Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

domingo, 17 de novembro de 2013

Molière

Estou sentado nas abordagens recônditas do palco, longe dos olhos bifurcados na escuridão, da svozes quentes e do bafo dos aplausos ecoando pelas miragens de ouro, únicos restos da magnífico, onde procura o público, a dor, a garra, ainda não estou lá.
Não te sentes aqui, não agora, pinto-me os traços por baixo das rugas marcadas pelo desgaste, desgosto, pelos lados que me perderam e pelos sonhos que me deixaram, por todos os silêncios que não cumpri e por todas as palavras que não direi, aqui, antes, no prólogo de tudo, espera-se por algo, algo onde nunca estive, um tempo em que nunca me perdi, não tu.
Não quero sentir o teu bater, não perto de mim, fecho a porta e tu andas pela amdeira, como na primeira vez, e sei que aqui algures, num bau, está a resposta. Porque eu não sou deste palco nem tu desta história, quando me procurares nele saberás que farei tudo para lá não estar, caminhamos para algo, maior que nós, e lá, no fim, acabaremos de mãos dadas e costas voltadas ao tempo, eternos amantes ao luar.
No fim do espelho, no intrínseco sono dos meus olhos, há uma pequena lágrima seca, há espera de ser chorada, não hoje,
Visto-me e saio do camarim, pronto, penteado, com pó de sobejo, com a pouca humanidade guardada no bolso,
Saio ao palco, na rua há demasiada desumanidade e esta plateia está vazia,
Na tua ausência o vazio vira horizonte.

sábado, 16 de novembro de 2013

Noite III

Há uma luz que se apaga na noite, as janelas revestem se de pequenos sois amarelos e brancos, intercalados por silêncios, ausências, como em tudo, uma mescla de cheio e vazio num absurdo convívio ensurcedor. Pessoas a pé circundam os carros já parados nos seus repousos, os vazios deixam de existir mas nem por isso se enchem, apenas passam a noite com a companhia inútil de quem parte pela manhã. Um deles imunda ainda calor, o rasto de quem foi usado e já não mais, apenas se queda ali no silencio com os outros, ninguém fala nesta rua, ninguém se conhece nesta estrada, somos todos companheiros da nossa viagem.
Pelo fim da rua, envolto em fumo, reside um resto de homem, um cansaço com pernas que se arrastam no alcatrão com a forca resistente das magoas, o arrastar de ferro pelas teias ferrugentas do tempo, lascando com faíscas negras as faixas obscuras da humanidade. Acende se um isqueiro. Não há mais caos neste edifício que anda.
Outro cigarro se enche e outra madrugada se acende.  Nenhum deles percebe o que mais ninguém reconhece, a solidão dos homens, o silencio dos fracos.

Cidade

Quando a cidade me despenteia, largando as roupas pela madrugada, tecendo corpos pelo Temo e deixando pela calçada pequenos rastos de alma, perco me em todo o teu sentido. Ainda não te sei manhã...
Quando a cidade me despenteia, a madrugada me abraça e o corpo larga pela calçada
Pequenos traços de magoa, pequenos restos de lagrimas,
Não ficam desejos, nem se deixam sentidos, somos de onde estamos.

Em Lisboa não morro mas espero,
Até a cidade me despentear,
Até a tua mão me deixar.

domingo, 10 de novembro de 2013

Quebramos os Dois

Sou eu a ficar porque não sei partir e tu a ficares ao saberes partir, indo devagar para a distância imprecisa, não somos mais as crianças de ontem, eu a convencer que gostas e tu a dizer que não, tu a dançar pelas ruas de alegria e eu a esconder os olhos numa palma suada de medo, eu a afirmar que não se diz e tu a gritares a plenos pulmões que as palavras são dos homens e eles os donos dos seus ouvidos.
Quebramos os dois.
Eu desviava os olhos para não sentir a verdade, tu calavas na palavra a mentira, eu fugia do toque ao saber que me despia, tu a aproximares sabendo que a roupa na pele não é nada, o desejo é maior que as roupas, tu vinhas de manhã e eu queria a noite, tu sorrias e eu sonhava, em todos os dias, em todos os lugares...
Eu tirava-te os sonhos e tu criavas realidades, eu contava histórias e tu atavas cada uma, rezava para que ficasses, tu rezavas para que desaparecesses e ficavas enquanto saías, e quando partias não te tocava, não ficavas, só ias e contigo foi tanto.

Afinal, quebramos os dois, como crianças perdidas num choro compulsivo, é pecado que se deixe, é pecado não deixar,
Quebramos os dois afinal.

Depois do silêncio A madrugada

Depois do silêncio, o vazio, o inócuo profânico sentimento de voltarmos ao início, onde tudo começou, que tudo?, não faço a mínima ideias racional de que nome dar a isto, onde se encaixará no campo dos conceitos. Que sentimento inútil cabe ali, que palavra oca encaixa melhor, se adapta aos contornos obtusos disto... Porque raio existem palavras?, elas são aquilo que nós queremos que elas sejam. Se eu quiser, no alto cume da ignorância dos loucos, apelidar madrugada como o silêncio espelhado na ausência, a solidão inerente à ausência dos outros, estarei errado? Sou o meu dicionário senhores... Não me baseio em obras de outros, a minha bibliografia é o mundo inteiro e dele as sensações subjectivas apreendidas por mim, apenas isso, não é tanto?
O que faz este silêncio? Sede. Sede. Sede. Demasiada sede para a água que existe no mundo, um extremar de sensações plácidas que não se revêm na realidade dos homens, um querer altivo demasiado grande para sobreviver aos dias, um olhar demasiado perdido para te ver, estar morto ao querer viver tudo um pouco, não podemos, não devemos ter demasiada sede ou arriscamos perder-nos nos desertos da vida em busca de oásis que nem existem em sonhos.
Nada aqui faz barulho agora, não reside a mínima sensação de despertar, nem o som de um piano, nem um cheiro leve, nem mesmo o bater das ondas nas rochas altas da manhã me faz prender aqui. só no silêncio longínquo da madrugada poderei deixar a sede da humanidade. Aqui faz-se silêncio e eu tenho demasiado desejo da cidade para aqui ficar.
Irei perder-me até perder em mim a sede que não passa, encontrar um fogo calmo, sustentado, que me embrace na madrugada e me arranque dela aos pedaços corpóreos das sensações sonhadas.

Depois do silêncio a madrugada, talvez um dia me torne manhã!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Torga

"—Mas porque não deixa você de escrever durante uma temporada, para descansar? — perguntava-me hoje alguém. — Porque era a mesma coisa que um crente deixar de rezar um mês ou dois, por higiene." Miguel Torga

Se nos quedássemos no mundo das ideias, onde os corpos so se corrompem por palavras, ficaríamos sempre longe da alma que nos afaga. Apenas na distancia imprecisa das modalidades impróprias nos pudemos, nos criaturas da carne, construir sacrilégios maiores para tempos diminutos, onde possamos deixar marcas tão grandes como silêncios e vastidões tão grandes como o vazio.
É isto que nos impulsiona, a sede dos homens que vivem segundos, não os dias, não os meses, mas cada segundo condensado na brisa das arvores, cada instante com o sabor adocicado do medo, intensamente tudo no pequeno intervalo dos instantes.
Com isto pergunto se te quero encontrar, sei que se me quiseres estarei longe daqui, perto do mar, onde todos os instantes são vida e todos os momentos solidão, nas aguas do mundo e na sede dos homens.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Em três tempos de céu

Apartam-me os olhos para longe, mais um dia que se perdeu, fecho o baralho e guardo-o no bolso, não quero ver que tudo é maior aqui quando estás, não quero ver o sol que transpira de chuva por todas as nuvens que me pairam, o tempo passa e eu fugi. Aqui está frio demais para mim. O tempo dos silêncios ficou longe, onde se guardam as pequenas memórias, numa pequena caixa de segredos guardada num sótão.
Não sei largar mas também não sei dizer mais. Rasga esta escuridão latente em mim, abre tudo o que é nosso e deixa brilhar.
Tudo o que é meu, não sei largar, não sei perder, quero continuar eternamente à chuva a jogar, lavado na água, transpirando dor, o último a cair não vai perder, o último a cair não vai sentir.
Aqui, longe, há um espaço enorme à tua espera, basta vires jogar.

Há um dia em que todos os homens lutam, em que se enchem de sangue nos olhos e se revoltam pela humanidade que se perdeu. Há nesse dia uma nova raça que se ergue, sabendo que perdeu no tempo toda a razão de existir, deixou na margem todas as formas de luar. É o tempo dos chacais, onde espreita na noite a maldade, a injúria e um nojo de tudo, apenas tudo, desta escravidão reles que nos prende às coisas sem passar. É o tempo da ameaça, onde os homens se fazem deuses ou poetas, deuses altivos, morbidamente cansados e estupidamente poderosos, poetas tristes, sós, pelas multidões apagadas esperando por uma luz que só deles pode vir.
Esta é a noite em que os homens se transformam.
Este é o futuro daqueles que não choram.

"Nós somos, existimos" em cada pequena gota que escorre pelo corrimão e em cada mão que procura outra, no momento em que o olhar se cruza e o coração bate mais forte, existimos, onde nas ruas criamos o silêncio das coisas e nas fontes a água que vem na nascente, existimos, pelos comboios que perdemos e risos que soltámos, nas violentas horas que nos perdemos e nos suspiros juntos que partilhámos, nós somos, existimos.