Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Velocidade

 Desces pelo Chiado, passas por Pessoa, cais e esfolas o joelho, levantas, com o dedo molhado nos lábios gretados passas pelo joelho esquerdo, queima pouco, tem pouco sal, que sorte, que azar, pelo menos passará rápido com o néctar que é a tua saliva, levantas, ajeitas a roupa, a camisola desce mais um pouco, os calções ajeitam-se rentes aos joelhos, um deles ferido, o outro resiste enquanto espreita a sorte, voltas e danças pela rua abaixo, não trazes hoje os nós da alma, a vida é caos, é um abraço do destino ou uma chapada do azar, tal como na queda, fintas o destino na ignorância da cegueira, o teu controlo finda na dança que queres prendar a calçada deste Chiado que não te pertence mas é teu.

Entras em velocidade naquela descida, vendo os azulejos a reluzir o sol que hoje beija também com calma, sais para dançar, rodopias, olham para ti e rodas ainda mais para ver se os olhos dos outros também gira e se voltam para dentro, há muito por ver, muito mais nos dentros das pessoas do que nos tetos deste que dança.

Velocidade, é a nossa dança.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Colo

 Preciso de falar contigo, não sei onde estás e muito menos quem és, quem poderás ser, estou a sós, de luz trancada e de silêncio ligado, calado na voz, olhos carregados de mar, folgando os nós das roupas, das almas, deixo transbordar de mim as datas e as contas, as dores e as memórias, tentanto ficar de mãos vazias, não consigo, quando quero falar contigo não sei onde estás, não sei quem és, aceito a dor e com ela nada faço senão mirá-la, observá-la, com calma, plácido, ammaso-a, viro-a, rodopeio e ela nada faz, cresce, lambo-a, nada, abraço-a, vejo-me tristonho nela, acho-me medonho nela, nada acontece. E se eu quiser falar contigo, não sei onde estás, nem sei quem és, aventuro-me sozinho à tua procura, subo ao céu, desço ao inferno, sem cordas, arrasto-me nas paredes calcárias, digo adeus às esquinas que cruzo, dou as costas a todos os caminhos, a todas as estradas e não vou dar a nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, que eu possa segurar.

Não preciso de falar contigo, nem sei onde estás e muito menos quem poderias ser. Sei que precisava do teu colo e do teu silêncio, saber que tudo iria correr bem, mesmo que continuasse perdido sem nada ter de encontrar.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Ilha

 Já tentei mudar, por um sorriso no rosto, um abraço apertado no corpo, tentei ser bom, ser melhor, mas acabo no mesmo espaço, tentando ser diferente, mas será que sou apenas um ator, gostava de ser perfeito mas não sou daqui, envio sinais de fumo, ninguém vê, na ilha onde estou já não sinto o sol, o sal do mar não me arde, não me cura, estou demasiado longe do centro, não sinto a areia nos pés nem a brisa na face, não há arranjo para quem nasce desassossegado.

Se tivesse menos espinhos num corpo, ou uma pele mais lisa nas mãos, sem os sinais do tempo, sem as linhas da destruição, passaria no rosto de quem se avizinha, aproximava de quem está perto, o mais dificil é saber quem sou e que não há solução para quem solucionado está, não há alturas para quem nasce baixo, não há espaço para quem não ocupa lugar, somos diferentes e eu não tenho arranjo.

Pego num barco a remos improvisado, com as madeiras do corpo, os braços da alma, sei quem sou e isso é o mais dificil, não tenho arranjo, não sou daqui, grito ao vento num soluço baixo, dou mais sal ao oceano e arranco, não sei para onde, não sei porquê, sei que não sou daqui.

sexta-feira, 28 de março de 2025

Sem som

 Quero escrever em silêncio, penso ser a primeira vez que, aquando do processo de deixar cais palavras numa folha branca, não tenho um som a abraçar-me no fundo, precisava do silêncio hoje, de sentir apenas as teclas eclodirem nos meus ouvidos, o som mecânico, factual e frio que vem da máquina, não do homem, não da inspiração divina ou de outra coisa qualquer. Fico desconfortável, já não escrevo muito, perdi no rasto dos anos o resto das palavras que guardava para mim, para ti, deixa-as ir por falta de uso. É o que acontece certo?, perdemos o que não usamos, deixa-nos o que não nos faz falta naquele momento e é muito mais dificil conquistar do que perder, pensariam assim os guerreiros dos outros tempos? As palavras foram-se no silêncio e hoje, acho, esperava que o silêncio trouxesse de volta as palavras, as minhas, não as das músicas e dos poetas que, usualmente, habitam no meu fundo e me usam como uma marionete seca para escrever o que sinto e o que penso, no silêncio poderia voltar as minhas, as minhas, palavras, os meus, os meus, sentidos e sentimentos que me preenchessem novamente, arrancassem este vazio grande e claro que me tolda os olhos e me aperta a alma. Não aconteceu, não vieram, deixaram-me com o som mecânico das teclas, com o silêncio da sala e da alma e, uma vez mais, com os olhos secos de quem perdeu a força de chorar. A facilidade com que saem as letras não coaduna com a dificuldade que há em lhes empregar sentido, em lhes dar cheiro, não para outros que poderão, ou não, sentir algum leviano com o passar dos olhos pela tinta preta digital empregada gratuitamente aqui, mas para mim, para que possa sentir o cheiro da alma nas teclas que carrego sem grandes forças, sem grandes sentidos, num vómito inglório de quem tenta trazer a si algo que não tem mais dentro. É isto que nos traz o mundo de hoje, o mundo dos crescidos, uma atuação mecânica e óbvia dos sentidos e das rotinas, do digital e da proximidade longíqua de quem se trata por tu atrás de ecrãs, é isto que deixámos nos campos de Caeiro, abandonados e verdes, verdades, que tratam a solidão por tu de uma forma muito melhor do que nós a tratamos por nós.

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Sorriam

 Aprendemos tanta coisa na jornada e nos dias, queremos contar tanta coisa e viver ainda mais, sonhar e transladar para o real, o toque, o som, o silêncio, o toque é menor do que a vida, aprendemos a ver os perigos das esquinas, os sorrisos tortos na sala, os sinais fechados aos jovens e os beijos guardados para a lua. Fizeram-se braços, abraços e lábios, vozes e murmurios, silêncios, perguntas-me pelo meu caminho e respondo sem som, fico por aqui, neste canto calmo, nesta estrada segura, com as feridas vivas do meu corpo, com os laços presos no meu espírito. 


Aprendemos tanta coisa na jornada, põe-te direito, engole a dor, faz tudo o que tiveres que fizer, sê o mesmo que eras, muda para o que tens que ser, vive, não vivas, guarda, separa e liberta, engana nas aparências, vislumbra os vultos, desaparece e aparece, diz que estás fora ou grita que não saiste de dentro, ama o passado, apaixona-te pelo futuro.


Aprendemos tanta coisa na jornada, ideias, consciência e juventude, deixa-te guardar por deus, culpa-o pela dor, abraça pelo espinho, apesar de fazer tudo o que fizeres, és o mesmo.


Aprendemos tanta coisa na jornada mas quando a câmara aparece e a foto se prepara, sorri como te manda a voz que se esconde no obturador, sorri com os lábios, os olhos, esses, podem abraçar as lágrimas que ainda não podem sair.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Quando for (Quero ir assim)

 Deito-me no sofá, sem cobertor, sofrendo um pouco do frio nas mãos e no nariz, a minha respiração é mais pesada, como se pó tivesse mudado para os meus pulmões e lá fizesse casa, cidade e campo. A respiração pesa, cada bafo singelo de ar que entra percorre uma imensidão farta de pouco espaço até conseguir chegar ao seu destino e de lá voltar, pesado, sujo, lento. A mão é pesada, não por peso mas por falta dela, por falta de força e, talvez, pelo frio que me invade. Não está frio lá fora. Está frio cá dentro. As rugas que se entrelaçam nas pequenas manchas castanhas da mão, estão salientes, não pulsantes, salientes, como rios invertidos com a sua base no topo da pela, revoltos, entrelaçados. As unhas são pálidas, cansadas de tanto terem feito pelos anos, a pequena luz da janela ao longe permite ver as quebras que lá estão, que cá ficam. Não têm brilho, não têm tamanho, têm sítio onde pousar, isso já é tanto, demasiado, para tanta, demasiada, gente. Pouso a cabeça na almofada, sugeringo um descanso, deixo-a ir, encontro a posição, rodo, empurro, puxo com ar o espaço, até chegar ao mínimo desconforto possível. Estou. Vou.

Vejo que te aproximas e te sentas no chão à beira do sofá. Olhas-me sem expressão,  olhos caiados de sal, ficando baço na expressão e hirto no corpo. Estás tenso. Não é hábito teu estares assim, tens um corpo fluido, das poucas vezes que te vi, que te encontrei numa esquina mais sombria e me olhaste com desprezo, não era hora de falarmos. Hoje estás mais próximo, vejo que queres falar e não consegues, que queres entir mas não podes, não és o protagonista deste momento, talvez sejas dos próximos, és de certeza dos próximos. Agarras a mão, não é aquele agarrar forte que vemos nos filmes, é um pousar da minha mão na tua, um enlace sem prender, que me deixa a mão fria, mas serena.

Se me perguntarem se quero ficar mais quente, uma manta talvez?, direi que não. Se quero mudar de sítio, as forças faltam e o desejo não assiste, hoje quero isto. 

Agora espero. O ar entra e sai, com mais força, mais esforçado, mais devagar, diminuindo as passadas como se de uma pauta se tratasse e o seu fim estivesse próximo, deixa ir, a música baixa, não acaba, eu não sei quando acaba.

Quando for hora, quando for a minha hora, quero ir assim, sem gente, só eu e tu que me olhas vazio, abraçando uma última vez, sentido um último suspiro. Quero ir assim, sem gente, só nós, acolhe-me e deixa-me sonhar a derradeira vez com campos secos e sobreiros solitários em planíncies de sol morno. Quero ir assim. E vou.

sexta-feira, 15 de março de 2024

Dormir

 O carro continua a andar com destino a casa, passa pelos semáforos sem ver a cor, olho para as nuvens sem ligar à estrada que se encurva à nossa frente, mas ele concorre às leis da física e levemente segue o caminho do alcatrão, deixo-me ir, sem perceber muito bem o movimento das minhas mãos, o toque pesado, agarrado, sofrido, dos dedos ao volante de pele, que sua, que sangra, que sente tudo o que sinto por cada milímetro quadrado de toque. O banco sente o meu corpo enrijecer, cada músculo contrai, cada lágrima cai no assento que me sustenta, cada pingo leva consigo um pouco mais da minha alma que se corrói com o dia a dia destes dias. Vou inerte, gás químico sem expressão, carro rápido sem solução, contorna e vira, acelera e trava com soluços perdidos que ninguém percebe. As pessoas olham para aquele carro preto, não descontrolado, não rápido, apenas inconstante, não cumpre as regras da estrada mas igualmente ninguém ofende, anda apenas, sem grande preocupação de fora, ela está toda por dentro, abarançando, agarrando e suando o corpo que nele habita por enquanto, agarra-o e soluça, sentindo cada toque da sua pele, cada contorno da sua curva, cada milímetro da sua existência. Para quem não quer mais guiar, estranhamente continua seguindo, com medo mas sem grandes receios, sem grandes travões por aí igualmente, mas para quê parar?, mas para quê abrandar?, na verdade o pedal que controla a aceleração não é carregado pelo pé de quem se senta no guiador que gira sem vontade, para quê, pergunto, para quem?, por quem?, e nada se responde. Os olhos vidrados agora olham em frente, fecham, vão dormir, imaginar que não estão ali comigo, que estão longe, além, no meio do mar, numa solidão fresca, calma, natural, lá conseguem ver. A estrada continua, as curvas beijam as retas, intercedem-se sinais, peões e outros carros, mas ela vem outra vez, toca no ombro, relembra de onde estamos, olhos abrem, continuam vidrados, Não!, e fecham.

Estes olhos vão dormir, descansar, partir, imaginar, o carro continuará até algum sinal indicar que a viagem acabou, até alguma mão girar o que a terra ainda não abrandou.