Caí o frio na cidade em pleno verão, a memória das coisas sem idade aquece-nos a alma, percorrendo as veias como uma injecção clara de calor, de alegria de espanto surdido num tempo em que os homens vivem sós. O nosso olhar verde como a natureza de Cesário cai apodrecido como as estações, endurecido pelo tempo que viu passar rápido demais e pelas ervas cortadas sem sentido, demasiados relógios sem tempo, demasiado veneno na madrugada. Apenas e só o caminho sem caminhantes, indo longínquos para sítio algum. Não é verdade tanto tampo longínquo, tanto fumo sem sentido, tanta roupa despida sem razão. As nossas madrugadas erguem-se agora pelo gelo dos comboios e dos cafés quentes que já não sabem ao mesmo, perderam o travo que nos sustía no silêncio das coisas, perderam o ânimo de lutar por todas as lutas do mundo. Sabemos que não viemos ao mundo colher flores em jardins tranquilos nem silêncios em espaços fecundos. Viemos sem razão mas viemos atribulados pela mente dos que não se sossegam sós.
Sento-me antes de entrar em palco, longe dos olhos dos espectadores, ainda vejo sentada à minha beira, pessoa sem nome. Olho-me ao espelho enquanto me visto com calma, retocando as pequenas rugas da minha roupa, compondo os cabelos já grisalhos, fiquei a ver aquela imagem já enrugada, onde as mãos já pesam e os ombros já atrofiam a postura. Não era cenário, não tinha cortina, estava demasiado despido de luta para saber gritar. A orquestra entoava os primeiros acordes calmos, o primeiro acto entoava-se em poucas palavras sem raiva, a minha canção sou só eu, não é este o meu espectáculo.
Quando eu voltar, o pano descer, as palmas surgirem, voltarei aqui ao meu camarim, voltarei à minha saudade, quando me despintar e perder no chão as roupas que não são a minha verdade.
Fujo de mim. Tu não estás lá.
Como o antigamente de todas as estrelas, brilham mais quando brilham os olhos de quem as vêem.
Aqui diz-se quando ninguém deixa. Aqui manda-se vir sem os gajos ricos deixarem. Aqui fala-se... E fala-se... Por ser isso que nos mantém vivos
Balelas (ou não) da Rua
Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Incompleto
Queres concordar comigo, sozinhos aqui, nem tudo o que queremos é tudo o que precisamos?, Sabes que me quero perder na paisagem sem fim, numa melodia triste que um dia tu possas compor sem eu saber, perder-me-ia em cada tecla do piano, desenhando cada símbolo nas linhas direitas em que me desconstróis. Finalmente acredito, ter o peso nas costas do som, saber que precisamos de ser tentados a mais, tentados a perder pequenos pedaços de nós, criando espaço para outros novos se seguirem, construindo em nós mesmos novos sons, novas ultrajantes realidades, novos recomeços seguidos de eternos fins.
Não é tarde para te sentires incompleto, para desejares o mundo e lutares pelo teu, não há dinastia que resista à estabilidade nem subsista sem mudança, a realidade é uma mera modificação constrangida ao sonho dos homens que a fazem, incompletos, inconsiderados, inconsistentes, curiosos... terreno fértil sem fim em pessoas que se findam sem terminar
Não é tarde para te sentires incompleto, para desejares o mundo e lutares pelo teu, não há dinastia que resista à estabilidade nem subsista sem mudança, a realidade é uma mera modificação constrangida ao sonho dos homens que a fazem, incompletos, inconsiderados, inconsistentes, curiosos... terreno fértil sem fim em pessoas que se findam sem terminar
Até ao mar
Perder as rugas que nos trazem pedaços de alma em cada fortificação alheia, em cada cotorno deste corpo gasto, desgastado pela areia do tempo e pelos testes do destino. Irias até ao fim para perder o que não quiseste ganhar, esquecerias a vida sem remorso e sem saudade?
Quisesses ser rio só e irias até onde por um momento de gozo ou uma corrente mais forte onde sentisses cada brisa como um épico momento de dor, uma contracção extenuante do corpo, um prazer totalitário de quem sente mais, de quem sente melhor. Desespero dos corpos, faltas das almas, não olhes oara trás, continua em frente, desiste do tempo, desiste das pontes, nada e corre, sem perder mais que tudo, sem esquecer menos que nada, vai longe, corre, vai longe, não pares, percorre os sítios recônditos dos outros até encontrares aquele que te pertence.
Não pares até encontrares o fim do mar, o término do horizonte e a expansão dos corpos. Irias até lá se soubesses que não te irias encontrar?
Sentes, amas, vives de novo?
Irias mais longe se soubesses que não há fim? Se soubesses que vazio serias mais forte, quem sem ti serias mais?
Irias mais longe se soubesses que afinal te perdeste no início?
Quisesses ser rio só e irias até onde por um momento de gozo ou uma corrente mais forte onde sentisses cada brisa como um épico momento de dor, uma contracção extenuante do corpo, um prazer totalitário de quem sente mais, de quem sente melhor. Desespero dos corpos, faltas das almas, não olhes oara trás, continua em frente, desiste do tempo, desiste das pontes, nada e corre, sem perder mais que tudo, sem esquecer menos que nada, vai longe, corre, vai longe, não pares, percorre os sítios recônditos dos outros até encontrares aquele que te pertence.
Não pares até encontrares o fim do mar, o término do horizonte e a expansão dos corpos. Irias até lá se soubesses que não te irias encontrar?
Sentes, amas, vives de novo?
Irias mais longe se soubesses que não há fim? Se soubesses que vazio serias mais forte, quem sem ti serias mais?
Irias mais longe se soubesses que afinal te perdeste no início?
Sem pé II
Há nela um sossego irrequieto de quem não quer pensar, apenas fluir pelas manhas do tempo caindo nos interstícios uma e outra vez, roçando se vagarosamente no mundo, numa ataraxia fluida, uma espécie de paz, um toque de pranto, saber ser pela eternidade o que a eternidade souber que ela é.
Perdeu-se ali sem se aperceber, ainda há pouco reluzia no Tejo as imagens esvoaçantes do seu vestido em contraluz com um sol ja gasto pela tinta vermelha ocre da ponte que nos leva além margem. Sabia de si própria um estranho sentimento de quem corria contra algo ou para longe de alguém, uma brunirão espiritual que não lhe revirava os olhos, não lhe aquecia o espirito nem levantava mágoa, Sou saudade, disse e ninguém ouviu, Sou esperança, gritou e ninguém escutou, Sou o vazio da existência, e a existência desapareceu com ela.
Largou o que aí vinha sem esperar que algo viesse, turbilhou se no seu proprio corpo, tornando se um estranho espectro de escuridão, uma vagão de carvão prestes a carburar pelo fogos eternos do ser. Contudo, nada foi mais que uma pequena dose de sonho num pouco espaco de corpo, uma pequena luz brilhante saia dela pela pele, ninguém viu, apenas ela, somente os seus olhos vislumbravam, a luz do sol nasce em cada um, em cada noite, em cada segredo guardado.
Perdeu-se ali sem se aperceber, ainda há pouco reluzia no Tejo as imagens esvoaçantes do seu vestido em contraluz com um sol ja gasto pela tinta vermelha ocre da ponte que nos leva além margem. Sabia de si própria um estranho sentimento de quem corria contra algo ou para longe de alguém, uma brunirão espiritual que não lhe revirava os olhos, não lhe aquecia o espirito nem levantava mágoa, Sou saudade, disse e ninguém ouviu, Sou esperança, gritou e ninguém escutou, Sou o vazio da existência, e a existência desapareceu com ela.
Largou o que aí vinha sem esperar que algo viesse, turbilhou se no seu proprio corpo, tornando se um estranho espectro de escuridão, uma vagão de carvão prestes a carburar pelo fogos eternos do ser. Contudo, nada foi mais que uma pequena dose de sonho num pouco espaco de corpo, uma pequena luz brilhante saia dela pela pele, ninguém viu, apenas ela, somente os seus olhos vislumbravam, a luz do sol nasce em cada um, em cada noite, em cada segredo guardado.
terça-feira, 27 de agosto de 2013
O mundo são portas por abrir
A minha casa é só portas pelas paredes, nem um pequeno rasgo de luz nela entra, não se ouvem miragens de vidas nem subsiste nela a voz dos outros. Há em mim o desejo de fechar do mundo o proprio mundo que criei. Um fracasso. Um dia, depois de encher o estômago com iguarias mil, olhei para o fundo da rua, deslumbrando com a quebra do olhar quem comigo ia, que o nosso transporte se ia também. Falhamos a vida, Já li isto noutro tempo. E com ela falhamos tudo o que havia a falhar. Não criamos um mundo nem conseguimos melhor este que nos habita, incapazes de abrir janelas, fechamos portas e criamos vazios em espaços que ja ninguém habitava. Com isto deixá-mo nos seduzir pelo silencio até que perdemos a voz que nos deixava gritar.
Leva com o vento o resto de mim, pequenos farrapos de poder, pequenas trocas entre mim e eu, nunca ficando mais que nada, nunca perdendo algo que não tudo.
Pelas portas ouve se o vento de fora, os carros que passam e as pessoas que nascem, dentro delas existo, mentira, subsiste, vegeta, principia no fim de si mesmo, um ser que não sei quem é. Como janelas não as há fiquemos pela curiosidade de quem um dia diz que ouviu dizer de alguém que não conseguia ver, que ali entrara alguém, simplesmente por ali havia ficado.
Não se sabe quanto, não se sabe porquanto, apenas reza a história que falhado da vida se entornou nas portas, esperando contudo um dia ter forças para nelas criar labaredas e enchentes de fogo nos céus do mundo, esperando contudo um dia ser sonho mais forte que este que perdeu a força de sonhar.
Leva com o vento o resto de mim, pequenos farrapos de poder, pequenas trocas entre mim e eu, nunca ficando mais que nada, nunca perdendo algo que não tudo.
Pelas portas ouve se o vento de fora, os carros que passam e as pessoas que nascem, dentro delas existo, mentira, subsiste, vegeta, principia no fim de si mesmo, um ser que não sei quem é. Como janelas não as há fiquemos pela curiosidade de quem um dia diz que ouviu dizer de alguém que não conseguia ver, que ali entrara alguém, simplesmente por ali havia ficado.
Não se sabe quanto, não se sabe porquanto, apenas reza a história que falhado da vida se entornou nas portas, esperando contudo um dia ter forças para nelas criar labaredas e enchentes de fogo nos céus do mundo, esperando contudo um dia ser sonho mais forte que este que perdeu a força de sonhar.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Os Bichos
Deixa me no silencio das escadas onde nada se mira senão o proprio silencio contorcendo se de pasmos dolorosos a cada volta que torce sobre si mesmo. Passam por mim baratas rastejando nas cadas de Madeira pútrida onde me sento, bichos de nojo, repugnos da decadência humanista em que caimos no dia em que nos pariram, raivas milagrosas de um santo que mal via, pequenas almas de alguém que só voa se partir a asa de outro bicho que tal.
Comem se inteiros noutro canto, uma aranha gorda outra mais pequena, indefeso, sem armas, sem voz que pedisse, Acudam que não posso mais, sem mesmo os braços que não esperneiam pelo ar como bastões loucos ao vento, come e deixa se ser comido ao entrar nas entranhas de quem comeu, deixa se ir porque sabe que o seu tempo morreu.
Noutro dia que não esta, residiam aqui duas rolas, pequenos bichos barulhentos que esvoaçam o pó pelo ar, pequenos espanadores sem tino ou controlo, inquietas, parecendo sempr escalar uma com a outra, vizinhas apostólicas da eterna Lisboa sem assunto extra senão os assuntos nos outros. Um dia, juro que um dia, ouvi, e juro que ouvi com os ouvidos que me não deram, sussurarem em altos modos que a rola do quinto esquerdo tinha caído de um telhado empurrada pelo marido que batia de aflição por ter sido apanhado a voar com mais que um pássaro na mão, de uma vez, a pobre coitada desviou o olhar e caso não fosse caso de criar vasos na rua do outo, partilhou se a dor com a asa partida e toda a garret assistiu calada ao esforço inútil de cair de pé.
Por fim, no castanheiro do bar do Carlos reside um pequeno morcego cego da noite, não há milagre nem álcool que lhe encha de sangue a visão e o faça ter na cara as vistas de fumo que lhe entram no pulmão.
Fosse Lisboa so zoológico e residiríamos em paz nas jaulas do mundo, zoológico ja o é, jaulas ainda as não tem.
Comem se inteiros noutro canto, uma aranha gorda outra mais pequena, indefeso, sem armas, sem voz que pedisse, Acudam que não posso mais, sem mesmo os braços que não esperneiam pelo ar como bastões loucos ao vento, come e deixa se ser comido ao entrar nas entranhas de quem comeu, deixa se ir porque sabe que o seu tempo morreu.
Noutro dia que não esta, residiam aqui duas rolas, pequenos bichos barulhentos que esvoaçam o pó pelo ar, pequenos espanadores sem tino ou controlo, inquietas, parecendo sempr escalar uma com a outra, vizinhas apostólicas da eterna Lisboa sem assunto extra senão os assuntos nos outros. Um dia, juro que um dia, ouvi, e juro que ouvi com os ouvidos que me não deram, sussurarem em altos modos que a rola do quinto esquerdo tinha caído de um telhado empurrada pelo marido que batia de aflição por ter sido apanhado a voar com mais que um pássaro na mão, de uma vez, a pobre coitada desviou o olhar e caso não fosse caso de criar vasos na rua do outo, partilhou se a dor com a asa partida e toda a garret assistiu calada ao esforço inútil de cair de pé.
Por fim, no castanheiro do bar do Carlos reside um pequeno morcego cego da noite, não há milagre nem álcool que lhe encha de sangue a visão e o faça ter na cara as vistas de fumo que lhe entram no pulmão.
Fosse Lisboa so zoológico e residiríamos em paz nas jaulas do mundo, zoológico ja o é, jaulas ainda as não tem.
Ninguém disse
Ninguém disse que seria fácil olhar o sol de frente ou boiar em aguas pouco profundas sem marcar as gostas com o grosso arranhão de quem por baixo imóvel se vê sedento de sangue, ninguém disse que seria fácil inventar o luar quando nós mesmos perdemos toda a luz, ninguém disse que nos perderíamos se um dia nos quiséssemos encontrar.
E agora se partirmos cada um para sua parte nunca saberemos o que um dia podia ter nascido, sabemos apenas que de quimeras nao se faz historia e que a luz nao reside em nós, seres da escuridão.
Voltamos ao inicio, cada um consigo mesmo e a solidão com todos nós...
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