Balelas (ou não) da Rua

Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra

terça-feira, 7 de abril de 2026

A palavra mata

 Há palavras que não saem pelo peso que têm, deixam-se cair na garganta e afundam-se no profundo corpo, têm peso, são camadas densas de coisas sem nome, são as que mais querem sair, bebem ar, exigem oxigénio, quanto mais se revoltam, voltam, para sair, mais se afundam, são as palavras que crescem ao contrário, de dentro para fora, do coração para a razão, são as palavras sem nome, são as pessoas sem ar. A palavra mata, não aquela que sai, a palavra que fica é a que mais mata, afundam o corpo por dentro, consome o ar que se inspira, afunda num lago que não existe mas que comprime o ar que deveria entrar. As palavras que ficam são as que matam, são as que tiram a vida sem a tirar, comprimem e oprimem devagar, apertam no peito e ficam maiores, são as que apertam cá dentro, crescem por dentro, ficam cada vez maiores, insufladas, cheias, gordas, por muito que cresçam cabem sempre, por muito que aumentem ficam por dentro.

A palavra mata.

Eu respiro sem ar.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O silêncio salva

 Noutro lugar deste mundo, longe de mim, anoiteço no meu corpo, morto, apagado da vida, apagado da luz, nunca teve com calmo, nuna teve tão escuro, quer começar do início da vida, fora do útero, dentro das amarras, perceber os erros dos caminhos e ter a distância deles, pedir ar quando sufocoa, pedir asas quando cai, pedir voz no silêncio e cara no gesto.

Quero anoitecer noutro corpo, noutra vida, bem longe, no tempo e no espaço, erceber de que rios são feitos os meus olhos, de que searas se faz o tempo, de que verde é a esperança, que toque tem o amor, que paz tem o ruído, saber nos cantos redondos do mundo o que sou e para onde vou, tirar de mim este desejo contante de estar longe da vida, trazer ao corpo a dor imensa de ser eu,, projetar-me no que quero, não o que eu quero, somos dois na mesma pele, dois silêncios diferentes no mesmo quarto escuro, dois olhos que se miram sem perder.

Sou um espelho de mim que não se reconhece, vejo os dedos dactilografar estas letras perdidas e minhas não as são, deixam-na ir, também não são dele, são apenas acasos caos que renascem no vazio do papel, na dor imensa do espaço vazio que se ocupa de escuro, um recomeço de dois que não o são, que não sobrevivem um sem o outro, que não vivem enquanto estiverem juntos.

Quero-te arrancar de mim, quero-me arrancar de mim, apagar a sombra que sou, deixar-me vazio.

O silêncio salva a alma que se perdeu. A minha fica aqui no ruído da solidão que somos nós, eu comigo.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Algo Mais

 Conta o silêncio do mundo que extravasa esta sala vazia, olho para o canto, avanço para a varanda escura, sinto o frio tactear-me a pele, abraçar-me os ombos, estou sem roupa, sem pele, estou à espera de algo que me faça sentir, que não seja cedo, que seja algo, mais, algo mais, vejo ao fundo as ondas do mar, uma orquestra adormecendo, não faz silêncio, não faz barulho, não vem em paz e não traz fé, larga-me, deixo-me abraçar uma vez mais pelo silêncio e pelo frio, gostava que fossem sal+icos penso, gostava que fosse sal, que me ardesse na pele de fora como arde na pele de dentro, que o peso que temho no peito de dentro fosse o peso do peito de fora, durmo só, que quem me agarra nos pulmões de dentro, me empurasse a fé por fora, me expirasse o medo e me soprasse a temperança, ainda pode ser cedo, preciso de algo mais.

Então deixei-me ir, abracei-me por dentro e por fora, cumprimentei a alma que me foge e vai ao mar, não é cedo, aceito quem me aperta por dentro e quem me queima a pele que não é beijada pelo frio.

O peso do mundo...do meu mundo, do meu corpo, o peso que está dentro e não fora. Curioso como o frio que sinto na pele de fora não é nada comparado com o frio que tenho na pele de dentro, precisava de algo mais, que me desse equilíbrio de dentro para fora, que me deixasse adormecer na névoa, me fizesse silêncio de dentro, por muito silêncio que haja fora, muito espaço que tenha esta varanda vazia, estou apertado, não tenho espaço, não tenho tempo, tenho os sons todos do mundo presos nos meus ouvidos, as ondas todas do mar nos meus olhos fechados.

Precisava de algo mais, que fosse menos dentro, que fosse mais de fora...é tarde para quem perdeu o tempo dentro de si.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Sem distância

 Longe vai o tempo que o carro is cheio de estranhos, a madrugada era fria e o destino é o mesmo, já não somos estes que aqui se sentam, o nosso olhar não é o mesmo, o destino mudou, mas ainda sei quem são estes dois, ainda tropeçam um no outro, todos os dias, em pensamento, ainda sabem o lugar um do outro, sem se ver, sem se tocar, há uma memória bonita, de futuro, a melhor delas. 

Vamos juntos pela cidade, não importa quantas vezes, caminhamos de mãos dadas sem nos tocar, crescemos aqui no coração um do outro, sem por fins no caminho, sem deixar silêncios por dizer, será que ainda nos conhecemos?, sim, sempre, o tempo passa e não esquecemos, quem fomos, quem somos e o que seremos, o nosso doce coração fica no mesmo lado da memória.

Sempre que me lembro, lembro de ti, sempre que cresces, cresço contigo, se a tua alma transborda eu serei o vaso que a guarda, se o teu sorriso trespassa, serei o espelho que a guarda, se a lágrima cai, estarei lá para a guardar como um tesouro, cuidar, proteger, ainda nos lembramos de nós.

Quando um dia voltarmos àquele autocarro cheio, velhinhos talvez, enrugados, saudosistas, teremos esta longa história, esta família à nossa volta e uma memória que ainda existe, ainda sabe quem é.

Até lá, ainda agradeço a tua voz e o teu abraço. Até lá, guarda o meu carinho e amor, que eu não consigo deixar longe de quem colhe a madrugada. Nesta cidade e nas outras, no mundo grande que nos sustenta, onde crescemos hoje, onde eixstirem fins e começos, onde existir lembrança e esquecimento, tempo e espaço, seremos, enfim, parte doce do mesmo coração, abraço quente da mesma memória.

Sempre.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Irritações

 Li uma vez " assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa: uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual." e pergunto-me se sou este que aqui estou. 

Há na memória a irritação que vem de um olhar triste, da memória que existe, o fumo que sobe pelo peito e se perde na ausência, tropeço e não me alegro, deixo ir sem o tratar. É aquele fumo que me recorda de todos os momentos, todas as falhas e a falta de me faltar.

Quando a mão se perde e não consegue agarrar, quando a sinceridade não vem no vento, quando a palavra se perde no momento, quando não consigo chegar, quando a dúvida subsiste ou se algo eu pus fim, tu vens e abraças-me por dentro, percorres o âmago de dentro e não sais, ficas, rebolas e reviras, deixas-te fermentar sem que eu te consiga olhar nos olhos e dizer adeus.

Será que um dia nos cruzaremos, nos deixaremos passar, será que tu me conheces?

Será que um dia te olharei como amiga, um doce coração, me dirás se sabes ou não o que eu não vivi.

Ouço um dia mais o silêncio, o único som do vento que me trespassa, minha doce irritação, obrigado por vires, ainda te lembras de mim?

Gostaria de aprender a andar, contigo a meu lado e não em mim, onde perdesse o medo de te ver, que crescessemos fortes, lado a lado, cada vez mais longe, que não perdesse a força por não te ter, que não perdesse a força por te ter tido.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Velocidade

 Desces pelo Chiado, passas por Pessoa, cais e esfolas o joelho, levantas, com o dedo molhado nos lábios gretados passas pelo joelho esquerdo, queima pouco, tem pouco sal, que sorte, que azar, pelo menos passará rápido com o néctar que é a tua saliva, levantas, ajeitas a roupa, a camisola desce mais um pouco, os calções ajeitam-se rentes aos joelhos, um deles ferido, o outro resiste enquanto espreita a sorte, voltas e danças pela rua abaixo, não trazes hoje os nós da alma, a vida é caos, é um abraço do destino ou uma chapada do azar, tal como na queda, fintas o destino na ignorância da cegueira, o teu controlo finda na dança que queres prendar a calçada deste Chiado que não te pertence mas é teu.

Entras em velocidade naquela descida, vendo os azulejos a reluzir o sol que hoje beija também com calma, sais para dançar, rodopias, olham para ti e rodas ainda mais para ver se os olhos dos outros também gira e se voltam para dentro, há muito por ver, muito mais nos dentros das pessoas do que nos tetos deste que dança.

Velocidade, é a nossa dança.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Colo

 Preciso de falar contigo, não sei onde estás e muito menos quem és, quem poderás ser, estou a sós, de luz trancada e de silêncio ligado, calado na voz, olhos carregados de mar, folgando os nós das roupas, das almas, deixo transbordar de mim as datas e as contas, as dores e as memórias, tentanto ficar de mãos vazias, não consigo, quando quero falar contigo não sei onde estás, não sei quem és, aceito a dor e com ela nada faço senão mirá-la, observá-la, com calma, plácido, ammaso-a, viro-a, rodopeio e ela nada faz, cresce, lambo-a, nada, abraço-a, vejo-me tristonho nela, acho-me medonho nela, nada acontece. E se eu quiser falar contigo, não sei onde estás, nem sei quem és, aventuro-me sozinho à tua procura, subo ao céu, desço ao inferno, sem cordas, arrasto-me nas paredes calcárias, digo adeus às esquinas que cruzo, dou as costas a todos os caminhos, a todas as estradas e não vou dar a nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, que eu possa segurar.

Não preciso de falar contigo, nem sei onde estás e muito menos quem poderias ser. Sei que precisava do teu colo e do teu silêncio, saber que tudo iria correr bem, mesmo que continuasse perdido sem nada ter de encontrar.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Ilha

 Já tentei mudar, por um sorriso no rosto, um abraço apertado no corpo, tentei ser bom, ser melhor, mas acabo no mesmo espaço, tentando ser diferente, mas será que sou apenas um ator, gostava de ser perfeito mas não sou daqui, envio sinais de fumo, ninguém vê, na ilha onde estou já não sinto o sol, o sal do mar não me arde, não me cura, estou demasiado longe do centro, não sinto a areia nos pés nem a brisa na face, não há arranjo para quem nasce desassossegado.

Se tivesse menos espinhos num corpo, ou uma pele mais lisa nas mãos, sem os sinais do tempo, sem as linhas da destruição, passaria no rosto de quem se avizinha, aproximava de quem está perto, o mais dificil é saber quem sou e que não há solução para quem solucionado está, não há alturas para quem nasce baixo, não há espaço para quem não ocupa lugar, somos diferentes e eu não tenho arranjo.

Pego num barco a remos improvisado, com as madeiras do corpo, os braços da alma, sei quem sou e isso é o mais dificil, não tenho arranjo, não sou daqui, grito ao vento num soluço baixo, dou mais sal ao oceano e arranco, não sei para onde, não sei porquê, sei que não sou daqui.

sexta-feira, 28 de março de 2025

Sem som

 Quero escrever em silêncio, penso ser a primeira vez que, aquando do processo de deixar cais palavras numa folha branca, não tenho um som a abraçar-me no fundo, precisava do silêncio hoje, de sentir apenas as teclas eclodirem nos meus ouvidos, o som mecânico, factual e frio que vem da máquina, não do homem, não da inspiração divina ou de outra coisa qualquer. Fico desconfortável, já não escrevo muito, perdi no rasto dos anos o resto das palavras que guardava para mim, para ti, deixa-as ir por falta de uso. É o que acontece certo?, perdemos o que não usamos, deixa-nos o que não nos faz falta naquele momento e é muito mais dificil conquistar do que perder, pensariam assim os guerreiros dos outros tempos? As palavras foram-se no silêncio e hoje, acho, esperava que o silêncio trouxesse de volta as palavras, as minhas, não as das músicas e dos poetas que, usualmente, habitam no meu fundo e me usam como uma marionete seca para escrever o que sinto e o que penso, no silêncio poderia voltar as minhas, as minhas, palavras, os meus, os meus, sentidos e sentimentos que me preenchessem novamente, arrancassem este vazio grande e claro que me tolda os olhos e me aperta a alma. Não aconteceu, não vieram, deixaram-me com o som mecânico das teclas, com o silêncio da sala e da alma e, uma vez mais, com os olhos secos de quem perdeu a força de chorar. A facilidade com que saem as letras não coaduna com a dificuldade que há em lhes empregar sentido, em lhes dar cheiro, não para outros que poderão, ou não, sentir algum leviano com o passar dos olhos pela tinta preta digital empregada gratuitamente aqui, mas para mim, para que possa sentir o cheiro da alma nas teclas que carrego sem grandes forças, sem grandes sentidos, num vómito inglório de quem tenta trazer a si algo que não tem mais dentro. É isto que nos traz o mundo de hoje, o mundo dos crescidos, uma atuação mecânica e óbvia dos sentidos e das rotinas, do digital e da proximidade longíqua de quem se trata por tu atrás de ecrãs, é isto que deixámos nos campos de Caeiro, abandonados e verdes, verdades, que tratam a solidão por tu de uma forma muito melhor do que nós a tratamos por nós.

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Sorriam

 Aprendemos tanta coisa na jornada e nos dias, queremos contar tanta coisa e viver ainda mais, sonhar e transladar para o real, o toque, o som, o silêncio, o toque é menor do que a vida, aprendemos a ver os perigos das esquinas, os sorrisos tortos na sala, os sinais fechados aos jovens e os beijos guardados para a lua. Fizeram-se braços, abraços e lábios, vozes e murmurios, silêncios, perguntas-me pelo meu caminho e respondo sem som, fico por aqui, neste canto calmo, nesta estrada segura, com as feridas vivas do meu corpo, com os laços presos no meu espírito. 


Aprendemos tanta coisa na jornada, põe-te direito, engole a dor, faz tudo o que tiveres que fizer, sê o mesmo que eras, muda para o que tens que ser, vive, não vivas, guarda, separa e liberta, engana nas aparências, vislumbra os vultos, desaparece e aparece, diz que estás fora ou grita que não saiste de dentro, ama o passado, apaixona-te pelo futuro.


Aprendemos tanta coisa na jornada, ideias, consciência e juventude, deixa-te guardar por deus, culpa-o pela dor, abraça pelo espinho, apesar de fazer tudo o que fizeres, és o mesmo.


Aprendemos tanta coisa na jornada mas quando a câmara aparece e a foto se prepara, sorri como te manda a voz que se esconde no obturador, sorri com os lábios, os olhos, esses, podem abraçar as lágrimas que ainda não podem sair.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Quando for (Quero ir assim)

 Deito-me no sofá, sem cobertor, sofrendo um pouco do frio nas mãos e no nariz, a minha respiração é mais pesada, como se pó tivesse mudado para os meus pulmões e lá fizesse casa, cidade e campo. A respiração pesa, cada bafo singelo de ar que entra percorre uma imensidão farta de pouco espaço até conseguir chegar ao seu destino e de lá voltar, pesado, sujo, lento. A mão é pesada, não por peso mas por falta dela, por falta de força e, talvez, pelo frio que me invade. Não está frio lá fora. Está frio cá dentro. As rugas que se entrelaçam nas pequenas manchas castanhas da mão, estão salientes, não pulsantes, salientes, como rios invertidos com a sua base no topo da pela, revoltos, entrelaçados. As unhas são pálidas, cansadas de tanto terem feito pelos anos, a pequena luz da janela ao longe permite ver as quebras que lá estão, que cá ficam. Não têm brilho, não têm tamanho, têm sítio onde pousar, isso já é tanto, demasiado, para tanta, demasiada, gente. Pouso a cabeça na almofada, sugeringo um descanso, deixo-a ir, encontro a posição, rodo, empurro, puxo com ar o espaço, até chegar ao mínimo desconforto possível. Estou. Vou.

Vejo que te aproximas e te sentas no chão à beira do sofá. Olhas-me sem expressão,  olhos caiados de sal, ficando baço na expressão e hirto no corpo. Estás tenso. Não é hábito teu estares assim, tens um corpo fluido, das poucas vezes que te vi, que te encontrei numa esquina mais sombria e me olhaste com desprezo, não era hora de falarmos. Hoje estás mais próximo, vejo que queres falar e não consegues, que queres entir mas não podes, não és o protagonista deste momento, talvez sejas dos próximos, és de certeza dos próximos. Agarras a mão, não é aquele agarrar forte que vemos nos filmes, é um pousar da minha mão na tua, um enlace sem prender, que me deixa a mão fria, mas serena.

Se me perguntarem se quero ficar mais quente, uma manta talvez?, direi que não. Se quero mudar de sítio, as forças faltam e o desejo não assiste, hoje quero isto. 

Agora espero. O ar entra e sai, com mais força, mais esforçado, mais devagar, diminuindo as passadas como se de uma pauta se tratasse e o seu fim estivesse próximo, deixa ir, a música baixa, não acaba, eu não sei quando acaba.

Quando for hora, quando for a minha hora, quero ir assim, sem gente, só eu e tu que me olhas vazio, abraçando uma última vez, sentido um último suspiro. Quero ir assim, sem gente, só nós, acolhe-me e deixa-me sonhar a derradeira vez com campos secos e sobreiros solitários em planíncies de sol morno. Quero ir assim. E vou.

sexta-feira, 15 de março de 2024

Dormir

 O carro continua a andar com destino a casa, passa pelos semáforos sem ver a cor, olho para as nuvens sem ligar à estrada que se encurva à nossa frente, mas ele concorre às leis da física e levemente segue o caminho do alcatrão, deixo-me ir, sem perceber muito bem o movimento das minhas mãos, o toque pesado, agarrado, sofrido, dos dedos ao volante de pele, que sua, que sangra, que sente tudo o que sinto por cada milímetro quadrado de toque. O banco sente o meu corpo enrijecer, cada músculo contrai, cada lágrima cai no assento que me sustenta, cada pingo leva consigo um pouco mais da minha alma que se corrói com o dia a dia destes dias. Vou inerte, gás químico sem expressão, carro rápido sem solução, contorna e vira, acelera e trava com soluços perdidos que ninguém percebe. As pessoas olham para aquele carro preto, não descontrolado, não rápido, apenas inconstante, não cumpre as regras da estrada mas igualmente ninguém ofende, anda apenas, sem grande preocupação de fora, ela está toda por dentro, abarançando, agarrando e suando o corpo que nele habita por enquanto, agarra-o e soluça, sentindo cada toque da sua pele, cada contorno da sua curva, cada milímetro da sua existência. Para quem não quer mais guiar, estranhamente continua seguindo, com medo mas sem grandes receios, sem grandes travões por aí igualmente, mas para quê parar?, mas para quê abrandar?, na verdade o pedal que controla a aceleração não é carregado pelo pé de quem se senta no guiador que gira sem vontade, para quê, pergunto, para quem?, por quem?, e nada se responde. Os olhos vidrados agora olham em frente, fecham, vão dormir, imaginar que não estão ali comigo, que estão longe, além, no meio do mar, numa solidão fresca, calma, natural, lá conseguem ver. A estrada continua, as curvas beijam as retas, intercedem-se sinais, peões e outros carros, mas ela vem outra vez, toca no ombro, relembra de onde estamos, olhos abrem, continuam vidrados, Não!, e fecham.

Estes olhos vão dormir, descansar, partir, imaginar, o carro continuará até algum sinal indicar que a viagem acabou, até alguma mão girar o que a terra ainda não abrandou.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Sei

 Sei que por todo este caminho de terra batida existirão despedidas, adeus, alguns olás e olhares cruzados, sei que a terra se colocará sem timidez entre os dedos calejados dos pés, que a brisa soará firme no meu rosto, percorrendo a minha tez com a calma e subtileza das ondas. Sei que cada ausência de árvores que fogem da fé deixará uma ausência no caminho e mais sobre pelas rochas que jazem nas bordas da estrada, esperando viver ao lado delas por toda a sua vida.Sei que cada cruva traz uma reta exígua, cintilante no seu percurso, versando pelo meu corpo como tu, deixando-me dizer que sabe do caminho, que desconhece o destino. Saberá do choro das ausência e da lágrima das lembranças, da volta do destino apagado nos olhos, do vazio inerte das mãos pálidas e sofridas, eternas desventuras do mundo esperando viver ao lado de si mesmas por todo este percurso.

Fico. Sei. Choro. Ausente. E volto à mesma volta que escrevo na terra, já aqui estive, aqui já não estou, eternamente saberei reconhecer que o saber é nulo, por toda a minha vida...

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Estrelas

 Se conseguisse abrir este corpo, da forma mais fria, com a faca mais cortante, olhasse por cada entranha e te procurasse, estarias nas veias que fazem o coração bater. A minha alma flui e voa pelo universo, percorrendo o espaço exíguo do vazio, pagando as minhas dívidas com o universo. Não sei de que é feito, sei que voa, estala no céu e não me sabe sentir, não se sabe sentir, sei que quer tentar voar e debruçar-se dos mares do céu mas não sabe sentir. Não significa que não sinta, que não se arrepie na pele perante o vazio do universo, que não se cale de medo ou fale de arrependimento. Falta-lhe o saber, saber de que é feita, o que significa o silêncio, o toque da voz, a ignorância infantil de dizer o que se quer.

Um dia saberá que é feita da poeira das estrelas, bastando para si saber isso. Tudo o resto é ruído do mundo esperando ter significado para quem o faz.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Frio

 Abro a janela para ver o pálido branco que a abraça, esgueirando-se do sol frio que se reflete na calçada. É janeiro, é frio e tenho apenas o silêncio da madeira do chão comigo, articulando nos pés gelados o bater das ondas das marés que fazemos ao deambular por esta espaço nu, selvagem e sem árvores maiores. A janela branca continua a salvar-me de ver a rua, oculta dela o meu semblante cansado e oco, é, neste momento um balão de oxigénio ao não permitir que mais ar entre neste espaço, neste corpo. Ao canto, a cama de ferros preta, destapada, nua, continua a agarrar-se às mesmas madeiras do chão que calco com os pés feridos do frio. A energia que tenho traz-me de volta a ela e ao seu colo. Nada do que lá fora se passa me chama, a não ser a branca janela que me salva de ver a rua e o meu próprio reflexo. Tapo o espelho do canto. Apago a pequena luz rebelde que se encedeia à beira do ferro preto da cama despida. O escuro abraça o silêncio e vem-me dar um ténue beijo no gesto, sabe que é a nossa hora.

O tempo é de frio, a janela é do gelo e eu, iceberg morto, continuo a rolar pelos tacos de madeira à procura da profundidade certa para me afundar. Escolho o taco mais frio, virado para a janela que não me reflete e sento-me despido de mim e dos outros. Quando a lança de frio que repousa no chão me agarra com força e uma última lágrima desce as colinas do meu rosto eu paro.

Aceito que o maior frio é o que trago comigo na almae todo o gelo do mundo se derrete ao mirá-lo.


terça-feira, 2 de agosto de 2022

Corpo

 Chego a casa, dispo-me, deixo as roupas largadas de suor frio pelos cantos mortos desta casa vazia, enche-se de mim com o muito vazio que trago dentro. Deixo passar a mão fria pelo braço, deslizando calmamente, sentindo cada espinho roçando, cada cicatriz marcada. Desliza, perdi-me, não sei qual o caminho até ao fim desta minha estrada. 

Deixei-me lá fora, no meio das multidões que não encaro, embora olhe, deixei-me lá fora no barulho da cidade e, cá dentro, sou eu, estou despedido dos outros. Passo pelo espelho e não o olho, só me vejo na distância longa entre o que sou e o que devia ser. 

Silêncio enche-me uma vez mais, a cabeça pesa, o corpo descai marcando a parede de pequenas gotas de solidão, perdi-me, e deixei-me ir com a gravidade, atingindo o chão num calmo silêncio, ensurdecedor a todo o restante que me abraça.

Aperto-me uma vez mais, agarro-me uma vez mais, atiro-me uma vez mais, arranho o ar uma vez mais.

Perdi-me lá fora. Aqui sou eu, perdido dos outros, a encontrar-me no silêncio do meu corpo, nos gritos da minha voz muda.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Era teu

Já te perguntaste se és feliz, disse-me despretensiosamente, como se, sem interesse algum, me atira-se uma bomba de fumo, armada, explodida, dentro do meu próprio corpo que se perde no impacto, sem cair, sem explodir, imploding e absorvendo, Que pergunta, não se o consegue ser, decidi dizer sem qualquer desdém por mim próprio, sem ligar a toda a energia cinética que me enchia as veias de medo, Ser feliz é algo que não existe, está-se feliz, existem momentos felizes, acrescentei.
Sem um segundo de pausa recebo em mãos, Tu não és feliz só por dizer isso, não te deixas ser feliz, tens medo de o puder ser, parei no tempo, ou ele parou em mim não me apercebi da tonalidade desta passagem de tão rápida que foi.
Eu já fui meu, isto não é simples de explicar, mas ao me ver ao espelho sinto-me longe de mim, vejo um ser distante, um reflexo do nada que já fui, um caco ainda construído, embora me lembre sei que a perfeição não está ali, está um ser só, um tudo misto de confusão que se perdeu no tempo nos rasgos de cobardia que com ele vieram.
Algumas vezes a vida passa-nos pela porta das traseiras, não a vemos, deixamos passar, digo ao espelho, Não és o que espero, e peço a mim uma chance de começar de novo, de apagar as últimas estradas onde passei, e voltar a estar só no ponto de partida, sem medo da vida que me preenche, sem medo de construir no escuro, sem medo de mim próprio.
Voltei a olhar para as palavras que recebi, Já fui de mim, não o sou.
Perdido voltei ao espelho, pode ser que me encontre em mim.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Quando te apetecer

Existem dias em que a respiração é mais pesada, onde aquele aperto que já não sentias te volta a abraçar, devagar, intenso, volto a ti e nunca é demasiado tempo. Por muito que se corra na estrada do tempo ainda te sinto aqui, ainda conheço o teu abraço sem toque, a tua mão na minha e, melhor, o teu silêncio a envolver o meu.

Liberta-me e deixa-me ir por aí. Não voltares é dares-me o vazio que preciso de não te ter, o espaço e vácuo para te conseguir sofrer e voltar a enchê-lo de saudade, de mim, não tua.

Pensava que era forte sabes, que ao longo da vida tinha conseguido erguer muros frágeis por aí, aqueles que nos guardam nas noites mais escuras, fortalezas de mim que me deixaram ficar só no meu silêncio, como eu devo estar.

Um dia disseste-me e até agora não me quis lembrar.

Tudo o que preciso está na minha terra, no meu ser, e por muito que me agarres sou eu que me seguro, eu que respiro, eu que sei onde posso ser.

Por isso, por mim, por tudo, quando me apetecer chorar, irei, sou apenas eu a ganhar um espaço para mim, em mim.


quarta-feira, 15 de maio de 2019

Escreve-me

Um dia, se o tempo te abraçar, escreve-me uma carta, nua, sem letras, deixa os teus lábios florear por lá até secar, transpira a alma para uma folha branca e deixa-a ir como havias feito, fácil e sem sentir, gritando do corpo o que já não sentes, a vida que deixaste escapar. Com a calma plácida dos gregos, flui como um rio pelos veios do papel, sente os sucalcos, flutua, faz-te chegar ao fim do tempo.

Não precisas de conversas, nem gestos, não te mostres, sei de cor o papel da tua mente, a roupa que trazes e o cheiro que deixas pelos campos, sei como danças e como perdes o equilíbrio ao trocares os tempos do tempo, aquele cambalear sôfrego e corajoso, lembro-me de quando bebes e tragas com os lábios secos a vida dos outros, ainda me lembro de bastante.

Escreve-me porque eu perdi a minha letra, deixa-a contigo um dia no tempo. Quando pensava que bastava ver no bolso roto do casaco, ultrapassando o frio da rua e a chuva de maio, não bastou, estava vazio como sempre esteve desde a última vez que me escrevi.

Agora sem letra, escreve-me e lembra-me de quem sou comigo. Depois parte novamente.

A tinta percorre-te. Eu deixo-me contigo e vou para o futuro.
Lá escrevemos com o corpo.


sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Vamos e Ver

Vamos fugir para ver o mundo, longe, encharcarmos os nossos olhos com as planícies, desafiamo-los com as montanhas, crescer no abraço que fazemos às pequenas flores que timidamente crescem entre os rochedos, beijar com o corpo imenso os rios e as cascatas que nos lavam a alma. Gritar o barulho da água a chegar à mãe natureza. E o silêncio é quieto, é dificil de respirar com tanta liberdade no ar, com tantos sonhos no corpo e planicies na mente.

Vamos embora e ver o mundo, como crianças felizes que experimentam o primeiro gelado, sentem a primeira neve nos rostos rosados, a primeira onde, a descoberta da primeira vez do mundo, a esperança de termos o nosso próprio, individual. intransmissivel big bang e fazermos dele o nosso mundo, e crescer, o nosso mundo, e acreditar, no nosso mundo.

Vou embora e criar o meu pequeno mundo, só meu, tão nosso.

Até lá...