Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Sem pé I

Perdi demasiado tempo, gritou aquela alma lá do fundo vestida de vermelho brilhante, sedoso, tipicamente trabucado, iria longe, não sei, mas levava me cosigo para o mesmo sítio onde desalmam os corpos sedentos de vazio, Não sentem isto também, não?, aquela mulher não se calava, se pudesse agarrava com os próprios dedos a alma e despia das roupas que tivesse tatuando o corpo de tudo o que sentia. Começou a correr. Eu corri. Aquela imagem perto do cais quebraria muitos ecos descontraídos, duas pessoas velozmente separadas corriam para nenhures com a intensidade de quem descobre países em cada esquina e cria mundos em cada passo largo, o tempo nao mente nestes casos, o aviso era o ultimo e a corrida a primeira de todas elas.
Há que ir mais longe, mais rápido, fugir a percariedade prolixa da rede humana que nos compreende entre dois tectos, o que somos e o que verdadeiramente pudemos ser. Se nos víssemos ao espelho naquele momento estaríamos transparentes, sem qualquer humanidade que se pudesse reflectir em peças trabalhadas pelo homem. Fica mais perto. Que norte, não queríamos o norte, queríamos o caminho e como nunca o encontramos corremos em busca, nao do caminho, mas do horizonte sem fim, onde juntos pudéssemos ser mais, onde juntos nos calaríamos nas palavras. Sem sentimentos. Sem a razão. Verdadeiramente vazios, prontos para beber no mundo a sede das florestas e o voo livre dos oceanos.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Mãos Abertas

De todas as circunstancias vulgares não nos resta memória nem mesmo sede de algo, não obstem em nós o momento de recordação, esquecemos de ouvir aquele som, passageiro, ido no vento como uma emoção vazia, um torpedo de nada que se lança no vácuo. Perdemos assim fragmentos da alma, pedaços circunscritos de nós que nos deixam no ar, levando e dançando ao vento.
Abre as mãos, vê nelas cada traço perdido, cada linha entorpecida e erodida pelo tempo, sente cada calo e cada dor que por aí passou, cala em silencio messe momento. Traz contigo a saudade do tempo em que eras criança e, com exactamente os meus sulcos calcificados em cada mãos, brilhavas com o olhar perante o vislumbre do poder das tuas pequenas mãos salvadoras de luas e criadoras de castelos, objectos totipotentes de criação divina.

Hoje nada mais são que um rasto vazio do deserto em que nos tornámos.
Pequena recordação do tempo que perdemos sempre que perdemos tempo.


Maresia

Reza no mar que as palavras nos beijam, torturando os nossos doces lábios com o sal de muitas esperanças vãs, circundando cada porção de carne de um desejo loucamente ardente de desgosto, de colorir a sede com cores vivas e cobrir de tectos os oceanos do mundo, só para poder, só por poder, escrever em cada Madeira, torturar cada distracção das tábuas e cada papel abandonado, os silêncios que nos vêem abraçar contra o mundo. 
Caso um dia consigamos transpor em risos os olhos que nos tocam, circunscrevendo com letras reveladas o toque que não vem, nas noites que brilhas, elevemos a lua a eterna criança que há em nós.
Neste pequeno mar sem sim onde me cruzo, as ondas vêem de longe, profundas, decalcadas na areia em cilindros estáticos, queria aqui ser como vós, vir de longe rodando imenso, debruçando sobre o mundo toda a alma imensa que não a tenho. Perder a humildade dos audazes, fazer tsunamis pelo mundo, rir na solidão e desprezar a maresia com ar de quem hirto se aguenta ao vento.
Hoje não! No fim do dia perdemos na forca a distancia imprecisa do luar, as palavras ganha, novos contornos e o preto ganha escuridão. Enquanto o mar toca nas pedras roliças que o assistem, vejo no seu reflexo que não me vejo, não tem rosto o sol que não brilha.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Sonhos dos Outros

Há quem viva consigo na esperança irreduta de chegar à altura dos deuses, esperando uma panaceia inglória de vastas palmas e olhos sôfregos de admiração, uma perdição celestial de quem nutre vazios por dentro, incalculando miraculosamente com souvenirs estrangeiros ou estados de espírito simplesmente passageiros. Os sonhos dos outros a nós nos dizem nada, a podridão de quem passa só nos deixa miragem a quem fica. Pela noite dos audazes caminhemos desinteressados esperando que pela aurora nos seja entregue não a glória, não o céu, mas simplesmente sede, mas simplesmente fome, mas simplesmente esta angústia de querer, algo que nos faça simplesmente sentir. Não precisamos de ir além nem de sonhar o que não nos pertence, deixemos ir o comboio e passeamos descalços por cada pedra rolante, ferindo a cada passo uma existência que não se queima jamais.
Deixemos os outros sonhar enquanto os nossos sonhos não cabem na noite,
Serão sempre eternas manhãs de luz.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Nada de mim me sobra

Depois de despido da razão imensa glorificadora de distancias longínquas e desencontros perenes, morre se de sonhos numa solidão grave, destruidora, que nos perpetua num espaço oco e vazio circundados de morte e desejos por cumprir, depois de me tirada a razão nada me sobra, nem lamentos, nem murmúrios vagos, vazio de desejos crepitantes e margens por cumprir. É teu também este vazio, de ti só me ficam lembranças em sopros de vento que me trucidam em cada segundo, agonizantemente trespassado pelo vento do norte.
Seguidamente de nos tirada a razão e de constatarmos a lucidez que sem ela nos invade, desejamos um novo espaço, cansado, com palavras, com desejo, com o fumo dos bares onde nos sentamos e as mesas que nos ouviram inundar de espasmos os pequenos gestos que nos traziam a madrugada. Por nós lançada na estrada, pequena, desamparada, desencantada de génios mais altos mas que mesmo assim brilhava sem ninguém ver, só nós que sabemos gritar de dor.
Entrelacemos as mãos, inocentes criaturas da noite, saibamos que nesta cidade fomos loucura, fomos espaço cumprido e sonhos de lume ardente onde tantas vezes os corpos de confundiram em chamas escarlates alcançando o céu em nevoeiros e neblinas. Chegamos mais além, sabe os que ainda iremos rasgar a solidão que nos fixa extinta a madrugada, mais longe, sem nunca esquecer o latente desejo de nos perdermos juntos.
O penúltimo estagio, estagnar a bonança do povo orgulhoso e saudosista, vencidos de guerra e soletradores de mortes, eternos escravos da bonança, jamais idos nas viagens do tempo pois estão estancados em mundos novos que já não os há. Aqui perde se a esperança de ter sangue para ferir, de ter rasgos na pele que testemunhem a luta. Somos ar e temos fome de voltar onde os corpos de principiam, atrás das nuvens dos deuses, além no mar perfeito.
Por fim, pelo medo e pela bondade, nos chega a manhã. Contra o tédio e a poesia, nascemos juntos, pela liberdade, criada a claridade de toda a nossa verdade, sabemos dizer sim, sabemos sair juntos da maré cheia, fragilmente renascidos por dentro.
Já não há o desencanto, lutamos contra o medo e a anarquia, contra a opressão e o milagre, sabemos que mais que a razão temos todas as manhas da vida para renascer e dizer sim!


terça-feira, 6 de agosto de 2013

Nocturno I


Estava escuro quando saí do trabalho, laça pelo cansaço de horas programadas a rigor científico num escritório sujo e desbarato, com um inianável cheiro a moço que inundava de suor quente e de noites de insónias. Inquietamente pisei a calçada que me levava ao eléctrico com destino ao meu porto seguro e isolado, morbidamente habitado por um gato que de tão pouco miar me compreendia as vísceras frias das noites que partilhávamos sozinhos. Os meus passos ecoavam com os de outro alguém, ao mesmo ritmo compadecendo nos mesmos instantes, que nem relógios atómicos programados para reluzir ao mesmo instante, criando eternamente no futuro, um similar presente. Um pâncio absorveu-me. Não um pânico de girtos e contorcimentos corporais, mas uma onde de mágoa e de lágrimas que me fizeram temer por cada instante, em cada inspiração mais pesada e cada passo menos hirto. Placidamente segui o meu caminho, agarrando a mala junto ao coração, só ele me protege, passaram por mim, sem mais ninguém as ver, todas as pessoas que dali me poderiam levar. Vi os sorrisos da minha infância, onde na pequena aldeia onde habitava me traziam água e me davam felicidade.
Aproximou-se. Os passos tornaram-se mais lentos...compassados... Parei e desisti... Não me sabia a nada o ar, não me enchia em nada cada toque terno que me davas, não era mais nada senão um corpo vazio, um cadáver podre, proscrito pelo tempo, vagueando ensamble pelas noites esperando ver em cada manhã um sol que nunca veio. Que sentido nos fica quando os nossos se perdem na noite?
Abri os olhos pela última vez e apertei-os forte abraçando as pálpebras cometendo o crime de ousar desistir enquanto os passos paravam ao mesmo tempo que eu, enquanto a respiração se quedava ao mesmo tempo que a minha, ao mesmo tempo que a lua sombreava o mesmo rosto que o meu numa montra velha de uma livraria já feita história. Aí vi, o meu grande perseguidor sou eu mesmo, eternamente sozinho comigo pelas ruas de Lisboa até um dia desaguar no teu cais.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

De mochilas vazias se criam viagens

As viagens que criamos, por pouco longe que fossem, saudavam nas vistas a infinita miragem do progresso, uma ideia de crescendo espiritual que nos remetia para uma nova era, onde os corpos era receptáculos recíprocos, interagindo com o mundo da mesma forma que ele os integrava na sua constância plácida.
Quando tudo pára, começa, em edifícios com espaços verdes, onde gritos nos evocavam, Nós não ligávamos, demasiado dentro do mundo para os ouvir, e juntos partilhámos o olhar aceso de quem incendeia de pensamento com a força da interrogação perplexa. Que a gente alta, pasmada de cegueira branca, trucidada em correntes de aço, presa pelo tempo gasto dos navegadores, passe por baixo de todo o nosso desprezo enquanto juntos gritamos ao vento que somos livres. Era a nossa maneira de sermos juntos, apenas, paralelamente estranhos, vendo como quem olha para a eterna novidade as novas terras da nova era, aí, esperas até ao fim para dizer adeus? Naquele tempo a viagem tornava-nos iguais, nem os sonhos descontíguos, nem as vozes roucas nos rogavam pragas de longe, era uma nova inocência, sabida, corajosa, ousada e livre, mas com o espírito suficientemente infantil para se deixar consagrar na virtuosa beleza da natureza e do pensamento que dela flui, pois da nossa mente luzia uma eterna luz que nos impelia em frente, sem direcção definida nem pressas de tempo, indo, sem saber porquê, mas uma e outra vez nos víamos juntos em viagens que não aquelas, porque éramos mais.
Esperámos pelos momentos de solidão para dizer que as nossas mochilas estavam vazias, sempre, porque apenas nosso era o caminho, apenas da viagem vinham recordações, não precisamos de levar mais nada quando queremos trazer connosco pequenas lembranças de grandes mundos.


Não esperes pelo fim para criar começos.