofende, anda apenas, sem grande preocupação de fora, ela está toda por dentro, abarançando, agarrando e suando o corpo que nele habita por enquanto, agarra-o e soluça, sentindo cada toque da sua pele, cada contorno da sua curva, cada milímetro da sua existência. Para quem não quer mais guiar, estranhamente continua seguindo, com medo mas sem grandes receios, sem grandes travões por aí igualmente, mas para quê parar?, mas para quê abrandar?, na verdade o pedal que controla a aceleração não é carregado pelo pé de quem se senta no guiador que gira sem vontade, para quê, pergunto, para quem?, por quem?, e nada se responde. Os olhos vidrados agora olham em frente, fecham, vão dormir, imaginar que não estão ali comigo, que estão longe, além, no meio do mar, numa solidão fresca, calma, natural, lá conseguem ver. A estrada continua, as curvas beijam as retas, intercedem-se sinais, peões e outros carros, mas ela vem outra vez, toca no ombro, relembra de onde estamos, olhos abrem, continuam vidrados, Não!, e fecham.

Estes olhos vão dormir, descansar, partir, imaginar, o carro continuará até algum sinal indicar que a viagem acabou, até alguma mão girar o que a terra ainda não abrandou.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Sei

 Sei que por todo este caminho de terra batida existirão despedidas, adeus, alguns olás e olhares cruzados, sei que a terra se colocará sem timidez entre os dedos calejados dos pés, que a brisa soará firme no meu rosto, percorrendo a minha tez com a calma e subtileza das ondas. Sei que cada ausência de árvores que fogem da fé deixará uma ausência no caminho e mais sobre pelas rochas que jazem nas bordas da estrada, esperando viver ao lado delas por toda a sua vida.Sei que cada cruva traz uma reta exígua, cintilante no seu percurso, versando pelo meu corpo como tu, deixando-me dizer que sabe do caminho, que desconhece o destino. Saberá do choro das ausência e da lágrima das lembranças, da volta do destino apagado nos olhos, do vazio inerte das mãos pálidas e sofridas, eternas desventuras do mundo esperando viver ao lado de si mesmas por todo este percurso.

Fico. Sei. Choro. Ausente. E volto à mesma volta que escrevo na terra, já aqui estive, aqui já não estou, eternamente saberei reconhecer que o saber é nulo, por toda a minha vida...

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Estrelas

 Se conseguisse abrir este corpo, da forma mais fria, com a faca mais cortante, olhasse por cada entranha e te procurasse, estarias nas veias que fazem o coração bater. A minha alma flui e voa pelo universo, percorrendo o espaço exíguo do vazio, pagando as minhas dívidas com o universo. Não sei de que é feito, sei que voa, estala no céu e não me sabe sentir, não se sabe sentir, sei que quer tentar voar e debruçar-se dos mares do céu mas não sabe sentir. Não significa que não sinta, que não se arrepie na pele perante o vazio do universo, que não se cale de medo ou fale de arrependimento. Falta-lhe o saber, saber de que é feita, o que significa o silêncio, o toque da voz, a ignorância infantil de dizer o que se quer.

Um dia saberá que é feita da poeira das estrelas, bastando para si saber isso. Tudo o resto é ruído do mundo esperando ter significado para quem o faz.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Frio

 Abro a janela para ver o pálido branco que a abraça, esgueirando-se do sol frio que se reflete na calçada. É janeiro, é frio e tenho apenas o silêncio da madeira do chão comigo, articulando nos pés gelados o bater das ondas das marés que fazemos ao deambular por esta espaço nu, selvagem e sem árvores maiores. A janela branca continua a salvar-me de ver a rua, oculta dela o meu semblante cansado e oco, é, neste momento um balão de oxigénio ao não permitir que mais ar entre neste espaço, neste corpo. Ao canto, a cama de ferros preta, destapada, nua, continua a agarrar-se às mesmas madeiras do chão que calco com os pés feridos do frio. A energia que tenho traz-me de volta a ela e ao seu colo. Nada do que lá fora se passa me chama, a não ser a branca janela que me salva de ver a rua e o meu próprio reflexo. Tapo o espelho do canto. Apago a pequena luz rebelde que se encedeia à beira do ferro preto da cama despida. O escuro abraça o silêncio e vem-me dar um ténue beijo no gesto, sabe que é a nossa hora.

O tempo é de frio, a janela é do gelo e eu, iceberg morto, continuo a rolar pelos tacos de madeira à procura da profundidade certa para me afundar. Escolho o taco mais frio, virado para a janela que não me reflete e sento-me despido de mim e dos outros. Quando a lança de frio que repousa no chão me agarra com força e uma última lágrima desce as colinas do meu rosto eu paro.

Aceito que o maior frio é o que trago comigo na almae todo o gelo do mundo se derrete ao mirá-lo.


terça-feira, 2 de agosto de 2022

Corpo

 Chego a casa, dispo-me, deixo as roupas largadas de suor frio pelos cantos mortos desta casa vazia, enche-se de mim com o muito vazio que trago dentro. Deixo passar a mão fria pelo braço, deslizando calmamente, sentindo cada espinho roçando, cada cicatriz marcada. Desliza, perdi-me, não sei qual o caminho até ao fim desta minha estrada. 

Deixei-me lá fora, no meio das multidões que não encaro, embora olhe, deixei-me lá fora no barulho da cidade e, cá dentro, sou eu, estou despedido dos outros. Passo pelo espelho e não o olho, só me vejo na distância longa entre o que sou e o que devia ser. 

Silêncio enche-me uma vez mais, a cabeça pesa, o corpo descai marcando a parede de pequenas gotas de solidão, perdi-me, e deixei-me ir com a gravidade, atingindo o chão num calmo silêncio, ensurdecedor a todo o restante que me abraça.

Aperto-me uma vez mais, agarro-me uma vez mais, atiro-me uma vez mais, arranho o ar uma vez mais.

Perdi-me lá fora. Aqui sou eu, perdido dos outros, a encontrar-me no silêncio do meu corpo, nos gritos da minha voz muda.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Era teu

Já te perguntaste se és feliz, disse-me despretensiosamente, como se, sem interesse algum, me atira-se uma bomba de fumo, armada, explodida, dentro do meu próprio corpo que se perde no impacto, sem cair, sem explodir, imploding e absorvendo, Que pergunta, não se o consegue ser, decidi dizer sem qualquer desdém por mim próprio, sem ligar a toda a energia cinética que me enchia as veias de medo, Ser feliz é algo que não existe, está-se feliz, existem momentos felizes, acrescentei.
Sem um segundo de pausa recebo em mãos, Tu não és feliz só por dizer isso, não te deixas ser feliz, tens medo de o puder ser, parei no tempo, ou ele parou em mim não me apercebi da tonalidade desta passagem de tão rápida que foi.
Eu já fui meu, isto não é simples de explicar, mas ao me ver ao espelho sinto-me longe de mim, vejo um ser distante, um reflexo do nada que já fui, um caco ainda construído, embora me lembre sei que a perfeição não está ali, está um ser só, um tudo misto de confusão que se perdeu no tempo nos rasgos de cobardia que com ele vieram.
Algumas vezes a vida passa-nos pela porta das traseiras, não a vemos, deixamos passar, digo ao espelho, Não és o que espero, e peço a mim uma chance de começar de novo, de apagar as últimas estradas onde passei, e voltar a estar só no ponto de partida, sem medo da vida que me preenche, sem medo de construir no escuro, sem medo de mim próprio.
Voltei a olhar para as palavras que recebi, Já fui de mim, não o sou.
Perdido voltei ao espelho, pode ser que me encontre em mim.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Quando te apetecer

Existem dias em que a respiração é mais pesada, onde aquele aperto que já não sentias te volta a abraçar, devagar, intenso, volto a ti e nunca é demasiado tempo. Por muito que se corra na estrada do tempo ainda te sinto aqui, ainda conheço o teu abraço sem toque, a tua mão na minha e, melhor, o teu silêncio a envolver o meu.

Liberta-me e deixa-me ir por aí. Não voltares é dares-me o vazio que preciso de não te ter, o espaço e vácuo para te conseguir sofrer e voltar a enchê-lo de saudade, de mim, não tua.

Pensava que era forte sabes, que ao longo da vida tinha conseguido erguer muros frágeis por aí, aqueles que nos guardam nas noites mais escuras, fortalezas de mim que me deixaram ficar só no meu silêncio, como eu devo estar.

Um dia disseste-me e até agora não me quis lembrar.

Tudo o que preciso está na minha terra, no meu ser, e por muito que me agarres sou eu que me seguro, eu que respiro, eu que sei onde posso ser.

Por isso, por mim, por tudo, quando me apetecer chorar, irei, sou apenas eu a ganhar um espaço para mim, em mim.