Sem o tempo do sempre, ou o hoje dos outros dias, começar de novo, entrar num caminho diferente, ver nas árvores longas o desejo imenso, a manhã inteira, ter no pássaro livre a alma do deserto e o choro do campo, não me conhecer, não me ter nunca, virar o barco do mundo e socorrer me sem ar.
Vai valer pena deixar ir na estrada os caminhos que nos conduzem, os que não nos perdem, os que nos seguram, deixar fugir os fantasmas sem moldura, as esporas do domínio, a felicidade imensa, a dor aguda, os fascínios rebeldes e as ilusões inocentes.
Amanhecer só, longe, sem garras seguras, sem.
Sempre quis ser algo sem coisa alguma.
Aqui diz-se quando ninguém deixa. Aqui manda-se vir sem os gajos ricos deixarem. Aqui fala-se... E fala-se... Por ser isso que nos mantém vivos
Balelas (ou não) da Rua
Nem tanto ao Mar, nem tanto à Terra
domingo, 23 de novembro de 2014
sábado, 15 de novembro de 2014
Às vezes perder é bom
Às vezes perder é bom, ter pontes só até ao meio do caminho, só chaves de janelas, só metades de ti, só partes de nós. Que do mar da vontade nos afogue em desejo, nas outras margens que ninguém sabe, onde a ponte não chega e o silêncio não parte, eu parto também, mesmo que me espreites, não atravessa ninguém, não sabes, não vejas, fica, e só, somente contigo numa ponte que só chega a meia margem, num barco só a meia rés.
Deixar na antecâmara o passado do tempo, o resto dos resíduos, numa sala fechada, num beco escuro, e partir pela maré dentro que me chama, não sei quem me reclama, sei quem já não me chama. Das mensagens e da voz, já sou eu ouvi, o nevoeiro cobre, a luz já não vi. Não me chores, não contes dias, não demores a encontrar nova companhia.
Não reclames a minha agua, não fiques no meu tempo, coração não chames, inflama, reclama, grita e espanta mas não me chores, da ponte so o reflexo, de mim so memória.
Do outro lado da ponte espera me uma margem que ninguém sabe e um silêncio que ninguém conhece.
Às vezes perder é bom se o fizermos com verdade.
Deixar na antecâmara o passado do tempo, o resto dos resíduos, numa sala fechada, num beco escuro, e partir pela maré dentro que me chama, não sei quem me reclama, sei quem já não me chama. Das mensagens e da voz, já sou eu ouvi, o nevoeiro cobre, a luz já não vi. Não me chores, não contes dias, não demores a encontrar nova companhia.
Não reclames a minha agua, não fiques no meu tempo, coração não chames, inflama, reclama, grita e espanta mas não me chores, da ponte so o reflexo, de mim so memória.
Do outro lado da ponte espera me uma margem que ninguém sabe e um silêncio que ninguém conhece.
Às vezes perder é bom se o fizermos com verdade.
domingo, 2 de novembro de 2014
Dá-me a tua melhor faca
Dá-me a tua melhor faca, corta no meu melhor prazer, revela todo o teu sentido, enlaça toda a tua alma, corta nas esporas no deserto e finge todo o grito do universo, deixa no tempo a ilusão, deixa na memória a hesitação, deixa crescer o que nunca nasce e mate o que nunca morre, Cria contigo o universo que não queres, destrói connosco o que desejas. Limpa a boca e encolhe o estômago, ignora a fome e fuma o cigarro, parte o espelho, não és quem ele revela.
Depois, deixa a calma fluir, deixa a hesitação assentar, sente as costas raspar nas vísceras da parede onde te encostas, numa rua qualquer, num beco sujo, num aspeto nojento de roupa flácida, deixa-te descer, sinto os sulcos a moer, sinto a dor a renascer e desço, calmo, hirto, sem esperança, parindo silêncios em cada milímetro, chego perto do chão, as pernas cedem, esticam, elevam-se, mentira, restam, limpando as calçadas e as entrelinhas, cheguei ao fundo, se não o houver mais, cheguei ao topo se o findar, provavelmente, não cheguei a parte alguma por falta de força para ficar.
Dá-me a tua melhor faca e cortamos isto em dois!
Amanhã é tempo de esquecer.
Depois, deixa a calma fluir, deixa a hesitação assentar, sente as costas raspar nas vísceras da parede onde te encostas, numa rua qualquer, num beco sujo, num aspeto nojento de roupa flácida, deixa-te descer, sinto os sulcos a moer, sinto a dor a renascer e desço, calmo, hirto, sem esperança, parindo silêncios em cada milímetro, chego perto do chão, as pernas cedem, esticam, elevam-se, mentira, restam, limpando as calçadas e as entrelinhas, cheguei ao fundo, se não o houver mais, cheguei ao topo se o findar, provavelmente, não cheguei a parte alguma por falta de força para ficar.
Dá-me a tua melhor faca e cortamos isto em dois!
Amanhã é tempo de esquecer.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Amanhã
É de noite e ainda gritamos, já voam pratos nos nossos sonhos e vozes na inspiração, o dia claro foi para longe, há coisas para dizer e este não é o tempo para o corrigir. Vem, não irá ser para sempre, este mundo que não mente, sabes aquele que é só nosso, diz que acabou, Estou cansado, dormimos?, Vira-te, estamos perdidos, e perdidos ficamos, eliminando nas palavras os gestos que nos consomem por dentro. Vamos sobreviver, lutar, enfim, aquelas palavras de eliminar maus tempos e chover linhas, perpetuando parágrafos até páginas sem fim, de livros sem histórias. Insiste, vira-te, corre, não fica nada, não sobra nada, deixamos cair cada pedaço da memória nos percursos obtusos dos que se perdem nas ruas, nas chamas inocentes de quem sabe que arde por dentro, o cansaço vem, consome, irrita, preenche e deixa um quarto vazio, uma janela aberta e uma cama desfeita, não há espaço arrumado, a estante deslocou-se, os livros caíram na madeira do chão, as roupas continuam espalhados mas já não somos nós que nos quedamos no horizonte.
Amanhã, vamos ser livres!
Amanhã, vamos ser livres!
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Quando me quiseres esquecer
Cai a noite e o silêncio, a esplanada fica vazia, lentamente, sei que custa, não é fácil, não somos fáceis, acendem-nos uma vela com o cheiro antigo dos fósforos e da humidade que paira no ar, não voltaremos a encontrar-nos nos lábios um do outro, ver-me-às quando puderes, sei o que te faz triste, como te fiz triste, não há mais formas de saber, tinhamos os olhos abertos com as estrelas e a parte de ti que não vi, foi a que tu mostraste. Bebemos, o fumo ergue-se, rodopia, foge pelos lábios em foguete, a ponte ilumina-se na distância, estátuas idem, tenho a tua cabeça no meu ombro, e os meus olhos no infinito mundo de uma lágrima. Fazer o que tem de ser feito. Fazer o quê?
Quando me quiseres esquecer lembra-te de como me lembrares...contigo.
Quando me quiseres esquecer lembra-te de como me lembrares...contigo.
sábado, 30 de agosto de 2014
Quando me quiseres encontrar
Se eu ficar, serei sombra, traço morto, rasto mais negro, pedra mais escura, então vou, a passo pesado, para onde o mar acaba, onde o sonho é miragem e o horizonte casa. Há um trago doce das memórias, tudo o que levo às costas, adeus, não ficaram lágrimas por visitar, sabemos que do outro lado do mundo haverá sempre o tempo dos heróis, das muralhas, onde se conquistaram terras férteis e onde o sol brilhou de noite. Hoje não. Hoje não. Hoje não.
E no fim, teremos sempre. Sempre, a palavra. Sempre, o verbo. Não sei que ficará senão os sempre que deixamos no ar, as mãos que se tocaram e os olhos tocos que se refletiam em cada um.
Quando me quiseres encontrar, perde-te porque eu não sei onde estou!
E no fim, teremos sempre. Sempre, a palavra. Sempre, o verbo. Não sei que ficará senão os sempre que deixamos no ar, as mãos que se tocaram e os olhos tocos que se refletiam em cada um.
Quando me quiseres encontrar, perde-te porque eu não sei onde estou!
terça-feira, 26 de agosto de 2014
Toque
Toda a ação dirigida e o alvo ininterrupto da vida humana, o circunflexo imperfeito da sua atuação crente e descrente, de todos aquilo que conhecem na despedida os restos preciosos do tempo. A ausência traz em si o sabor amargo da esperança, as esporas intermináveis da nostalgia, Não saber que há maneiras de não sentir, ninguém sabe, tenho os olhos abertos para as estrelas e mesmo assim não vejo o norte, O caminho é aquele que vejo contigo. Talvez nunca mais. Talvez para sempre. O talvez dos fracos indecisos. Fumo. A pequena chama que se consome a si própria, inalo, respiro, estou vivo, não sinto, tremo, Volta e vê me como quiseres.
E vai e vem, e troca e corre e o céu sabe que tudo vale, não importa como, não importa quem, as palavras são pequenas para a prosa dos corpos, o mundo esta louco, as pessoas não sabem, as pessoas só sentem, não há grandes vitórias mas épicas quedas, do império so o resto moribundo dos livros de memórias e dos cadáveres apodrecidos numa jaula qualquer humanistica. O mundo vai mau, o céu não se ergue, o fumo não para e tudo vale para valer por tudo. No meio disto, saímos pelas pontas que o nosso caminho já se faz pelos nossos pés.
Uma noite, no escuro, quando o mundo estiver frio irei encontrar te numa esquina qualquer, com o brilho qualquer, sem ideia talvez, contigo, saberei aí que não há nada mais além, so o fim do mundo no infinito do tempo.
E vai e vem, e troca e corre e o céu sabe que tudo vale, não importa como, não importa quem, as palavras são pequenas para a prosa dos corpos, o mundo esta louco, as pessoas não sabem, as pessoas só sentem, não há grandes vitórias mas épicas quedas, do império so o resto moribundo dos livros de memórias e dos cadáveres apodrecidos numa jaula qualquer humanistica. O mundo vai mau, o céu não se ergue, o fumo não para e tudo vale para valer por tudo. No meio disto, saímos pelas pontas que o nosso caminho já se faz pelos nossos pés.
Uma noite, no escuro, quando o mundo estiver frio irei encontrar te numa esquina qualquer, com o brilho qualquer, sem ideia talvez, contigo, saberei aí que não há nada mais além, so o fim do mundo no infinito do tempo.
sexta-feira, 25 de julho de 2014
O mundo continua
Não sabe nada da noite, nem dos mistérios ocultos da metafísica, desconheço o tempo e a ausência, conhece os campos e as cores, a tonalidade mais cinzenta da chuva e as pequenas gotas que beijam o chão nas manhãs menos enxutas. Ficou sempre de fora das cidades do mundo, na sua terra, o seu mundo de um hectare, se tanto, se muito, não sabe de palavras robustas mas de braços fortes, desconhece os sons da arte mas sabe os da natureza.
Fecho a porta e sei que não volto, escondo as cortinas e sei que elas não se abrem mais.
Viste nos tempos o que muitos só vêem nos livros, caíram palavras e regimes, nasceram países e quebraram-se mundos, arderam terras e choveram mortes, e apenas sabes das chuvas, apenas sabes dos ventos, só sabes do teu mundo, porque só ele te disse respeito.
E é injusto!
"O Mundo é tão bonito e tenho tanta pena de te perder... Porque o mundo continua sem mim... e sem ti." - José Saramago
Fecho a porta e sei que não volto, escondo as cortinas e sei que elas não se abrem mais.
Viste nos tempos o que muitos só vêem nos livros, caíram palavras e regimes, nasceram países e quebraram-se mundos, arderam terras e choveram mortes, e apenas sabes das chuvas, apenas sabes dos ventos, só sabes do teu mundo, porque só ele te disse respeito.
E é injusto!
"O Mundo é tão bonito e tenho tanta pena de te perder... Porque o mundo continua sem mim... e sem ti." - José Saramago
quarta-feira, 23 de julho de 2014
Um lado
Demasiado alto nas montanhas, onde o sorriso se esconde nos arbustos do obscuro, onde não estamos prontos para ficar, onde parar é cair e o eclipse a noite, o não ver, o estar a cair aos poucos, cedendo em cada frincha um pouco de nós, um corte, mais profundo, ainda mais, as memórias afundam-se, o sangue escorre.
Lamentar, um lado só não lamenta, um olho só não vê, não aos deuses, nem aos mortais, compassadamente, numa ligeira brisa de quem se deixa levar, a noite treme, as memórias vão-se e não estamos prontos a subir, não ficamos por aqui, parar é cair, ficar é partir.
Enquanto não se voa e não se desiste, não se foge sem rasto, não se chora sem lágrima.
Lamentar, um lado só não lamenta, um olho só não vê, não aos deuses, nem aos mortais, compassadamente, numa ligeira brisa de quem se deixa levar, a noite treme, as memórias vão-se e não estamos prontos a subir, não ficamos por aqui, parar é cair, ficar é partir.
Enquanto não se voa e não se desiste, não se foge sem rasto, não se chora sem lágrima.
Não se fica, não se parte,
O esquecimento global I
Se sentes o corpo a soluçar, nas vagens mais impuras do tempo, levando a nicotina espalhada pelo corpo nos tecidos vazios da memórias, apagando a cada bafo mais hirto as verdades mais certas, mais nubladas, que as bocas não contam, que o corpo não esconde, se sentes lá fora a chuva, um novo toque, leve, descobrindo nos resquícios de cada gota as laminas impenetráveis das tuas unhas, os contronos suaves dos lábios e as naves perdidas do rostos que se queimam, numa tempestade de areia, num risco de teimosias sem precedentes, fica com o desejo eu cumpro o que não disse, muito mais do que se falou, não houve silêncio que ficasse, nem palavra que se escondesse.
Penso às vezes que se safa no final do dia, quem é que passa pelos cabos tumultuosos da vida e se ingere a si próprio em leitos profundas de regojizo, não é a pessoa mais inteligente, nem a mais bonita, não é a mais rápida nem sequer a mais astuta. Fala-se em adaptação, uma mutação constante com o passar do tempo, adaptação ao vento mais forte, à carne mais crua, passar sem comer ou ter que dilacerar os corpos inertes deixados ao abrigo do tempo para sobreviver. No fim é deixar ao acaso do esquecimento o que sempre nos recorremos nas lembranças, deitar ao fascínio as despreocupações largas do dia-a-dia, deixando se levar na corrente da sobrevivência, na ternura dos que se plastificam nas circunstâncias.
No fim o que conta não é a sobrevivência, não é a persistência duradoura no tempo, omisso de gente, omisso de alma quente que embale nas insónias, é a marca que se deixa quando se passa, a memória que fica no que resta, na cabeça dos tolos, na memória dos sábios, é aquilo que se põe no único momento em que se pode, é o que se deixa como os últimos que se vão.
Penso às vezes que se safa no final do dia, quem é que passa pelos cabos tumultuosos da vida e se ingere a si próprio em leitos profundas de regojizo, não é a pessoa mais inteligente, nem a mais bonita, não é a mais rápida nem sequer a mais astuta. Fala-se em adaptação, uma mutação constante com o passar do tempo, adaptação ao vento mais forte, à carne mais crua, passar sem comer ou ter que dilacerar os corpos inertes deixados ao abrigo do tempo para sobreviver. No fim é deixar ao acaso do esquecimento o que sempre nos recorremos nas lembranças, deitar ao fascínio as despreocupações largas do dia-a-dia, deixando se levar na corrente da sobrevivência, na ternura dos que se plastificam nas circunstâncias.
No fim o que conta não é a sobrevivência, não é a persistência duradoura no tempo, omisso de gente, omisso de alma quente que embale nas insónias, é a marca que se deixa quando se passa, a memória que fica no que resta, na cabeça dos tolos, na memória dos sábios, é aquilo que se põe no único momento em que se pode, é o que se deixa como os últimos que se vão.
sexta-feira, 4 de julho de 2014
Rendição
Somos secos por dentro meus caros, não subsiste um único regozijo nutrido na alma, uma lenta circunflexão dos hemisférios do tempo, uma perdição luxuosa dos anos de deixar ficar o que sempre partiu, ficamos presos às circunstâncias e ao que com elas nos da um medo, um prazer, de ficar a meia distância das distâncias dos outros.
Com isto não notamos mas perdemos um pouco de nós ao estarmos sós sonoro, a tal secura, um fingimento do fim em si mesmo, uma bebida não alcoólica que mesmo assim nos revira os olhos e nos transtorna a realidade, só levar, só deixar, perder nos outros o medo de os ter e não os tendo não ter medo nenhum.
Até ao dia em que, contra o expetável da razão e as noções dos corpos, deixamos quebrar, como naqueles dias de vento forte onde por uma pequena mas bruxuleante brecha na porta, se escancaram todas as janelas, e todos os ventos do mundo se transformam em todo o ar que respiramos, fundo, único, potente. Já não somos de nós mesmos, rendemo nos de corpo e alma, razão e tudo o resto a algo que não nós mesmos. Sabido está que a duração de tudo é menor do que o que tiramos dele, contudo. Sempre, rendemo nos felizes à tristeza de não sermos apenas nossos.
Com isto não notamos mas perdemos um pouco de nós ao estarmos sós sonoro, a tal secura, um fingimento do fim em si mesmo, uma bebida não alcoólica que mesmo assim nos revira os olhos e nos transtorna a realidade, só levar, só deixar, perder nos outros o medo de os ter e não os tendo não ter medo nenhum.
Até ao dia em que, contra o expetável da razão e as noções dos corpos, deixamos quebrar, como naqueles dias de vento forte onde por uma pequena mas bruxuleante brecha na porta, se escancaram todas as janelas, e todos os ventos do mundo se transformam em todo o ar que respiramos, fundo, único, potente. Já não somos de nós mesmos, rendemo nos de corpo e alma, razão e tudo o resto a algo que não nós mesmos. Sabido está que a duração de tudo é menor do que o que tiramos dele, contudo. Sempre, rendemo nos felizes à tristeza de não sermos apenas nossos.
domingo, 22 de junho de 2014
Ainda sonho em Vinyl
Olha o dia começa calmo, com um sol tímido a aparecer por dentro das nuvens cinzentamente opacas, um pequeno raio atravessa a ilusão de noite e se faz ouvir, como se a luz fosse som e os nossos olhos ouvidos abertos à imensidão existente de tudo, vendo como quem ouve a imensidão vasta das cores que nos circundam, e nada disto passa de pouco. Pelos contrários do nada surgem as primeiras vagas de gente, sacos de compras tinturentos, jornais sujos de notícias que a tinta essa secou pelos dedos de quem as fez, os comboios que rangem pela ternurenta ferrugem dos tempos que o fazem circular, e as crianças brincam algures, não aqui, aqui faz-se o amanhã, tonteria, por se fazer aqui é que cada vez mais se destituí o amanhã do seu aspeto de futuro, o nosso amanhã não passa de eco, não é novo, não tem luz, não faz frio, não aquece, é apenas a perpetuação simbólica do que não se fez hoje e se julga que se fará amanhã numa igual tentativa séria de nada fazer que perturbe a calma de quem pouco ou nada faz.
Por dentro de cada um há essa tentativa de ver, corrijo, criar, na facilidade ingénua, uma arte nova, que não seja uma imitação, toda a arte se imita e não se cria, já é demasiado difícil construir, porque tudo o que se construiu ou caiu sem glória ou se perpetua sem memória, de qualquer dos casos fica aquém do intuito de quem lhes pôs vontade. Fisicamente somos feitos para durar, por dentro somos feitos para juntar, quebrar, juntar, em ciclos de desconstrução que não se cansem desta sem finitude, não precisamos de mais, é fácil.
Como a água que se apressa pelas rochas das encostas cinzentas e limpas, translúcidas de mar, há quem se apresse pelos dias não concebendo nas horas o desejo carnal de ter na mão tudo o que na mão se pode ter.
Se ainda conseguisse criar, deixaria no passado tanto mais do que se alcança no presente, não precisamos de mais, nem melhor, só precisamos daquilo que nos enche de momentos, não de eternidades, como um disco que só se ouvisse uma vez, numa tarde de chuva, numa única companhia, um uso numa memória.
Ainda sonho que a vida
seja isto, um conjunto de momentos e não uma soma de eternidades.
Por dentro de cada um há essa tentativa de ver, corrijo, criar, na facilidade ingénua, uma arte nova, que não seja uma imitação, toda a arte se imita e não se cria, já é demasiado difícil construir, porque tudo o que se construiu ou caiu sem glória ou se perpetua sem memória, de qualquer dos casos fica aquém do intuito de quem lhes pôs vontade. Fisicamente somos feitos para durar, por dentro somos feitos para juntar, quebrar, juntar, em ciclos de desconstrução que não se cansem desta sem finitude, não precisamos de mais, é fácil.
Como a água que se apressa pelas rochas das encostas cinzentas e limpas, translúcidas de mar, há quem se apresse pelos dias não concebendo nas horas o desejo carnal de ter na mão tudo o que na mão se pode ter.
Se ainda conseguisse criar, deixaria no passado tanto mais do que se alcança no presente, não precisamos de mais, nem melhor, só precisamos daquilo que nos enche de momentos, não de eternidades, como um disco que só se ouvisse uma vez, numa tarde de chuva, numa única companhia, um uso numa memória.
Ainda sonho que a vida
seja isto, um conjunto de momentos e não uma soma de eternidades.
terça-feira, 17 de junho de 2014
Sabedoria
Não há conhecimento que me faça perceber a dificuldade, não estar, não culpar, ser livre, não é culpa, é saber, que desde o verdadeiro começo é de minha culpa. Eu sempre soube, faz o que tens a fazer, com o instinto do animal que corre pelos campos sem olhar para trás, como o vento que se despede à chegada. Já não sei sentir-nos seguros, já não sei sentir, talvez não haja maneira de saber, mesmo com os olhos abertos, mesmo sem mentir, mesmo sem ver a parte de mim que nunca vi, a parte que mostro a ti, faço o que há a fazer, talvez nunca mais, talvez sempre, volto atrás e vejo te enquanto parto.
Por muita sabedoria, não há maior do que saber quando não há nada mais por descobrir.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
A parte calma do que és
Sou parte quente do que vês, porta por fechar, chumbo por cair, vento por soprar, tudo o que vai escorrendo pela madrugada, não sou quem vai lutar, não vou ser eu a ter o teu melhor e rogar que sigam a tua mão, como só eu sei, como só eu.
Para descobrir depois, quando a luz voltar, que há ruas ainda por ver, árvores a crescer, muros a cair, tudo mais forte que o norte, tudo a escorrer pelo vendo, jardins por regar e noites inteiras por dormir, há lápides a escrever e poucas histórias por contar, há um tempo novo que só os velhos esperam, os que de corpo de perduram nas imensidões negras das horas que não se perderam um no outro, se há parte fraca no que és, eu não tenho parte forte que te salve.
Procura e encontra, pergunta e descobre, agarra e prende, mais forte que a vontade, mais perto que o toque, a parte calma do que és é rio no caminho do que somos.
domingo, 25 de maio de 2014
Deixar ir
Nada é para sempre, se restringíssemos esta simples ideias nas idiossincrasias mentais que nos guiam no dia a dia tudo seria mais fácil, eu ouvi, eu esperei pelo dia em que tudo se fosse, tudo caminhasse para outro caminho que não o meu e me mostrasse que se eu me mantivesse aqui, a minha alma não seria livre, eu não seria eu.
Repetir o passado, quando os teus braços me dizem que sim, quando o meu tempo diz que não, por passarmos maus começos e assistirmos a finais menos felizes, queremos fechar livros antes do fim, apagar filmes sem os seus epilogos, somos almas cortadas pelo tempo dos que esperam sem tentar.
Tudo é mais fácil dito, pouco acontece, quando o abismo chama, nem tentamos agarrar, porque sabemos que estamos vivos, que precisamos de lembrar, que não deixamos ir nas inocentes chamadas do facilitismo agnóstico, mesmo que o corpo diga que não, mesmo que o tempo diga que não,
Não se deixa ir quem leva mais do que deixa.
Repetir o passado, quando os teus braços me dizem que sim, quando o meu tempo diz que não, por passarmos maus começos e assistirmos a finais menos felizes, queremos fechar livros antes do fim, apagar filmes sem os seus epilogos, somos almas cortadas pelo tempo dos que esperam sem tentar.
Tudo é mais fácil dito, pouco acontece, quando o abismo chama, nem tentamos agarrar, porque sabemos que estamos vivos, que precisamos de lembrar, que não deixamos ir nas inocentes chamadas do facilitismo agnóstico, mesmo que o corpo diga que não, mesmo que o tempo diga que não,
Não se deixa ir quem leva mais do que deixa.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Mira
Abre as janelas de manha, levanta com o sol o corpo mole que se colou nos regaços maternos da cama, vê as aves a levantar voo, crescendo num manto negro pelos contornos imprecisos das poucas nuvens brancas que sobrevoam o céu azul, por baixo as crianças nascem nas calçadas, gritando de juventude os bons dias uns aos outros, brincando e saltando como nós, sem a mínima preocupação com o tempo, com o amanha, à volta o dia começa a abrir, o café do sr. Antônio já tem gente há espera com o jornal debaixo do braço, as camisas de trabalho enfiadas a força nas calças de ganga sujas do dia, os primeiros cachimbos nas bocas e os primeiros bafos no ar, começam as conversas, liga se o dia,
Mira, não é bom sonhar que se acorda assim?
Mira, não é bom sonhar que se acorda assim?
domingo, 4 de maio de 2014
Walk Away
De tudo o que nos passa, pouco nos prende, nos agarra e nos corta aos fragmentos imprecisos das almas que se deixam ficar, as pequenas lutas, os ocos soluços e pernas dormentes, os gestos imprecisos e as maõs trémulas, tudo passa, mas fica, tudo vai, mas deixa, aquele espaço vazio que não segue contigo, que se deixa ficar enquanto desces a rua e te banhas no mar. Fica a questão de que, tempos a tempos, nos escondemos até à guerra final, onde vestimos os coletes de bala, as progressões morais e os retiros espirituais, o sol desce, o vento acalma, as sombras nascem lívidas, suspiradas, os passos começam e as balas são disparadas por dentro. Não há colete que nos salve, nem escuro que nos esconda.
Depois, viramos as costas e andamos, sorridentes, o sol morre, o dia passa, no teu caminho, no meu passado, cada golpe se sara só, cada corpo se deixa ir no pecado, pelas paredes da vida, no silêncio dos pares.
Gostava de dizer sem arrependimentos mas palavras voam com o vento, gostava de dizer que não mas as mentiras ficam nas orações.
Ando para longe, onde o sol só nasce amanhã, a histórica fica, a onda passa,
Tudo é o eterno recomeço do nada que sempre acaba.
Depois, viramos as costas e andamos, sorridentes, o sol morre, o dia passa, no teu caminho, no meu passado, cada golpe se sara só, cada corpo se deixa ir no pecado, pelas paredes da vida, no silêncio dos pares.
Gostava de dizer sem arrependimentos mas palavras voam com o vento, gostava de dizer que não mas as mentiras ficam nas orações.
Ando para longe, onde o sol só nasce amanhã, a histórica fica, a onda passa,
Tudo é o eterno recomeço do nada que sempre acaba.
Há que saber partir quando simplesmente não faz sentido ficar.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Sem razão
De vez em quando ainda passamos na mesma rua, o mesmo sorriso de meninos reguilas que tanto sabemos fazer, o nosso pequeno jogo de olhares, a nossa pequena troca de pensamentos, não me tens em nada mas ir sem ti deixa-me com tão pouco.
Na tua sombra azul, não sei como te enervas tanto, nunca terias tudo, nunca passaríamos paredes, por muito respeito e empurrões, toques e puxões, iríamos ser um 'nunca mais' num eterno olá, seríamos os melhores amigos de todos aqueles que nos levariam para longe.
Tiremos os dias, as palavras negras, as histórias passadas e o céu que nos cobre, e andemos, para longe, com o sol no fim, nos teus passos, na minha sombra, fica por saber para onde, fica por saber como, sorri, andamos para lados opostos, de forma erradamente certa, até ao fim do dia, até ao começo do mundo.
Na tua sombra azul, não sei como te enervas tanto, nunca terias tudo, nunca passaríamos paredes, por muito respeito e empurrões, toques e puxões, iríamos ser um 'nunca mais' num eterno olá, seríamos os melhores amigos de todos aqueles que nos levariam para longe.
Tiremos os dias, as palavras negras, as histórias passadas e o céu que nos cobre, e andemos, para longe, com o sol no fim, nos teus passos, na minha sombra, fica por saber para onde, fica por saber como, sorri, andamos para lados opostos, de forma erradamente certa, até ao fim do dia, até ao começo do mundo.
sábado, 19 de abril de 2014
Involuntária
Ainda te sentia o bafo ao tabaco seco que tragavas nos anos recentes, aquele travo amargo, ressentido pelas ruas queimadas de uma cidade usada, sem raiz, aquele toque que se contorcia no vermelho imaginário dos teus lábios carnudos, recheados de espamos voluntários como os meus, deus não escolhe que é feliz. Sorrias com o desdém de quem se intriga consigo mesma, uma leveniedade cínica, borrifada de um estrabismo hipócrita, sem queda, de quem sempre viu o reverso das coisas que de reverso so têm alma, atraias ciúme, inveje, não te perdes, eu não te encontro.
Sais te de mansinho, bateu te na porta de madeira comida pelos insetos, não pelo tempo que esse não passa aqui, repetidamente voltavas, caindo uma lágrima seca no soalho perdido, ninguém so marca por prazer, põe batom, reveste as unhas, despe, deus não escolhe quem foi feliz.
Das vezes que voltavas, sussurras as voltas no jazigo obscuro da mediocridade da alma que não vive, subsiste, num ritmado ato continuo de ver no chão o que não se reflete nas estrelas, sol, e partes, e voltas, e sem ires voltas e sem voltares partes, somos sempre incisivos nos cortes que não fazemos, e eu retomo e vou, e volto, e deixo e fico e sem sabor de ti deixo me provar, ir com o vento, dizer que sou, não tenho, conspiro, o destino não se faz de raiz e tu não te tiras sem dizer.
Por isso, desce as escadas, veste te de vermelho, traz do teu perfume, eu levo o piano, não exibas felicidade, nem desdém, sê leve com essa alma toda, não haverá queda, não haverá reverso, haverá piano, sinfonia, vinho quente e a nicotina de sempre, não perdemos pela demora ate que tudo se evapora, no ultimo trago do cigarro que não acedemos, puxa do verniz, não e deus que escolhe que vai ser feliz.
Sais te de mansinho, bateu te na porta de madeira comida pelos insetos, não pelo tempo que esse não passa aqui, repetidamente voltavas, caindo uma lágrima seca no soalho perdido, ninguém so marca por prazer, põe batom, reveste as unhas, despe, deus não escolhe quem foi feliz.
Das vezes que voltavas, sussurras as voltas no jazigo obscuro da mediocridade da alma que não vive, subsiste, num ritmado ato continuo de ver no chão o que não se reflete nas estrelas, sol, e partes, e voltas, e sem ires voltas e sem voltares partes, somos sempre incisivos nos cortes que não fazemos, e eu retomo e vou, e volto, e deixo e fico e sem sabor de ti deixo me provar, ir com o vento, dizer que sou, não tenho, conspiro, o destino não se faz de raiz e tu não te tiras sem dizer.
Por isso, desce as escadas, veste te de vermelho, traz do teu perfume, eu levo o piano, não exibas felicidade, nem desdém, sê leve com essa alma toda, não haverá queda, não haverá reverso, haverá piano, sinfonia, vinho quente e a nicotina de sempre, não perdemos pela demora ate que tudo se evapora, no ultimo trago do cigarro que não acedemos, puxa do verniz, não e deus que escolhe que vai ser feliz.
terça-feira, 15 de abril de 2014
Aqui
Não sei se andei depressa demais, ou se te não deixei correr ao meu lado, mas estou distante, não vou estar aqui quando a noite chegar, não ficarei eterna rocha no mar de sargaços, estupidamente fixado nas ideologias baratas de um mundo capitalizado de banalizações, não se vêm horas de não voltar aqui, não sei quando te deixei de ver, nem em que lugar o sorriso perdi, pedi mais tempo para olhar, não há sobras para ver, eu não estou aqui.
O tempo é depressa demais para quem tem tudo no tempo morto à espera que de morto ele não se altere.
Sei que algum momento terei para te olhar, num outro tempo, com tempo de ver, de agora em diante, não vou estar aqui.
O tempo é depressa demais para quem tem tudo no tempo morto à espera que de morto ele não se altere.
Sei que algum momento terei para te olhar, num outro tempo, com tempo de ver, de agora em diante, não vou estar aqui.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Caminhos
Deixa na calçada o que dela é, sem pretensões de ter o que nunca foi efetivamente nosso. Sem mágoas nem ressentimentos, já outros falharam a vida, sem se aperceber que falhar a vida é simplesmente viver, percorrer eternamente os carros que nos guiam até ao infinito, com o fim último em todos os fins que nunca mais terminam. Seguir eternamente caminhos que não se tocam e falar sempre em linguas que não se cruzam, parece destino grego a quem de grego nada tem hoje e de tragédia só em escritas menores.
Nada muda no ano novo, nem nada fica no ano velho, se soubermos ficar sempre no limbo em que já não estamos, quedaremos sempre no tempo a dúvida que não tirámos no espaço.
Num outro momento, num outro tempo, sob outro céu, com música ligeira e vinho suave, tragarei de ti a alma toda que minha já não é.
Hoje estarei sempre com o meu amanhã e só dele pertenço.
Nada muda no ano novo, nem nada fica no ano velho, se soubermos ficar sempre no limbo em que já não estamos, quedaremos sempre no tempo a dúvida que não tirámos no espaço.
Num outro momento, num outro tempo, sob outro céu, com música ligeira e vinho suave, tragarei de ti a alma toda que minha já não é.
Hoje estarei sempre com o meu amanhã e só dele pertenço.
domingo, 13 de abril de 2014
Manifesto
Por onde vais correr, ao longo de quantos dias, corres às rochas e prendes-me ao porto, corres ao mar e deixas o mar ao sul, nada se fica, nada se prende, quando o perigo vem, quando a madrugada é suja, o que se passa?, ninguém sabe, cala e finge, eu corri para o rio que sangrava até ao mar, num único suspiro de vida, num único bafo de morte, onde a terra se esbate nos seus contornos lentos, nas suas farpas suaves, aqui não se esconde deus, aqui não se mata ninguém. Deus manda-nos ao diabo quando sabe que ficamos sem caminho, e choramos poder. Poder. Poder. O que se passa?
No fim da torrente, no ponto último das chamas, soam sinos de longe, nascem fontes de perto, nada mais se cria, nada mais se transforma, surge apenas uma estagnação última da miséria humana, um grito primário de quem vem de longe e matou em todas as guerras, aqueles que pedem perdão sem o querer, e os que amam demais sem o saber, a ignorância é a primazia
infernal dos pecados da carne, e o espírito último da cura dos corpos.
Que dizer em manifesto? Que se manifesta que "o sentido único das coisas, é elas não terem sentido único nenhum".
No fim da torrente, no ponto último das chamas, soam sinos de longe, nascem fontes de perto, nada mais se cria, nada mais se transforma, surge apenas uma estagnação última da miséria humana, um grito primário de quem vem de longe e matou em todas as guerras, aqueles que pedem perdão sem o querer, e os que amam demais sem o saber, a ignorância é a primazia
infernal dos pecados da carne, e o espírito último da cura dos corpos.
Que dizer em manifesto? Que se manifesta que "o sentido único das coisas, é elas não terem sentido único nenhum".
sábado, 22 de março de 2014
Não se deitam comigo corações obedientes (A Naifa)
Expludo o rosto na parede, talvez na última canção, onde os corpos se contradizem e as almas se reacendem, as paredes já são outras e as caras perdem-se em novos corpos, voltamos a ela muitos silêncios depois, deixei longe o que me deixaste, numa casa difícil de habitar, num sótão impossível de sobreviver, comigo não, contigo nunca, há uma falha no lugar intenso que temos, é melhor ficar assim, sem queixas de inconvenientes, nem trocas protocolares, é este o tempo que deixaste é com este que ficaste.
A tua boca é silêncio, a tua sina som e as tuas palavras ciúmes, não será o toque, não será o tempo a usar outros lábios, tempo e tempo depois, não digas nada que não se deitam comigo corações obedientes.
A tua boca é silêncio, a tua sina som e as tuas palavras ciúmes, não será o toque, não será o tempo a usar outros lábios, tempo e tempo depois, não digas nada que não se deitam comigo corações obedientes.
quinta-feira, 20 de março de 2014
Se te dá ganas de agarrar, agarra, morde, torce, tortura, delineia o espaço, come a alma, devora o corpo, cambaleia, perde-te, deita as grades ao tempo, se eu falar talvez tu negues, se eu falar talvez tu fiques, até lá, só dói se quiser, só mói se deixar,
Até aparecer o momento certo, queimemos o desejo nos errados.
Até aparecer o momento certo, queimemos o desejo nos errados.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Noite VI
Se é real não mostres, se é palavra não digas, se tem toque, afasta, se tem corpo não aproximes, se tem fim, não comeces, parece tão inútil deixar ir com o vento o que não se sabe que veio com a maré, não fales, não expliques, não fiques, não vás, fica na ponte de sempre, no ponto infinito de quiasmos, no toque último de céu, onde as memórias podem ser chamadas, onde podem ser apagadas, onde o tempo, eu e tu, com a cabeça no horizonte e os olhos no infinito de cada um, se cruzam num término tempo sem fim, não fales, não sei o que pensas, não sei pensar, é demasiado fácil deixar de fingir, é demasiado fácil deixar de tentar, demasiado fácil fugir de onde nunca se pertenceu.
Com tudo e com todos, uma profunda distância de quem percorreu mais caminhos do que aqueles que devias ter cruzado.
Com tudo e com todos, uma profunda distância de quem percorreu mais caminhos do que aqueles que devias ter cruzado.
domingo, 2 de março de 2014
Maníaco
Sitiar Berlim, aterrar em Lisboa, beijar o mundo e queimar a pele, buscar o silêncio na multidão toda, saltar dos olhos de quem passa, sem se passar nada, buscar nos pulsos o nós atormentados das palavras, solicitar as tarifas do mundo no quichet dos viajantes e gozar licenças a quem licenças não tem que gozar, gritar na manhã o que se fez na noite e lembrar na aurora o que se esqueceu no prelúdio, rejeitar a saudade e todas as formas portuguesas de querer ter o que não se tem mais, cantar as músicas que ardem o capitalismo, gritar as palavras que derrubam comunismos e todas as formas de pensamento coletivo, como disse Soares, todo o pensamento coletivo é estúpido porque é coletivo, só os animais fazem bando, só as pessoas crescem sós.

Depois acordar e fingir que isto somos nós, como se algo mais fôssemos senão silêncio.

Depois acordar e fingir que isto somos nós, como se algo mais fôssemos senão silêncio.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Não sei que força me mantém
Hoje não houve transportes. Hoje o metropolitano não andou mas as pernas sim, duas léguas de nada, não sei por onde andei, nem que cordas queimei, um dia cinzento sem chuva, uma saudade tamanha dos dias que não vivi, está frio mas sigo, quero ir para casa, beber café quente e sonhos confortantes, a noite já aí vem.
Andei perdido, sabendo perfeitamente onde estava a cada instante, trouxe terra nos sapatos e não a tenho nas mãos, não a sinto nos dedos a percorrer aq carne madura, a queimar o solo molhado, não comprei amor onde o não vi, quero ir para casa, não esta para onde vou mas para aquela que ninguém conhece, quero voltar.
Há momentos em que tudo abate, o passo de bala reduz e o corpo reduz, não ergue, como se frio viesse de dentro, não sou memória, nem raíz, mas sim passo moribundo dos que não andam com razão, a noite sou só eu.
Não sei que força me mantém, só sei que andei sem me conseguir perder e parei sem me tentar achar.
Andei perdido, sabendo perfeitamente onde estava a cada instante, trouxe terra nos sapatos e não a tenho nas mãos, não a sinto nos dedos a percorrer aq carne madura, a queimar o solo molhado, não comprei amor onde o não vi, quero ir para casa, não esta para onde vou mas para aquela que ninguém conhece, quero voltar.
Há momentos em que tudo abate, o passo de bala reduz e o corpo reduz, não ergue, como se frio viesse de dentro, não sou memória, nem raíz, mas sim passo moribundo dos que não andam com razão, a noite sou só eu.
Não sei que força me mantém, só sei que andei sem me conseguir perder e parei sem me tentar achar.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
100maneiras
A verdade mora longe, onde não faz frio, a verdade faz cambalear, tem grades de ferro e chão de mármore branco, a verdade tem paredes altas e tectos redondos, não tem saída e não se conhece entrada, verdade é casa mais alta, é monte virgem, sabe a terra pura e a pão quente, a verdade sabe a tudo e ninguém lhe conhece sabor.
A verdade queima mais, faz ferida no corpo, rasga a pele e arranca pedaços de alma, faz círculos na cabeça e pontapeia estômagos. A verdade é vontade de agarrar, é força para destruir, é corpo de felicidade e mata quem não dorme.
A verdade não dói mas magoa, não brilha mas queima, a verdade faz, a verdade desfaz, a verdade reza terços nas madrugadas e queima ondas ao luar, ela não sabe, ela não sonha, ela faz, ela tira, ela põe e dispõe dos que têm disposição.
A verdade é o caminho mais fino, mais longo, uma múmia calma e um pássaro sem bando, um guerreiro na frente, uma língua mordida, um beijo no pescoço, é cheia de lembrança e não se lembra de te ter.
Vá, anda, não queres ser quem viu e não quis ver,
Quem ardeu e não queimou,
Quem perdeu e não deixou.
A verdade de cada um não faz verdades de ninguém.
A verdade queima mais, faz ferida no corpo, rasga a pele e arranca pedaços de alma, faz círculos na cabeça e pontapeia estômagos. A verdade é vontade de agarrar, é força para destruir, é corpo de felicidade e mata quem não dorme.
A verdade não dói mas magoa, não brilha mas queima, a verdade faz, a verdade desfaz, a verdade reza terços nas madrugadas e queima ondas ao luar, ela não sabe, ela não sonha, ela faz, ela tira, ela põe e dispõe dos que têm disposição.
A verdade é o caminho mais fino, mais longo, uma múmia calma e um pássaro sem bando, um guerreiro na frente, uma língua mordida, um beijo no pescoço, é cheia de lembrança e não se lembra de te ter.
Vá, anda, não queres ser quem viu e não quis ver,
Quem ardeu e não queimou,
Quem perdeu e não deixou.
A verdade de cada um não faz verdades de ninguém.
domingo, 16 de fevereiro de 2014
O Peso do Mundo
Senta-te comigo e não penses, não fales, não cales, há demasiados nãos quando se está só, há um mundo entre as duas pontas deste banco, duas vidas mais longe, dois caminhos mais tortos, querer ser mais, a grandeza não é gente, é ausência.
Preciso do teu silêncio e o nosso olhar ao mar, não sei o que aconteceu, se foste tu ou fui eu, mas este não é o nosso amanhã, esconde-se o céu onde somos verdade, perdemo-nos uma e outra vez ao tentarmo-nos encontrar, uma e outra vez ficamos sós.
Longe ou não, ainda me olhas com magia, ainda me calas sem palavras, ainda ficas sem me perderes, ainda me deixas até voltares.
Não sei se te perco enquanto ando, mas sei que não te encontro quando paro.
O mundo pesa demais, hoje pesa demais.
Preciso do teu silêncio e o nosso olhar ao mar, não sei o que aconteceu, se foste tu ou fui eu, mas este não é o nosso amanhã, esconde-se o céu onde somos verdade, perdemo-nos uma e outra vez ao tentarmo-nos encontrar, uma e outra vez ficamos sós.
Longe ou não, ainda me olhas com magia, ainda me calas sem palavras, ainda ficas sem me perderes, ainda me deixas até voltares.
Não sei se te perco enquanto ando, mas sei que não te encontro quando paro.
O mundo pesa demais, hoje pesa demais.
Sem Abrigo
A cada dia cresce um frio mais agreste vindo do norte, daqueles bafos de não existência que trazem os corpos para perto e afastam as almas para longe, circunscritos ao espaço infinito de nenhures, onde o sol é mais e o vazio é tudo. Navegamos na imagem que temos do outro, em pequenas oscilações de ternura, aumentando a distância da miragem, passa a noite mais escura, não vem um dia mais claro, esta distância faz a noite.
Tudo o que era eterno morreu hoje quando de manhã acendi o cigarro e tu não estavas cá, não senti o teu rasto, não sei do teu perfume, a varanda estava aberta para o rio e o sonho aberto para o silêncio, os pássaros dormiam sossegados nos beirais cinzentos destes prédios, o que senti ao sentir a tua mão, nada, senti o tempo voltar atrás e tudo era recordação, eternamente repetida, eternamente criada, a novidade a todo o segundo, onde foste não sei.
Volto para o abrigo daqueles que não o têm jamais,
Volto às manhãs em que só o café me toca a boca, onde só o fumo me afaga a alma.
Deixei na manhã imensa o substrato noturno das coisas, abandonando ao revés dos abraços, a mercê de todos os passos incertos, todos os abraços perdidos e os olhares não trocados, ronda-me a alma um pássaro que não voa, perdido não sei onde, só sei ceder-me ao mundo onde o meu ser se esconde, onde os pássaros não voam e onde não estamos, vazio, mão fechada, está noite, deixa-a ir.
Fiquei no fim de tudo a um passo de ter tudo sem fim, anseia saber de mim quem de mim sabe demais, uma nebulosa onda segue para lado nenhum onde não vou, está frio e não á nada.
Fiquei no fim de tudo a um passo de ter tudo sem fim, anseia saber de mim quem de mim sabe demais, uma nebulosa onda segue para lado nenhum onde não vou, está frio e não á nada.
Prometo falhar.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Ninguém tropeça nos dias
Ninguém tropeça nos dias, contudo tropeçaria em ti milvezes na mesma rua até vires que o meu rosto está perante o teu como o de uma criança junto de uma loja de doces, a mesma inocência capitalista que nos faz assoberbar tudo num único travo de existência, assimilando todo o conteúdo numa única dentada e absorvendo toda a malícia num único toque de desilusão.
Podes vir amanhã se acreditares que não é tarde, podes vir de manhã se não pensares que é cedo, podes ir ao mar se julgas que sabes nadar, podes, podes, podes, posso, posso, posso e silêncio, todos podem o que ninguém é capaz de fazer.
Somos capazes de acreditar no mesmo deus, ou em nenhum caso subsista algum caso de dúvida, somos capazes de partilhar a mesma chávena, sem receios ou modéstias, somos capazes de guardar os mesmos pensamentos numa caixa obscura no quanto esquerdo da nossa memórias, somos incapazes de concretizar, de agir, de fazer, há toda uma dormência de espírito que nos inócua o corpo e nos dá sede.
Ninguém tropeça nos dias, ninguém nos tira a sede,
Senão nas manhãs, senão em todas as manhãs de todos dias em que tropeço em ti.
Podes vir amanhã se acreditares que não é tarde, podes vir de manhã se não pensares que é cedo, podes ir ao mar se julgas que sabes nadar, podes, podes, podes, posso, posso, posso e silêncio, todos podem o que ninguém é capaz de fazer.
Somos capazes de acreditar no mesmo deus, ou em nenhum caso subsista algum caso de dúvida, somos capazes de partilhar a mesma chávena, sem receios ou modéstias, somos capazes de guardar os mesmos pensamentos numa caixa obscura no quanto esquerdo da nossa memórias, somos incapazes de concretizar, de agir, de fazer, há toda uma dormência de espírito que nos inócua o corpo e nos dá sede.
Ninguém tropeça nos dias, ninguém nos tira a sede,
Senão nas manhãs, senão em todas as manhãs de todos dias em que tropeço em ti.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Off
Faz sol, não como daqueles de verão que nos enchem o corpo de forças, regenerando a alma de novas formas de ver, conseguindo levar coragem para novos dias, o sol daqui é frio, desagradável, ilusórios, dá-nos uma certa expectativa de iluminação interna, de um abraço reconfortante perante a adversidade, e nós vamos, iludidos com erradas expectativas. Está frio, lá fora e cá dentro. Ausência.
Poda dizer que parti, para novos lugares sem nome, numa vila sem pessoas e numa casa sem paredes, nova morada no mundo, minha, solitária, sem flores, com mar, uma nova madrugada quente. Mas não.
Podia pedir-te para não ires, ficares, ser injusto para com o mundo, num egoísmo que nem me é de direito, os nossos caminhos afastam-se e cruzam-se, esperando sempre voltar a ter-te um dia mais tarde, um segundo mais cedo.
Até lá silêncio, a liberdade é minha e amanhã será um novo dia,
Hoje, fecho as janelas, junto o meu café e espero,
embalo-me na música que não oiço, nos lugares que não vi,
Não hoje não estou. parti para lugares que não existem.
Poda dizer que parti, para novos lugares sem nome, numa vila sem pessoas e numa casa sem paredes, nova morada no mundo, minha, solitária, sem flores, com mar, uma nova madrugada quente. Mas não.
Podia pedir-te para não ires, ficares, ser injusto para com o mundo, num egoísmo que nem me é de direito, os nossos caminhos afastam-se e cruzam-se, esperando sempre voltar a ter-te um dia mais tarde, um segundo mais cedo.
Ir e vir. Partir e voltar. Sonhar e viver. Há rios demais no mesmo chão.
Até lá silêncio, a liberdade é minha e amanhã será um novo dia,
Hoje, fecho as janelas, junto o meu café e espero,
embalo-me na música que não oiço, nos lugares que não vi,
Não hoje não estou. parti para lugares que não existem.
domingo, 19 de janeiro de 2014
Há, Existe!
Há palavras que nos tocam, não pela extensão do seu parafraseado mas pela imensidão do seu sentido.
Há gestos que nos fazem amar, não pela complexidade do seu saber mas pela simplicidade da sua forma.
Há pessoas que guardamos não pelos tempos que passaram, mas por haver sempre tempos por passar.
Há gestos que nos fazem amar, não pela complexidade do seu saber mas pela simplicidade da sua forma.
Há pessoas que guardamos não pelos tempos que passaram, mas por haver sempre tempos por passar.
Ecce Homo
Há urgência nas palavras e sede nos silêncios, há uma torrente forte no tempo que nos joga para as despedidas mais fortes, as ausências mais tristes, há formas obtusas no silêncio e contornos imprecisos na tua boca que me trazem para perto, há verdade no teu sangue e sentimento no teu corpo. À que dizer sim, em cada despedida, no ultimo olhar, aquele toque repentino de dizer a toda a gente o que somos, somos maré negra nos oceanos, pássaro livre nos alteres e jogo sujo sem pecado.
Já não. Fica no tempo o que não criamos na mente, doendo por dentro e passando pelos braços, no vento, em contratempo na ausência, pelos dias e pelas noites, por cada ciúme e em cada hora, perguntamos ao tempo presente que agora ficou de ontem, que somos se inventássemos outro tempo...
Há nas formas um segredo que é teu, um desejo humano pelo igual, uma eterna conquista ao viver cada madrugada um pouco mais doce, um pouco menos alcoólica, onde o corpo se apaga lentamente, em pequenos golos de ausência, em pequenos travos de solidão. Ficou por escrever, ficou por viver, mas o que se escreveu e o que se viveu nunca se encontrou noutra estrada que não esta.
Depois de pararmos na noite, ao vermos Lisboa imensa, deparamos um profundo vazio crescente, de quem deixou pernoitar os filhos noitra terra, donde não voltam mais, há silêncio demais, há fome que sobeje e há sobretudo um nojo enorme, uma repugnância aguda por todo o grosso inimigo ignorante que apaga em cada estupidez crônica o que muitas palavras edificaram em muitos anos por muitas mãos, em muitas ausências.
Mar ao Sul da minha terra, o meu pais neste momento
O solo queima, o vento beija
Ainda e sempre.
Já não. Fica no tempo o que não criamos na mente, doendo por dentro e passando pelos braços, no vento, em contratempo na ausência, pelos dias e pelas noites, por cada ciúme e em cada hora, perguntamos ao tempo presente que agora ficou de ontem, que somos se inventássemos outro tempo...
Há nas formas um segredo que é teu, um desejo humano pelo igual, uma eterna conquista ao viver cada madrugada um pouco mais doce, um pouco menos alcoólica, onde o corpo se apaga lentamente, em pequenos golos de ausência, em pequenos travos de solidão. Ficou por escrever, ficou por viver, mas o que se escreveu e o que se viveu nunca se encontrou noutra estrada que não esta.
Depois de pararmos na noite, ao vermos Lisboa imensa, deparamos um profundo vazio crescente, de quem deixou pernoitar os filhos noitra terra, donde não voltam mais, há silêncio demais, há fome que sobeje e há sobretudo um nojo enorme, uma repugnância aguda por todo o grosso inimigo ignorante que apaga em cada estupidez crônica o que muitas palavras edificaram em muitos anos por muitas mãos, em muitas ausências.
Mar ao Sul da minha terra, o meu pais neste momento
O solo queima, o vento beija
Ainda e sempre.
A Ary, 30 anos de silêncio...
Uma eternidade de sentido!
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Disrupção Cognitiva: Destruição Criativa
Há uma distância imprecisa, oca, vazia, onde não subjaz luz, um espaço de evasão que me separa de mim, uma ilucidez estóica que desvirtua o sentido nenhum que coisa alguma pode ter, um caminho entre alvos e dardos, num bombardeamento constante de coisa alguma perante os caminhos sinuosos que me encaminham a sítio nenhum. Não, não, não, há um desejo de gritar que não. Um corte na alma até se esvaziar em silêncio, numa agonia metafórica de quem já não sabe sofrer calado, diz não, nega, há um absoluto sentido em negar o que não tem sentido nenhum, há uma racionalidade construída naquele que descontrói o que nunca chegou a edificar, um meio passo no caminho de quem não anda. Circunda. Eleve te à grandeza do infinito dos círculos, aqueles que se comem a si mesmos na vã esperança de não serem comidos por quem não os come. Envolvem se em si mesmos perenes, ateus, ignóbeis, na tentativa de em si mesmos ficarem, sem o outro, sem um mundo, deixando, falhados, um espaço vazio nas voltas redondas que dão sem saberem. Há racionalidade em falta no mundo mas um excesso perturbaste nas almas, não há seguimento causal nas causas infames do fracasso mas sentimentos demais naqueles que falham sem nunca falhar, falhando pela não tentativa, pelo fracasso do receio de falhar, uma vez mais o espaço entre o ser e o ser, uma descontracção oca entre si e si mesmo, um vazio dentro do vazio, um espaço oco dentro do vácuo, existir nada dentro do nada e talvez assim ser tudo no lugar do nada. Há espaço que sobre para fracassar, o fracasso é que não ocupa espaço nenhum, pelo sucesso, reduzimos às minorias metafísicas do sonho o espaço encarregue de o encarregar, assim, teremos sempre menos sucesso no espaço no que no nada e mais fracasso em nós no que noutros simplesmente por uma questão logística de organização de espaço mental. Nascemos sem as prateleiras necessárias a acoplar tudo e, sendo humanos e portanto talhados ao nada, ao fracasso, ao insucesso pela sua condição racionaliticamente sentimentalista, deixamos no cérebro o que não nos preenche e nas mãos deixamos voar o que nos faz falta. Por muito insignificante um grão de areia pode ser tudo o que queremos ao visitar os desertos do mundo, a gota pode ter todo o sal que lambemos e o sangue toda a desilusão que acoplamos.
Somos isto, eternas distâncias de si próprios, enquanto cada qual constrói a distância de si, de encontro ao caminho dos outros.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Acabo
Que faria sem um caminho de onde fugir, daquele trato que nos chama e depois nos deixa ir, que irá correr nessa mente que ninguém sabe, Eu estou bem, há mar suficiente para respirar, há loucuras que cheguem para sobreviver, há um trato amargo que nos chama a provar, uma chama latente, reluzente, pequena, quente, eterna, flamejando no ar em espirais sucessivas, deixando-se levar com o vento e não para o vento, resistindo num canto escuro à escuridão, num canto ventoso ao vento, e na memória, resistindo ao tempo. Pequena, uma cascata de fogo para o céu, sem o levedar do tempo, sem o ocultar da memória, onde aquecemos as mãos nas noites mais sós, onde respiramos nos momentos mais sôfregos de ar, há nele um espírito antigo, talvez a razão de lá estar, um resquício de uma vida anterior ou a premonição de uma futura. Dar-te-ia tudo, essa chama sabe demais para não receber, há nela o segredo antigo dos navegadores, a sede eterna das almas que querem descobrir sem saber o quê, os viajantes de terras sem nome, os agricultores das terras do mundo, os saudosistas do nada, sabes quem são.
Há caminhos onde a luz não chega, e perdemo-nos, deixamo-nos ir por caminhos paralelos que não chegam ao mesmo sítio, não passam pelas mesmas árvores nos mesmos arvoredos, rodopiam em si pela construção metafísica do tempo convexo, uma entrada per si dentro, flagrante, entorpecida pela dúvida, humedecida pelo medo, entalada pela solidão, mas seguimos, pelas curvas e pelos picos, sabendo do fim.
A pequena chama mantém-se, calma, olho para ela, sem ver, Acabo em ti. Tudo em mim tem uma tendência para o fim, eu mesmo me acabo quando me perco sem ninguém.
Há caminhos onde a luz não chega, e perdemo-nos, deixamo-nos ir por caminhos paralelos que não chegam ao mesmo sítio, não passam pelas mesmas árvores nos mesmos arvoredos, rodopiam em si pela construção metafísica do tempo convexo, uma entrada per si dentro, flagrante, entorpecida pela dúvida, humedecida pelo medo, entalada pela solidão, mas seguimos, pelas curvas e pelos picos, sabendo do fim.
A pequena chama mantém-se, calma, olho para ela, sem ver, Acabo em ti. Tudo em mim tem uma tendência para o fim, eu mesmo me acabo quando me perco sem ninguém.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
La Foule
Adoro o som do piano reflectido numas pequenas notas de whiskey, embaladas pelo ritmo escondido das nossas pernas basculantes por baixo das mesas de madeira onde nos sentamos sempre, elas balbucinam sem nós queremos, dançando a nota mais alta, atropelando os pequenos silêncios e exarcebando as melodias com pequenos toques no chão oco. Não é pecado o barulho, não se intromete na música tal como o álcool não se intromete na minha visão do teu rosto. O bar é o de sempre, já nos conhecem, É o costume, e servem-nos com um sorriso de velhos amigos, nem sabemos o nome deles mas sorrimos com a mesma magnitude, Obrigado, e o sorriso mantém-se enquanto nos cruzamos em múltiplos planaltos da vista.
A cantora chega, aquecida de voz, cabelos negros esfuziados de jazz pelas alturas, conturbados como a alma de quem a escuta, Boa Noite, suave, melancólico mas com uma vida tal que encanta as estrelas, elas mesmo dançam esta noite. Começa, pequenos sons, nada de palavras, não precisamos delas para expressar o mais puro, começáms a vida sem elas e muito possivelmente acabaremos igualmente mudos, com sons da alma, expirações sonoras da morte do corpo.
O piano toca, acompanha-a, à alma naquelas teclas, um ritmo crescente, uma alegria maior, um som juvenil, feliz, de quem ignrava a chuva da rua e o frio dos corpos, La foule. Os corpos dançam, as bebidas repetem-se, as pernas falham e tu falhas em mim, caímos.
Nada mais irrisório que cair para perceber o jazz, quando estamos no topo, há algo que nos impele ao chão, nos chama, nos agarra. A forma não está na queda, mas no toque que damos quando chegamos ao chão, podemos chegar a chorar e lá ficar, ou tocá-lo a rir pronto a criar altitude.
Voltamos à dança, a cantora pára para se rir também, o piano não, sustém a postura da música na ausência da voz. Ficámos assim os três, rindo, uma foulie infantil e sem sentido, completa.
Mais um corpo e a noite cresce até chegar a manhã, até o gelo derreter e os corpos se ressentirem do fumo e acabarem na madrugada.
Encontramo-nos no fim.
A cantora chega, aquecida de voz, cabelos negros esfuziados de jazz pelas alturas, conturbados como a alma de quem a escuta, Boa Noite, suave, melancólico mas com uma vida tal que encanta as estrelas, elas mesmo dançam esta noite. Começa, pequenos sons, nada de palavras, não precisamos delas para expressar o mais puro, começáms a vida sem elas e muito possivelmente acabaremos igualmente mudos, com sons da alma, expirações sonoras da morte do corpo.
O piano toca, acompanha-a, à alma naquelas teclas, um ritmo crescente, uma alegria maior, um som juvenil, feliz, de quem ignrava a chuva da rua e o frio dos corpos, La foule. Os corpos dançam, as bebidas repetem-se, as pernas falham e tu falhas em mim, caímos.
Nada mais irrisório que cair para perceber o jazz, quando estamos no topo, há algo que nos impele ao chão, nos chama, nos agarra. A forma não está na queda, mas no toque que damos quando chegamos ao chão, podemos chegar a chorar e lá ficar, ou tocá-lo a rir pronto a criar altitude.
Voltamos à dança, a cantora pára para se rir também, o piano não, sustém a postura da música na ausência da voz. Ficámos assim os três, rindo, uma foulie infantil e sem sentido, completa.
Mais um corpo e a noite cresce até chegar a manhã, até o gelo derreter e os corpos se ressentirem do fumo e acabarem na madrugada.
Encontramo-nos no fim.
Fatos escuros escondem gente oculta, mascarada, que caminham sem saber por onde caminhar, desafiando a racionalidade com o esquecimento. Não estou pronto para este jogo, não estou pronto para subir, nem para ver um tempo mais alto que este.
A neve para-me e não estou preparado para sorrir, nem para falar do meu coração, não estou pronto para ficar, não estou pronto para partir.
A noite vem de novo, como sempre, atiçando as memórias enquanto se afundam lentamente nas areias movediças do presente inoculando as margens nubladas dos olhos que já te custam a ver, longe, não fica luz suficiente para te ver, já não sei se brilhas nas noites que tremem. As memórias afundam-se e eu não estou pronto para sorrir.
Os teus passos ficam para trás, a tua lua fica mais longe, os meus sentidos perdem-se, não sabem onde parar, não sabem onde ficar, há um desejo macabro de morder, uma noite só para matar, e uma eternidade imensa para te sentir.
Mas,
Não estou pronto para desistir,
Não estou pronto para ficar,
Não estou pronto para partir.
Não estou pronto para atiçar os cães à tua alma.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Voltar
Volto a ti em todas as noites frias em que leio, numa conturbada mescla de êxtase e receio, de profundo alheamento pelo medo de me tornar demasiado próximo, demasiado íntimo das tuas palavras, nunca sabemos a quem escrever ou o que escrever para nós, sempre uma certa indecisão plácida de nos lermos nas palavras, uma Ricardiana tentativa de separar de nós o que acreditamos ver de nós mesmos. Todo este processo de aproximação/afastamento provoca um atrito leve na alma, um desassossego delicadamente saboroso, como uma pequena fria lambida pelo oceano salgado das tuas letras, inicialmente um ardor profundo que nos acorda, depois um silêncio apaziguador de quem fere os olhos com a escuridão e se deixa ir sem medo até à luz, não sossegado e ignorante mas ansioso e desperto, todo isto é demais e tudo isto é tão bom. Sentir de ti o bafo vivo da inteligência sentimental, não me tinha lembrado deste conceito antes mas se não existir é teu, inteligência sentimental, ter a precisão cirúrgica de dissecar os sentimentos em cada frase, muitas vezes curta, mas extensível para dentro até ao infinitivo das almas, até ao termo dos corpos.
Por muito longe que estejamos, por muitas ausências que partilhamos, umas tuas, outras minhas, infelizmente sempre nossas, sabemos, acredito que sim, voltar ao início, voltar à nossa praia nos meus rochedos que partilhamos e nos muitos silêncios que nos ouviram chorar por dentro.
Algures na rua onde passas passa um vento que é meu, como o café me traz sempre uma lembrança tua.
Talvez um dia as lembranças acabem e se tornem momentos, até lá, volto a ti nas palavras inteligentemente sentimentais que leio quando me perco e me circunda um único desejo de voltar.
Por muito longe que estejamos, por muitas ausências que partilhamos, umas tuas, outras minhas, infelizmente sempre nossas, sabemos, acredito que sim, voltar ao início, voltar à nossa praia nos meus rochedos que partilhamos e nos muitos silêncios que nos ouviram chorar por dentro.
Algures na rua onde passas passa um vento que é meu, como o café me traz sempre uma lembrança tua.
Talvez um dia as lembranças acabem e se tornem momentos, até lá, volto a ti nas palavras inteligentemente sentimentais que leio quando me perco e me circunda um único desejo de voltar.
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