Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

terça-feira, 27 de agosto de 2013

O mundo são portas por abrir

A minha casa é só portas pelas paredes, nem um pequeno rasgo de luz nela entra, não se ouvem miragens de vidas nem subsiste nela a voz dos outros. Há em mim o desejo de fechar do mundo o proprio mundo que criei. Um fracasso. Um dia, depois de encher o estômago com iguarias mil, olhei para o fundo da rua, deslumbrando com a quebra do olhar quem comigo ia, que o nosso transporte se ia também. Falhamos a vida, Já li isto noutro tempo. E com ela falhamos tudo o que havia a falhar. Não criamos um mundo nem conseguimos melhor este que nos habita, incapazes de abrir janelas, fechamos portas e criamos vazios em espaços que ja ninguém habitava. Com isto deixá-mo nos seduzir pelo silencio até que perdemos a voz que nos deixava gritar.
Leva com o vento o resto de mim, pequenos farrapos de poder, pequenas trocas entre mim e eu, nunca ficando mais que nada, nunca perdendo algo que não tudo.

Pelas portas ouve se o vento de fora, os carros que passam e as pessoas que nascem, dentro delas existo, mentira, subsiste, vegeta, principia no fim de si mesmo, um ser que não sei quem é. Como janelas não as há fiquemos pela curiosidade de quem um dia diz que ouviu dizer de alguém que não conseguia ver, que ali entrara alguém, simplesmente por ali havia ficado.
Não se sabe quanto, não se sabe porquanto, apenas reza a história que falhado da vida se entornou nas portas, esperando contudo um dia ter forças para nelas criar labaredas e enchentes de fogo nos céus do mundo, esperando contudo um dia ser sonho mais forte que este que perdeu a força de sonhar.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Os Bichos

Deixa me no silencio das escadas onde nada se mira senão o proprio silencio contorcendo se de pasmos dolorosos a cada volta que torce sobre si mesmo. Passam por mim baratas rastejando nas cadas de Madeira pútrida onde me sento, bichos de nojo, repugnos da decadência humanista em que caimos no dia em que nos pariram, raivas milagrosas de um santo que mal via, pequenas almas de alguém que só voa se partir a asa de outro bicho que tal.
Comem se inteiros noutro canto, uma aranha gorda outra mais pequena, indefeso, sem armas, sem voz que pedisse, Acudam que não posso mais, sem mesmo os braços que não esperneiam pelo ar como bastões loucos ao vento, come e deixa se ser comido ao entrar nas entranhas de quem comeu, deixa se ir porque sabe que o seu tempo morreu.
Noutro dia que não esta, residiam aqui duas rolas, pequenos bichos barulhentos que esvoaçam o pó pelo ar, pequenos espanadores sem tino ou controlo, inquietas, parecendo sempr escalar uma com a outra, vizinhas apostólicas da eterna Lisboa sem assunto extra senão os assuntos nos outros. Um dia, juro que um dia, ouvi, e juro que ouvi com os ouvidos que me não deram, sussurarem em altos modos que a rola do quinto esquerdo tinha caído de um telhado empurrada pelo marido que batia de aflição por ter sido apanhado a voar com mais que um pássaro na mão, de uma vez, a pobre coitada desviou o olhar e caso não fosse caso de criar vasos na rua do outo, partilhou se a dor com a asa partida e toda a garret assistiu calada ao esforço inútil de cair de pé.
Por fim, no castanheiro do bar do Carlos reside um pequeno morcego cego da noite, não há milagre nem álcool que lhe encha de sangue a visão e o faça ter na cara as vistas de fumo que lhe entram no pulmão.

Fosse Lisboa so zoológico e residiríamos  em paz nas jaulas do mundo, zoológico ja o é, jaulas ainda as não tem.

Ninguém disse

Ninguém disse que seria fácil olhar o sol de frente ou boiar em aguas pouco profundas sem marcar as gostas com o grosso arranhão de quem por baixo imóvel se vê sedento de sangue, ninguém disse que seria fácil inventar o luar quando nós mesmos perdemos toda a luz, ninguém disse que nos perderíamos se um dia nos quiséssemos encontrar.
E agora se partirmos cada um para sua parte nunca saberemos o que um dia podia ter nascido, sabemos apenas que de quimeras nao se faz historia e que a luz nao reside em nós, seres da escuridão. 

Voltamos ao inicio, cada um consigo mesmo e a solidão com todos nós...

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Sem pé I

Perdi demasiado tempo, gritou aquela alma lá do fundo vestida de vermelho brilhante, sedoso, tipicamente trabucado, iria longe, não sei, mas levava me cosigo para o mesmo sítio onde desalmam os corpos sedentos de vazio, Não sentem isto também, não?, aquela mulher não se calava, se pudesse agarrava com os próprios dedos a alma e despia das roupas que tivesse tatuando o corpo de tudo o que sentia. Começou a correr. Eu corri. Aquela imagem perto do cais quebraria muitos ecos descontraídos, duas pessoas velozmente separadas corriam para nenhures com a intensidade de quem descobre países em cada esquina e cria mundos em cada passo largo, o tempo nao mente nestes casos, o aviso era o ultimo e a corrida a primeira de todas elas.
Há que ir mais longe, mais rápido, fugir a percariedade prolixa da rede humana que nos compreende entre dois tectos, o que somos e o que verdadeiramente pudemos ser. Se nos víssemos ao espelho naquele momento estaríamos transparentes, sem qualquer humanidade que se pudesse reflectir em peças trabalhadas pelo homem. Fica mais perto. Que norte, não queríamos o norte, queríamos o caminho e como nunca o encontramos corremos em busca, nao do caminho, mas do horizonte sem fim, onde juntos pudéssemos ser mais, onde juntos nos calaríamos nas palavras. Sem sentimentos. Sem a razão. Verdadeiramente vazios, prontos para beber no mundo a sede das florestas e o voo livre dos oceanos.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Mãos Abertas

De todas as circunstancias vulgares não nos resta memória nem mesmo sede de algo, não obstem em nós o momento de recordação, esquecemos de ouvir aquele som, passageiro, ido no vento como uma emoção vazia, um torpedo de nada que se lança no vácuo. Perdemos assim fragmentos da alma, pedaços circunscritos de nós que nos deixam no ar, levando e dançando ao vento.
Abre as mãos, vê nelas cada traço perdido, cada linha entorpecida e erodida pelo tempo, sente cada calo e cada dor que por aí passou, cala em silencio messe momento. Traz contigo a saudade do tempo em que eras criança e, com exactamente os meus sulcos calcificados em cada mãos, brilhavas com o olhar perante o vislumbre do poder das tuas pequenas mãos salvadoras de luas e criadoras de castelos, objectos totipotentes de criação divina.

Hoje nada mais são que um rasto vazio do deserto em que nos tornámos.
Pequena recordação do tempo que perdemos sempre que perdemos tempo.


Maresia

Reza no mar que as palavras nos beijam, torturando os nossos doces lábios com o sal de muitas esperanças vãs, circundando cada porção de carne de um desejo loucamente ardente de desgosto, de colorir a sede com cores vivas e cobrir de tectos os oceanos do mundo, só para poder, só por poder, escrever em cada Madeira, torturar cada distracção das tábuas e cada papel abandonado, os silêncios que nos vêem abraçar contra o mundo. 
Caso um dia consigamos transpor em risos os olhos que nos tocam, circunscrevendo com letras reveladas o toque que não vem, nas noites que brilhas, elevemos a lua a eterna criança que há em nós.
Neste pequeno mar sem sim onde me cruzo, as ondas vêem de longe, profundas, decalcadas na areia em cilindros estáticos, queria aqui ser como vós, vir de longe rodando imenso, debruçando sobre o mundo toda a alma imensa que não a tenho. Perder a humildade dos audazes, fazer tsunamis pelo mundo, rir na solidão e desprezar a maresia com ar de quem hirto se aguenta ao vento.
Hoje não! No fim do dia perdemos na forca a distancia imprecisa do luar, as palavras ganha, novos contornos e o preto ganha escuridão. Enquanto o mar toca nas pedras roliças que o assistem, vejo no seu reflexo que não me vejo, não tem rosto o sol que não brilha.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Sonhos dos Outros

Há quem viva consigo na esperança irreduta de chegar à altura dos deuses, esperando uma panaceia inglória de vastas palmas e olhos sôfregos de admiração, uma perdição celestial de quem nutre vazios por dentro, incalculando miraculosamente com souvenirs estrangeiros ou estados de espírito simplesmente passageiros. Os sonhos dos outros a nós nos dizem nada, a podridão de quem passa só nos deixa miragem a quem fica. Pela noite dos audazes caminhemos desinteressados esperando que pela aurora nos seja entregue não a glória, não o céu, mas simplesmente sede, mas simplesmente fome, mas simplesmente esta angústia de querer, algo que nos faça simplesmente sentir. Não precisamos de ir além nem de sonhar o que não nos pertence, deixemos ir o comboio e passeamos descalços por cada pedra rolante, ferindo a cada passo uma existência que não se queima jamais.
Deixemos os outros sonhar enquanto os nossos sonhos não cabem na noite,
Serão sempre eternas manhãs de luz.